Beb  vista
Fletcher's Baby!

Anne McAllister

Sabrina... A cegonha chegou! - N: 29


 




A noiva disse no!

O empresrio milionrio Sam Fletcher estava acostumado a ter tudo a seu modo. Nunca se vira numa situao sobre a qual no tinha controle. Quando Josie Nolan contou-lhe que estava grvida de um filho seu, Sam ficou perturbado, mas no hesitou! Um beb Fletcher significava apenas uma coisa para Sam: casamento. Era a atitude mais lgica, sensvel e responsvel a tomar, no era? Mas Josie queria se casar por amor, no por lgica. O nascimento do beb era iminente e Sam precisava faz-la mudar de idia... rpido!



Copyright  1997 by Barbara Schenck
Originalmente publicado em 1997 pela Silhouette Books,
diviso da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edio  publicada atravs de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e coloao so marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.

Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.

Ttulo original: Fletcher's Baby!

Traduo: Luiz Fernando M. Estevos
Editor: Janice Florido
Chefe de Arte: Ana Suely Dobn
Paginador: Fernando da Silva Laino

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10 Andar
CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil

Copyright para a lngua portuguesa: 1998
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Potocomposio: Editora Nova Cultural Ltda.
Impresso e acabamento: Grfica crculo.
CAPTULO UM


Sam Fletcher conhecia bem o efeito da diferena entre os fusos horrios nos viajantes. Sabia tudo sobre os olhos vermelhos e irritados, a letargia geral e a tendncia a bocejar nos momentos mais inoportunos. Mas nunca notara deficincia na audio antes.
 Tia Hattie fez o qu?!
Sam olhou para a me, que se atirara contra ele to logo abrira a porta.
Aquele evento por si s j era raro. Amlia Fletcher morava no mesmo edifcio que o filho, na Quinta Avenida em Nova York, mas levava a srio a privacidade dele. Intrometer-se na vida dos outros era falta de educao e Amlia Fletcher nunca fora acusada desse defeito na vida.
Entretanto, ali estava ela,  uma hora da tarde, ou trs d madrugada no horrio de Tquio, ao qual Sam ainda estava habituado, de p no saguo de seu apartamento, com uma lista na mo.
 O advogado disse que no podia esperar at que voc voltasse aos Estados Unidos para ler o testamento  explicou a me.  E, uma vez que tinha uma procurao sua para decidir em seu nome enquanto estivesse viajando, foi totalmente legal abrir o testamento sem voc.
 Sim, mas...
Sam devia ter perdido mais do que a audio. Sabia que a excntrica e devotada tia Harriet morrera na semana anterior e, embora lamentasse no ter podido comparecer ao enterro, no sabia o que tudo aquilo tinha a ver com ele.
 Ela deixou tudo para voc  repetiu a me. Era o que ele pensara ter ouvido da primeira vez.
 Tudo? Voc quer dizer...
Calou-se ao imaginar o que o "tudo" de tia Hattie podia significar.
A fim de no omitir nenhum item, a me leu na ntegra a relao de bens que tinha  mo.
  A casa, ou seja, a pousada, com toda a moblia, incluindo os vasos Ming, os cristais Tiffany, os esboos de Grant Wood e as perspectivas de Frank Lloyd Wright.  Aps uma pausa para recobrar o flego, completou.  Ela tambm deixou-lhe trs gatos, a saber: Clark Gable, Errol Flynn e Wallace Beery.  Lanou-lhe um olhar divertido por sobre os culos.  E um co chamado...
  Humphrey Bogart  adiantou-se Sam, fazendo coro com a me.
Recostou-se na parede e balanou a cabea. A situao era apenas parcialmente engraada. Amlia sorria, divertida.
  Isso mesmo.  Retomou a leitura da lista.  Um periquito...
Sam suspirou e inclinou-se para o lado.
 Fred Astaire.
A me finalizou com um gesto floreado:
  E um objeto no identificado denominado Josephine Nolan.
Sam endireitou o corpo.
  O qu?
Estranhando tambm, a me recuou um passo, analisando os caracteres com cenho franzido.
   o ltimo item da lista que o advogado me passou por fax  confirmou.  Josephine Nolan.  Voltou a sorrir.  Nunca ouvi falar de Josephine Nolan. O que acha que ? Um coelho? Um hamster? Uma tartaruga?
Sam no estava achando graa nenhuma. Sabia exata-mente o que era Josephine Nolan.
 O que tia Hattie tinha na cabea ao me deixar uma mulher?

* * *

Shakespeare tinha razo. Deviam matar todos os advogados, a comear por Herman Zupper, o fiel testamenteiro da tia Hattie.
 O que quer dizer com "saiu de frias?"  questionou Sam, ao ouvir da secretria que o advogado no se encontrava no escritrio.
  Por um ms  detalhou a moa.  Ele e a esposa esto na Alemanha comemorando as bodas de prata. Foi por isso que ele ligou e falou com a sra. Amlia Fletcher antes de partir.
Sam grunhiu. Passou a mo pelos cabelos. Estavam curtos demais para arrancar.
 Isso  um absurdo!  resmungou.  Por que a tia Hattie faria uma coisa dessas?
Como se j no tivesse bastante trabalho. Era o diretor-executivo da Fletcher's Imports, uma das importadoras mais exclusivistas que se conheciam. Lojas de griffes carssimas dariam tudo para comercializar os itens que ele tinha em carteira. Mas o fato de deter aquele nicho no significava que ele parara de se aperfeioar. Pelo contrrio, viajava pelo mundo todo,  procura de tesouros, fazendo negociaes de milhes de dlares. No tinha tempo para administrar uma pousadinha em Dubuque, Iowa!
 Asseguro-lhe de que tudo est em perfeitas condies  comentou a secretria, imaginando que ele estivesse to alterado por pensar que herdara uma espelunca.
Sam grunhiu novamente. Sabia que a pousada da tia Hattie era um negcio lucrativo. Instalada numa manso vitoriana, oferecia vinte aposentos, situava-se no ponto mais elevado, com vista da cidade de Dubuque e do rio Mississipi.
Tratava-se de um estabelecimento charmoso no qual ele mesmo j se refugiara algumas vezes, quando se tornara premente a necessidade de descansar das presses dos negcios. Tia Hattie, uma viva sem filhos, sempre o acolhera de braos abertos.
Ora, tia Hattie sempre acolhera o mundo todo de braos abertos, recordou Sam, sombrio. Apesar de prspera, a pousada de Hattie abrigava a maior coleo de elefantes brancos que ele j vira.
Os gatos eram apenas uma indicao da tendncia de Hattie de colecionar objetos que os outros jogavam fora. Talvez devesse sentir-se feliz por ela no possuir mais que trs gatos ao falecer. E um cachorro. E um periquito.
E Josie Nolan.
Estava a outro detalhe intrigante naquela histria. Sempre supusera que tia Hattie, no tendo herdeiros diretos, fosse legar todos os pertences a Josie, a quem amava como se fosse sua prpria filha. Que idia maluca fora aquela de legar Josie a ele?!
Sam pigarreou antes de retomar a conversa telefnica:
 E quanto ao item... Josephine Nolan?
 Josephine Nolan?
 No testamento  explicou Sam, sentindo-se idiota.  Tia Hattie me deixou os gatos, o cachorro, o periquito e... Josephine Nolan.
  Lamento, mas no estou a par dos termos exatos do documento. S sei que avaliamos a propriedade. Posso verificar, se o senhor desejar.
  No se preocupe. Eu farei isso.  Sam desligou, recostou-se no sof e ficou olhando para o teto.
A me, felizmente, j se fora. Amlia nunca gostara de situaes complicadas e ele mostrara-se mais que perturbado diante daquela herana inesperada.
 Vemo-nos quando voc estiver mais descansado, querido  declarara ela, antes de escapulir.  No se preocupe. Conheceu sua tia Hattie. Provavelmente ela s quis fazer uma brincadeirinha.
Uma brincadeira.
Josie Nolan.
Josie Nolan era a gerente da pousada. Por muito tempo, fora um dos elefantes brancos ali. Morando perto, na adolescncia passara dias olhando esperanosa para aquele casaro espaoso de Hattie e seu marido, Walter, at ser convidada a entrar e conhecer o estabelecimento. Dali a semanas, j estava trabalhando na pousada. O casal de estalajadeiros at pagou seus estudos em nvel superior, mas, aps formada, ela voltou para junto deles.
Josie era ainda uma morena magrela de quinze anos e olhos arregalados quando se conheceram. Aos vinte e dois anos, ele j era um homem viajado. Brincara com ela, conversara amenidades e esquecera-se dela ao partir.
Claro que ouvira as "histrias de Josie" contadas por tia Hattie ao longo dos anos e sempre se lembrava da garota morena de olhos grandes que ruborizava sempre que ele olhava para ela. Mas no a vira novamente at o outono anterior, quando se refugiara novamente na pousada fugindo do compromisso de apadrinhar o casamento da ex-noiva. Isobel Rule, ou Izzy, para os ntimos.
Quase no a reconhecera. Naturalmente, ainda tinha olhos grandes e cabelos escuros, mas desenvolvera curvas, seios e pernas.
Espantara-se diante das longas pernas de Josie. Nunca ligara muito para pernas. Ora, nem sequer se lembrava das pernas de sua ex-noiva!
De repente, surpreendia-se recordando as pernas de Josie Nolan.
Imaginara, ento, estar carente por ter sido abandonado. Teria se impressionado com qualquer mulher, pois encontrava-se sensvel s mulheres. Era uma tentativa de recuperar o equilbrio aps a maneira brusca como Izzy o dispensara.
Agora, conclua que ela agira bem rompendo o compromisso ao descobrir que nutria sentimentos mais profundos por Finn.
De qualquer forma, ainda era difcil conformar-se quela situao e, com certeza, no suportaria postar-se no altar e ver a mulher que um dia amara chegar pelo corredor para se casar com outro homem.
Por isso, fugira para Dubuque e ficara l uma semana executando trabalhos gerais, de fiao, pintura, colocao de papel de parede, etc.
Era com o etc. que se preocupava agora.
Teria Josie contado a tia Hattie o que acontecera na ltima noite que ele passara na pousada?
Era importante saber isso.
Ou talvez fosse melhor no saber.
Tinha vaga lembrana daquela noite. Se fechasse os olhos, veria novamente a expresso transtornada de Josie Nolan ao abrir a porta do quarto. Ele no devia ter batido. Devia ter ignorado os soluos abafados dela, em vez de bancar o bom samaritano.
Naquela noite, ele no estava em condies de oferecer consolo a ningum, s queria consolar a si mesmo. Era a noite do casamento de Izzy e Finn. Embora estivesse feliz por Izzy e entendesse que ela estava se casando com o homem certo, no se sentia bem na posio de homem errado.
Logo aps o jantar, recolhera-se ao quarto com uma garrafa do melhor usque irlands do falecido tio Walter, desejando que o mergulho na bebida o fizesse esquecer a realidade.
Talvez a bebida houvesse aguado sua audio. Ou talvez as paredes fossem mais finas do que pareciam. Ou talvez sua tolerncia a lgrimas estivesse baixa. Independentemente do motivo, ouvira os perturbadores soluos femininos. Aniversariante naquele dia, Josie esperara que seu noivo, Kurt, a levasse a algum lugar especial para comemorarem. Vira-a andando ansiosa pelo saguo de entrada e, depois, na varanda, olhando esperanosa para o fim da rua. Teria ele deixado de aparecer?
Sem pensar, batera  porta do quarto de Josie e a vira de camisola, com o rosto coberto de lgrimas. Devia ter murmurado um consolo qualquer e se afastado. Em vez disso, compadecera-se e sugerira:
 Dizem que a misria adora companhia. Venha tomar um trago comigo.
Josie no devia ter aceito a sugesto.
Nao se lembrava bem do que acontecera em seguida.
Havia uma vaga lembrana de sons abafados, sorrisos entristecidos e carcias. Talvez houvesse passado a mo por aqueles longos cabelos negros. De fato, passara a ltima semana associando a Josie o aroma de xampu de canela. De fato, afagara-lhe as pernas longas e macias. Mais tarde, aps brindar a ex-noivos e noivos desnaturados, as carcias o beijos tornaram-se mais ardentes e ento... ela colocou as longas pernas a seu redor.
Lembrava-se de ter acordado na manh seguinte com uma terrvel dor de cabea e o telefone celular tocando. Era Elinor, a secretria, informando que o sr. Nakamura estava viajando naquela tarde para tratarem do carregamento de moblia de madeira nobre sobre o qual haviam assinado contrato.
De ressaca, entorpecido, prometera comparecer.
Ento, olhou ao redor para ver se os acontecimentos da noite tinham sido apenas um sonho. Josie no se encontrava, deviam estar j de p, preparando o caf da manh para os hspedes.
Poderia crer que ela nem estivera ali, no fossem os dois copos de usque vazios sobre a mesa prxima  lareira. S ento viu a calcinha de Josie em meio aos lenis.
Fez as malas rapidamente antes de descer. Deveria falar com Josie, mas no sabia o que dizer.
Encontrou tia Hattie na cozinha, mas nada de Josie.
 Kurt telefonou  informara a tia.  Queria encontrar-se com ela agora pela manh. Como ele no apareceu ontem, eu disse para ela ir.  Sorrindo, completara:  Ela vai lamentar no ter se despedido de voc...
Ele no tivera tanta certeza.
Josie devia ter-se arrependido dos acontecimentos na noite anterior. Com certeza, correra para os braos do noivo assim que ele estalara os dedos. Melhor assim. No teria de fazer papel de tolo desculpando-se por seu comportamento.
Mas somente por sete meses.
A ocorrncia daquela noite voltava a ter importncia agora.
Antes de mais nada, precisava descobrir por que tia Hattie lhe legara a pousada. A maior responsvel pelo sucesso daquele estabelecimento, Josie, o merecia mais do que ningum. Ele, Sam Fletcher, no tinha nada a ver com aquilo.
Pensando bem, estaya mais envolvido do que imaginara a princpio. Herdar um legado implicava pagar impostos. Ele tinha como arcar com as despesas, mas Josie, no. Se abrisse mo da pousada em favor de Josie, ela no se beneficiaria. Provavelmente, no teria como mant-la em funcionamento.
Ora, talvez Josie nem quisesse aquela herana. Talvez j estivesse casada com Kurt.
Prestes a se tornar pastor, o noivo de Josie era muito dedicado a seu ofcio religioso e um tanto possessivo no que se referia a ela. Tinha a impresso de que ele no admitiria dividir as atenes dela com mais ningum, depois que se casassem.
Sam gemeu tentando analisar a situao. Tinha certeza de que estaria raciocinando com mais lgica se no estivesse sofrendo tanto os efeitos da mudana de fuso horrio. Talvez tudo fizesse mais sentido pela manh.
Cansado demais para se levantar e ir para o quarto, aninhou-se ali mesmo no sof, com uma almofada sob a cabea. Seu ltimo pensamento consciente foi para a inesperada herana.
 Tia Hattie, o que est aprontando agora?  murmurou.


Sam deu a si mesmo um prazo de vinte e quatro horas para ir at Dubuque e resolver o problema da pousada, talvez colocando Josie para administrar o negcio at que surgisse algum interessado em compr-lo. No dia seguinte, deveria estar de volta a Nova York para a reunio com um grupo de empresrios da Tailndia.
Teria preferido aguardar a volta do testamenteiro Herman Zupper, ou tratado da questo por meio do correio, telefone e fax.
Teria preferido no ter herdado nada e, assim, no ter que ir a lugar algum.
Mas era seu dever, pois tia Hattie sempre lhe demonstrara afeto, consolando-o quando o fardo de administrar o imprio Fletcher tornava-se-lhe pesado demais.
Lamentava no ter podido aceitar o convite dela para passar o ltimo Natal em Dubuque. Ficara surpreso ao atend-la ao telefone naquela tarde fria de dezembro. Tia Hattie geralmente enviava-lhe telegramas quando queria comunicar algo.
 Venha, Sam  insistira ela.
Ele alegara estar ocupado. Muito ocupado.
Mas estivera mesmo ocupado demais para passar o Natal na pousada de tia Hattie? No. Bem poderia ter tirado alguns dias de folga e levado a me para celebrarem com tia Hattie aquele que seria seu ltimo Natal.
Recusara o convite por causa de Josie.
Teria sido constrangedor. Esquisito. Ela e Kurt planejavam casar-se em dezembro, logo aps a formatura de Kurt.
A julgar pelas peas que o destino vinha lhe pregando, no mnimo teria que levar Josie at o altar e entreg-la quele tipo insensvel!
No, obrigado. Por isso, negara o ltimo pedido da querida tia Hattie.
Agora, era tarde demais. Mas iria a Dubuque, pois amara a tia e lhe devia isso.
E Sam Fletcher no fugia ao dever.
  Oi, Sam  saudou um velho grisalho numa cadeira de balano  varanda, assim que Sam saltou do carro alugado na alia em frente da pousada.  Faz um tempo que voc no aparece!
  Oi, Benjamim.  Sam subiu os degraus e estendeu a mo.  Como vai?
O velho o cumprimentou com energia e recostou-se novamente na cadeira.
  Sinto a falta de Hattie, se quer saber a verdade  declarou. Comeou a balanar-se na cadeira.
 Eu imagino.
Sam sabia que Benjamim Blocker devia muito a tia Hattie. Aos oitenta anos, era um agregado da pousada, a exemplo de Josie. Muitos anos antes, ele trabalhara no rebocador que o falecido marido da tia mantinha no Mississipi, mas fora demitido por ser alcolico. Sempre esperanoso por se recuperar, participara de vrios programas sociais para se livrar do vcio, sem sucesso, aparecendo de vez em quando para fazer uma refeio.
Ento, no ano em que Walter morreu, Benjamim apareceu na pousada no momento em que tia Hattie enfrentava um problema nas instalaes hidrulicas e realizou todos os reparos necessrios.
Grata, tia Hattie sugerira:
  Por que no fica por aqui? H muito trabalho a ser feito.
E Benjamim ficara. Ser necessrio, realmente necessrio, provocara nele uma mudana que nenhum dos programas sociais bem intencionados conseguira. Nunca mais colocara uma gota de lcool na boca. Desde o dia em que comeara a trabalhar na pousada, j instalara banheiros novos em quatro cmodos e mantinha as instalaes hidrulicas em perfeita ordem.
Depois, quando tia Hattie comprou uma casa no meio da encosta pensando em alug-la por perodos mais longos, Benjamin executou as reformas necessrias e mudou-se para o poro, como zelador. Havia pouco mais de um ano, ela lhe doara a casa. Ele jamais ficaria sem um teto.
Provavelmente por isso, refletiu Sam, tia Hattie no legara mais nada a Benjamim no testamento.
Cletus, outro agregado da pousada, aproximava-se da varanda a passos lentos. Com uns setenta e cinco anos agora, tia Hattie encontrara-o na fila da sopa destinada a pessoas carentes e logo descobrira tratar-se de um jardineiro desempregado. Convidado para fazer a manuteno do jardim da pousada, logo demonstrara profundo conhecimento do ofcio:
  As plantas precisam de poda, mas a poca certa  no outono.  Avaliou os arbustos de flores, muito crtico.  Aquelas penias precisam de armao  declarou.  E uma trelia melhor para as parreiras.
 Pode fazer uma trelia tipo caramancho?  perguntara tia Hattie, animada.
Cletus atendera ao pedido, e o caramancho estava at hoje no mesmo lugar.
O velho jardineiro pousou o carrinho de mo cheio de casinhas com plantas e olhou Sam de cima a baixo.
  Como vai, Cletus?  Sam estendeu a mo.
Cletus grunhiu e apertou a mo de Sam, num cumprimento mais forte do que o normal.
 Voc demorou para vir. 
Sam mostrou-se desconsolado.
 Vim o mais rpido que pude. Eu estava no Oriente quando tia Hattie faleceu. No pude vir ao enterro.
Cletus soltou um grunhido e Benjamim, outro.
 Mas aqui estou  finalizou Sam.  No se preocupem. Tudo vai ficar bem. Vou arranjar tudo. 
Cletus aquiesceu.
 Mas  claro que vai.
 Tenho certeza de que vai fazer o que  direito  Beijamim assentiu satisfeito.
Sam ficou contente por confiarem nele. 
 Claro que vou. 
 Contamos com voc  declarou Cletus, finalmente.
O que estava acontecendo ali? Estariam pensando que ele venderia o estabelecimento sem lev-los em considerao?
 Vou me assegurar de que vocs fiquem bem  prometeu. 
 No estamos preocupados conosco  disparou Cletus.  Mas com Josie.
 Vou tomar conta de Josie  prometeu Sam.
Aparentemente, era o que os dois ancios esperavam ouvir, pois ficaram mais relaxados.
  Eu sabia  comentou Benjamim.
 Bom rapaz  concordou Cletus, e bateu-lhe s costas. 
Sam aproveitou e indagou:
  Onde ela est?
 Na cozinha. Ela no disse que voc estava vindo. 
Sam transferiu o peso de uma perna a outra.
  Eu no telefonei.  No explicou por qu. Mas precisava esclarecer uma dvida antes de v-la.  Ela... ela se casou?
Benjamim ficou olhando para ele. Cletus tirou os culos, limpou-os e recolocou-os antes de responder:
 Ainda no.
Sam suspirou. No era de surpreender. Nunca depositara muita f no tipo egosta que Josie escolhera para marido.
 Vou falar com ela agora.
Sam contornou a casa rumo  porta dos fundos.
Podia ter optado pela porta da frente, mas ento teria que tocar a campainha e esperar que Josie fosse abrir a porta envidraada. Ela o veria antes que ele a visse. A vantagem seria dela.
Mas ele queria a vantagem a seu lado.
Viu-a pela janela da cozinha. Havia um balco isolado no meio e ela estava atrs dele, arrumando flores. Josie era alta, mais de dez centmetros em relao a Izzy, e tinha cabelos castanhos brilhantes e compridos com reflexos avermelhados devido  exposio ao sol. Lembrava-se de querer passar a mo naqueles cabelos, desde a primeira vez em que a vira, quando ela no era muito mais do que uma criana. Sempre detivera-se at...
Enfiou as mos nos bolsos. Ela o teria visto chegando se tivesse levantado o olhar. Mas estava compenetrada, arrumando flores em diversos vasos. Narcisos, cravos, sempre-vivas, ramalhetes alegres que traziam a natureza para cada quarto, conforme comentara certa vez.
Josie realizava aquela tarefa todos os dias. No a deixara de lado nem mesmo em seu aniversrio, quando o noivo a decepcionou, quando ele a convidou para tomar uma bebida em seu quarto e...
Raios! A nica alternativa agora era pedir-lhe desculpas, adinitir que cometera um erro, que ambos haviam cometido um erro. Ento, sendo civilizados, superariam essa questo.
Abriu a porta.
Josie ergueu o olhar, um sorriso no rosto. Assim que o identificou, ficou sria. E plida.
Sam remexeu o maxilar. Respirou fundo e tentou falar num tom descontrado.
 Josie...
Ela engoliu em seco.
  Sam...
Ele estranhou a recepo. Estava acostumado a ver o rosto de Josie iluminar-se ao v-lo. Estava acostumado com o brilho em seu olhar, a alegria em seu rosto. A expresso dela naquele momento era de contrariedade. Era como se da estivesse atrs de uma parede de ao. Ele no era digno nem da atitude cordial que ela reservava aos hspedes.
Sam contraiu os lbios e assentiu levemente, reconhecendo a distncia que ela impusera.
  Vim assim que pude  declarou, frio.  Lamento no ter comparecido ao enterro. Estava em Hong Kong e tinha que passar no Japo antes de voltar.
  Claro.
Josie pegou um cravo e ajeitou-o no vaso, evitando encar-lo.
O relgio emitia um som leve da movimentao do ponteiro dos segundos. Um avio passou ao longe.
Sam tamborilou os dedos na coxa.
  Eu devia ter vindo no Natal. No vim porque... porque...
Por sua causa. No, no podia dizer aquilo. Respirou e tentou novamente.
  Quando estive aqui da ltima vez... 
Parou de novo.
Devia-lhe um pedido de desculpas, com certeza. Mas ela no estava facilitando a situao. Gostaria que ela o encarasse naquele momento, que lhe desse alguma indicao do que estava pensando.
Sam Fletcher, que algum definira como algum que "exalava charme por todos os poros", naquele momento apenas transpirava de nervosismo.
 Sobre aquela noite...  recomeou, concluindo que a aproximao direta era a melhor poltica.  Foi um equvoco. Um grande equvoco... convid-la para tomar uma bebida comigo. E depois... bem, depois...
Fez uma pausa. Raios, pelo menos olhe para mim!
Ela olhou. No foi de grande ajuda. Seu semblante estava to inexpressivo que ele no tinha a mnima idia do que se passava em sua cabea.
 O que quero dizer  que... Nunca planejei que aquilo... acontecesse.  Calou-se de novo, devido ao silncio total dela.  Foi efeito do usque...
  Foi o que pensei.  A voz de Josie saiu sem vida, indiferente.
Ela se voltou para olhar pela janela.
 Quis falar com voc na manh seguinte, mas tia Hattie disse que voc tinha ido encontrar Kurt...
Ela assentiu.
 Eu compreendo.
Ento, ele no arruinara a vida dela. Otimo. Sorriu inseguro e respirou bem fundo.
  Que bom.
Josie pegou dois vasos que estavam  sua frente e colocou-os no carrinho. Sam desceu o olhar, esperando v-la de short, exibindo aquelas maravilhosas pernas longas, pernas com as quais um dia ela o imobilizara.
Mal viu-lhe as pernas.
Viu s a barriga.
Josie estava grvida!
E no era incio de gravidez. Ela estava enorme.
 Voc vai ter um beb!
Josie colocou os vasos no carrinho. 
Ela estava grvida e...
 E Kurt ainda no se casou com voc? 
De repente, Sam sentiu-se furioso. Aquele egosta do Kurt continuaria a fazer pouco caso dela sempre? Era inadmissvel!
 At que ponto vai a irresponsabilidade desse seu noivo?
Josie encarou-o.
 Por que ele se casaria comigo? No  dele o filho que estou esperando.
  No...?  Sam gaguejou, atnito. No era filho de Kurt?
Franziu o cenho, o crebro funcionando a todo o vapor, processando a nova informao, tentando encaixar as peas do quebra-cabea.
Ora, Josie no era uma moa leviana! Sempre lhe parecera to quieta, dedicada. Meiga. Gostava dela, respeitava-a, mas lamentava que a vida no lhe reservasse sorte no amor.
Compadecera-se dela naquela noite de outono e desejara confort-la. Talvez houvesse se equivocado. Remexeu o maxilar. Afinal, quo promscua era aquela moa?
 Quero crer que voc sabe quem  o pai da criana  replicou, em tom de censura.
Josie arregalou os olhos. Rgida, ergueu o queixo e ruborizou intensamente.
 Na verdade, sei  confirmou, indiferente.  E voc.


CAPTULO DOIS


Oh,, parabns, congratulou-se Josie. Que tato. Que sutileza.
Mas era difcil ser sutil quando se est do tamanho de um rinoceronte.
Suprimiu um suspiro e concentrou-se em parecer o mais indiferente possvel. No era fcil. Na verdade, era mais difcil do que imaginava.
Nos ltimos seis meses, desde que percebera que a noite que passara com Sam Fletcher teria outras repercusses alm das de natureza emocional, sabia que aquele momento viria. Adiara o inevitvel, resistindo s crticas contnuas de Hattie para que contasse a Sam, em vez de "enfiar a cabea na areia como um avestruz", parodiando a querida protetora.
Pois preferia chamar de sobrevivncia.
De que outra maneira definir aquela relutncia em dar ao homem com quem passara uma nica noite a notcia de que ia ser pai quando ele parecia descontente apenas por rev-la?
A noite de intimidade acontecera por "efeito do usque". No fora essa a explicao dele? Quanto a ela, sempre soubera disso, mas simplesmente no fora capaz de resistir.
Josie Nolan amava Sam Fletcher secreta e desoladamente desde os quinze anos de idade.
Realista, ela nunca cogitara que o empresrio milionrio se apaixonaria pela filha adotiva do vizinho da tia Hattie.
Ainda que agora fosse a gerente da pousada, o fato era que comeara como arrumadeira. At conhecia a histria de Cinderela, mas isso no significava que era idiota.
De algum modo, porm, deixara-se envolver pelo clima de conto de fadas, pois, quando Sam Fletcher aparecera em sua porta, na noite de seu vigsimo quinto aniversrio, todo compaixo, gentileza e amizade, fora incapaz de dispens-lo.
Assim, passara os ltimos seis meses tentando imaginar um modo de contar-lhe sobre os resultados daquela noite.
No parecia haver uma forma satisfatria. Qualquer argumento levaria Sam a pensar que ela era uma aproveitadora, disposta a for-lo a um casamento indesejvel.
As vezes, na calada da noite, por exemplo, quando se lembrava da ternura do toque, da urgncia, da persuaso dos lbios dele, entregava-se  iluso de que realmente ocorrera algo especial entre eles, de que ele receberia bem a notcia da gravidez, de que ele sentia sua falta tanto quanto ela sentia a dele.
A luz do dia, sabia que era tudo bobagem.
Mas, enquanto ele no aparecesse e declarasse que tudo no passara de um lamentvel equvoco, no ousaria perder o fiozinho de esperana.
Acabava de perd-la.
Sam gaguejava incontrolavelmente:
 Nun... nunca tive a inteno de... de... 
Nem ela.
Mas acontecera. Agora, teriam um filho.
Josie levantou-se, preparada para receber os golpes verbais. Sam esbravejaria, assim como Kurt esbravejara. De dedo em riste, questionaria, frio: "Bem, o que voc vai fazer a esse respeito?", exatamente como o ex-noivo.
Mas Sam no lhe apontou o dedo. Estava plido, apesar do bronzeado. E sua voz no saiu fria. Saiu emocionada ao confirmar, incrdulo:
 ...  meu?
No, Sam no esbravejaria. Sua maneira de falar confortava. Atnito, ele se mantinha ali parado como se houvessem atirado uma bomba a seus ps.
Tratava-se mesmo de uma bomba, concluiu Josie. Sam fora a Dubuque a fim de tratar do legado de tia Hattie, no para receber a notcia de que seria pai.
 Tem certeza?  indagou Sam.
Ela se enrijeceu e a angstia que sentia por ele se dissipou. Ruborizou.
  Sim, tenho certeza. Apesar da impresso que possa ter causado, no ando por a dormindo com um homem a cada noite!
 No foi o que eu quis dizer...  Ele se calou, indefeso. Suspirando, passou a mo pelos cabelos curtos.  Bolas, talvez quisesse dizer isso mesmo, mas  porque estou chocado. Desculpe-me...
Ele no a encarava. Parecia no conseguir desviar o olhar da barriga dela.
Josie recebeu a desculpa no esprito em que foi emitida: de m vontade. Pegou mais dois vasos e voltou-se para o carrinho. No ficaria ali, vendo-o pasmo! E no quereria v-lo raciocinando, tampouco.
Queria sair correndo dali, mas tambm no daria esse prazer a ningum.
Permaneceu, ciente do silncio, ciente do passo adiante, ciente do pigarro de Sam ao indagar-lhe:
  Ento... voc ia me contar?
O tom era cordial, quase casual, mas ela sentia o nervosismo dele, sabia o quanto ele se esforava para se controlar.
Ela passou a lngua nos lbios e encolheu os ombros na tentativa de parecer descontrada.
 Num dado momento, imagino, eu teria que contar.
  Voc teria que contar?  Sam espantou-se.  No imaginou que eu talvez quisesse saber?
 Para ser franca, no.
Sam encarou-a boquiaberto. Ento, como se tivesse percebido, fechou a boca. No deixou de encar-la nem por um instante.
Desafiadora, Josie devolveu o olhar.
 Bem, este no  exatamente um momento tpico dos romances, no ?
Sam remexeu o maxilar.
 Est querendo dizer que no quer esse filho?
Josie pressionou a mo protetoralmente sobre a barriga.
 No, no estou dizendo nada disso! Eu quero esta criana.
Era a nica coisa de que tinha certeza. Filha de pais desnaturados, fora abandonada e passara por vrios lares adotivos desde os seis anos. No deixaria que isso acontecesse com seu filho. Cuidaria dele com todo o amor. Quanto a isso, estava decidida.
 Mas no consigo imagin-lo com a mesma disposio  completou.  Voc consegue?  disparou, to rude quanto ele se mostrara pouco antes.
Sam pareceu ficar sem resposta.
Satisfeita, Josie comeou a empurrar o carrinho na direo da sala de jantar.


Pouca coisa perturbava Sam Fletcher.
Afinal, era um empresrio de renome internacional. Negociara at o privilgio de fornecer moblia nobre ao pax de um pequeno reino asitico, algo que a concorrncia daria tudo para obter. Estava acostumado a fechar contratos de milhes de dlares, colocando em jogo as finanas de muitas pessoas, incluindo a sua. E at manteve a compostura quando a noiva o trocou por outro homem.
Sim, sim, sim, sim e sim novamente.
Mas a notcia de que teria um filho com uma mulher a quem nem se lembrava de ter levado para a cama... Beta, isso tiraria do srio o mais calmo dos homens.
Sam estava para l de agitado. Estava se descabelando.
Quase acusara Josie Nolan de estar maluca, certo de que no era irresponsvel a ponto de fazer um filho com uma mulher com a qual nem era casado! Mas o fato de no se lembrar dos acontecimentos naquela noite era prova cabal do quanto fora irresponsvel.
Em seguida, teve vontade de fugir. Ele, que nunca fugira de nada na vida.
Fora criado para assumir a responsabilidade por seus atos, para aceitar desafios, para exercer liderana, para fazer a coisa certa.
Fora a Dubuque na esperana de fazer o que era certo, dar um destino aos bichos que tinham feito parte da vida de tia Hattie. Esperava encontrar um comprador para a pousada e at encontrar um novo lar para os trs gatos, o cachorro e o periquito.
Quanto a Josie, pretendera pedir-lhe desculpas, garantindo que s podia ser brincadeira de tia Hattie t-la legado a ele.
Comeava a entender a atitude da tia Hattie.
Jamais lhe passara pela cabea estar s vsperas de ser pai.
O testamento da tia Hattie fizera o que Josie no ousara: lev-lo a Dubuque para inteirar-se de um fato da maior importncia.
Talvez devesse agradecer a tia Hattie. Agradeceria, se no estivesse to abalado.
Ia ser pai?
Idia perturbadora. E imaginar que, se tia Hattie no o houvesse forado a tomar posse da pousada, talvez ele nunca viesse a saber.


Era como esperar a gota d'gua.
Ao mesmo tempo que distribua os vasos de flores pelos cmodos, atendia os hspedes, oferecia champanhe aos recm-casados, telefonava a restaurantes fazendo reservas e esclarecia sobre as atraes locais, Josie mantinha-se olhando por sobre o ombro, esperando Sam aparecer.
Ele no estava mais na cozinha quando ela voltara.
 Saiu  informara Cletus.
 Caiu em cima dele, no foi?  deduziu Benjamin.
Josie negou, mas vira a expresso de Sam. Talvez ele houvesse ido embora. No, o carro alugado dele ainda estava rui vaga. Aonde quer que tivesse ido, fora a p. Lembrou-se de que ele ia at o atracadouro, ou caminhava  beira do rio, sempre que queria pensar.
 Ele precisa de espao  explicara Hattie.  Perspectiva. Precisa recuar um passo para entender as suas responsabilidades.
Estaria fazendo isso naquele momento?
De qualquer forma, Josie gostaria de no estar envolvida.
No sabia se seria melhor que ele voltasse para que resolvessem a questo, ou que ele permanecesse longe, de modo que ela pudesse fingir que nada acontecera.
Teria que ser a primeira opo, a menos que ele concordasse em desaparecer pelo resto da vida dela!
A tarde passou rpido. Novos hspedes se registraram, as flores foram entregues, as reservas foram feitas e as perguntas foram respondidas, mas nenhum sinal de Sam.
Otimo, pensou Josie. No. No estava nada timo.
Bolas. No sabia o que fazer, alm de se descabelar. Ficou andando pelo saguo de entrada. Olhou pela janela. At saiu  varanda e esticou o pescoo para ver o fim da rua, na esperana de ver Sam, determinada a no permitir que ele a surpreendesse novamente.
Logo, j era noite. O ar frio de abril obrigou-a a entrar. Deu mais alguns passos pelo saguo de entrada e ento foi para a cozinha, ainda impregnada das lembranas do desastroso reencontro.
Agitada, desceu a escada de madeira que levava  lavanderia no poro. Precisava dobrar dezenas de toalhas e lenis. Se Sam fosse procur-la ali, ouviria o ranger dos degraus e no seria pega de surpresa.
Ora, por que se preocupar tanto? Sua realidade no se alteraria agora que Sam tambm estava ciente dela. Ela continuava grvida e seu amor por ele no seria correspondido.
Perguntou a si mesma, pela milsima vez, por que no se satisfizera com Kurt, apesar de ele dar mais importncia a sua misso religiosa do que a ela.
Talvez ele estivesse certo.
Mas ele no precisava ter salientado o quanto ela fora idiota experimentando o fruto proibido.
Desceu a escada com cuidado, segurando no corrimo. Sempre se deslocara pelo casaro vitoriano sem pensar, leve e solta, mas nos ltimos meses, com a barriga se avolumando, passara a andar mais devagar.
Devia ter olhado bem por onde andava sete meses antes!
Na lavanderia, inclinou-se e tirou um monte de toalhas do cesto, dispondo-as sobre o balco para dobr-las. Era um trabalho mecnico, calmante. Acabou uma pilha e ento pegou mais toalhas do cesto.
Dentro da barriga, o beb deu um chute.
Josie sorriu. Mesmo estando muito aborrecida, aquela criana sempre podia faz-la sorrir. Talvez fosse tolice pensar que j tinha uma ligao com o beb, mas era o que sentia. No se tratava mais de Josie e o resto do mundo. Agora eram Josie, seu beb e o resto do mundo.
 Acordou, hein?  sussurrou, branda.
Largou as toalhas, acariciou a barriga e foi recompensada com outro empurro. Deu um tapinha no beb e sorriu novamente. s vezes, imaginava poder comunicar-se com aquele ser que ocupava provisoriamente seu corpo.
 Como foi o seu dia?  indagou, precisando desabafar.  O meu foi difcil. E acho que vai piorar ainda mais  confidenciou. Pegou uma toalha e se abanou com ela antes de dobr-la.
O beb chutou novamente. Forte. To forte que Josie fez uma careta de dor.
  O que foi?
Josie reagiu com um pulo, deixando cair a pilha de toalhas. Dando meia-volta, olhou assustada para a adega no outro extremo do poro. Sam estava de p nas sombras.
  Olhe o que voc fez!  ralhou ela, brava.
 Parece que isso  pouco em relao ao que fiz da outra vez.  replicou ele, e avanou um passo. 
Instintivamente, Josie recuou.
 O que foi?  indagou ele.  Est sentindo dor? 
Ela balanou a cabea negativamente. 
 No. Foi... foi um chute, s isso. 
 Chute? 
 Do beb.
Ele olhou para a barriga dela e abriu a boca como se fosse dizer algo. Mas apenas passou a lngua pelos lbios e balanou a cabea. Inclinou-se para pegar as toalhas.
Josie desejava poder recolher as toalhas sozinha, mas no podia. Havia um beb entre ela e o cho.
 O que estava fazendo escondido na adega?  perguntou, contrariada.
  No estava pegando outra garrafa, se  essa a sua preocupao.  Sam endireitou-se e pousou as toalhas no balco.
 Pode coloc-las na mquina outra vez?  pediu Josie.  No posso us-las mais.
Obediente, ele colocou as peas felpudas na mquina de lavar.
 Eu estava pensando  esclareceu, em resposta  pergunta anterior.
 Na adega?
   um bom lugar para isso.
Josie fechou a mquina e foi buscar o sabo em p. Sem pressa, colocou o sabo no local adequado, e selecionou o programa de lavagem requerido. No conseguia pensar em nada para dizer.
Sam no ia embora. Aps apertar os botes, Josie abriu a tampa da mquina e verificou a distribuio das toalhas.
  Vim porque tia Hattie me deixou a pousada  comentou Sam, desconfortvel com todo aquele silncio.
 Eu sei.
  Sempre pensei que ela deixaria a propriedade para voc  comentou ele.
Josie fechou a tampa e ligou a mquina.
 Por que deixaria? No sou da famlia.
 Voc era mais chegada a ela do que qualquer pessoa da famlia. Era a neta que ela e Walter nunca tiveram. Ela amava voc.
Sam falava em tom quase acusador.
  Eu a amava tambm  afirmou Josie, e voltou-se para encar-lo.  Ela foi a me, a av, a famlia que eu nunca tive. Mas nunca esperei que ela me deixasse a pousada! J tinha feito muito por mim, providenciou at um fundo. O sr. Zupper pode falar-lhe a respeito, se quiser. Um para mim e... e um para o beb.
 Voc devia ter recebido a pousada tambm  insistiu Sam.  Quando estive aqui no outono, na poca em que Izzy e eu...
 Eu sei quando  adiantou-se Josie. Ele achava que ela podia se esquecer?
Sam respirou fundo.
  Certo. Voc sabe quando. Bem, naquele ocasio, tia Hattie me disse que eu no precisaria me preocupar com a pousada quando ela partisse. Eu respondi que ela no iria a lugar algum.
Ele fez uma pausa e Josie percebeu que ele sofria. Combinava com sua prpria dor, mas no ia oferecer-lhe conforto.
 Voc no sabia que ela ia morrer  concluiu ela.  Nenhum de ns sabia.
 Tia Hattie sabia. Ela disse: "Este velho corao pode parar a qualquer momento. Ento quero que saiba de uma coisa..." Ela disse que no queria desrespeitar a famlia, mas que ia deixar a propriedade para voc.  Sam passou a mo pela nuca.  Sendo assim, ao me legar a pousada, junto com voc, ela estava querendo enviar uma mensagem.
Josie fitou-o no rosto.
 Ela me deixou para voc?
 Pensei que fosse brincadeira. 
Brincadeira sem graa, pensou Josie.
 E era  afirmou ela.
Sam balanou a cabea.
 No, ela estava certa.
Transferiu o peso de uma perna a outra, mantendo as mos nos bolsos. Ficou olhando para o cho por um longo tempo. A mquina de lavar parou de girar e a gua comeou a entrar, iniciando outro ciclo. Ele ergueu o olhar e encarou Josie.
 Vamos nos casar.
Como pedido, aquilo deixava muito a desejar.
Na verdade, Josie sentia como se ele tivesse apunhalado seu corao.
Vamos nos casar. Desse jeito. Como se fosse uma concluso bvia, uma transao comercial com uma nica possibilidade.
Ela supunha que, quando se tratava de Sam Fletcher, s havia uma nica possibilidade de desfecho. Do jeito dele.
Mas ele no queria se casar!
Sabia que ele no queria. Podia ver em seu semblante, em seus olhos. Sentia no tom resignado de sua voz.
Por que se prontificava quilo, ento? Ele no a amava. No queria o filho.
Sam submetia-se ao dever porque sua tia Hattie o obrigara. Tomava aquela atitude porque estava acostumado a fazer a coisa certa, a fazer o que era necessrio.
Exatamente como Hattie imaginara que ele faria.
Exatamente como Josie temia que ele faria. Era por isso que no lhe contara sobre o beb.
 A criana tem o direito de conhecer o pai  comentara Hattie, usando um tom muito mais gentil do que o seu normal.
  Eu sei disso  afirmara Josie.  Mas  que... no posso contar. No agora.
  Quando?
 Qualquer dia  declarara  protetora, vagamente. 
 O pai tem o direito de conhecer o filho tambm  insistira Hattie, implacvel.
 Eu direi a ele  prometera Josie. S no dissera quando. E sempre mudara de assunto quando Hattie retomara a questo.
 Pode contar a ele no Natal  sugerira Hattie, preocupada, no fim da vida.
Mas Sam no fora passar o Natal em Dubuque. Josie percebera o quanto Hattie ficara decepcionada com sua ausncia. Ela mesma no se espantara tanto, pois sabia por que Sam no aparecera.
Depois dessa ocasio, Hattie no tocara mais no assunto.
Josie at pensara que ela desistira.
Obviamente, aps a leitura do testamento, entendeu que se enganara. Hattie garantira que Sam tomasse conhecimento do fato.
Agora, a par de tudo, Sam agia exatamente conforme Hattie desejara, e exatamente conforme Josie temera.


No era assim que Sam imaginara fazer um pedido de casamento. De p, na lavanderia da pousada, a uma mulher j grvida de seu filho.
Com certeza, no fora nessas circunstncias que pedira Izzy em casamento. Daquela vez, providenciara um jantar caprichado  luz de velas num restaurante caro. Aps a refeio requintada, danaram de corpo colado ao som de msicas romnticas, quando concluram que tamanho arroubo era bom demais para partilharem s de vez em quando.
Desta vez, ele estava parado, muito tenso, com a cabea meio inclinada, pois o teto do poro era baixo. Sua voz sara nervosa e atrapalhada. E Josie, longe de sorrir radiante, olhava-o como se fosse um monstro.
No podia estar surpresa. Tinham que se casar e ponto final. Era a nica alternativa responsvel. Se houvesse qualquer outra, ele a teria escolhido.
Ora, o que ela esperava, afinal? Uma declarao de amor eterno? Ele j afirmara que aquilo que acontecera entre ambos naquela noite fatdica fora um equvoco.
Bastava a inteno de fazer o que era direito, assegurou-se. Olhou para ela apreensivo, esperando que ela tomasse a deciso acertada tambm.
Mas Josie respondeu:
 No.
Sam ficou boquiaberto. No estava mais sob efeito da mudana de fuso horrio, mas achou que a audio estava prejudicada. Confirmou:
 No?
 No. Obrigada  acrescentou ela, aps um momento, mas ele no achava que ela se sentia agradecida.
Ele remexeu o maxilar.
 Por que no?
No era como se ele quisesse se casar com ela! Ele estava sendo correto, afinal, fazendo o pedido. O mnimo que ela podia fazer era aceitar!
 Quando me casar, vai ser por amor  declarou Josie, simplesmente.
Ele ficou olhando para ela. Deu uma olhada pela lavanderia e, ento, focalizou o dedo dela sem a aliana de noivado.
 Perdoe-me se estiver errado, mas no estou vendo em seu dedo a prova do seu amor...
Josie olhou para as prprias mos e ele imediatamente sentiu-se um canalha. Oh, bolas. Era como chutar um cachorrinho.
  No quis dizer...  murmurou Sam, finalmente, a voz rouca. Avanou para confort-la, mas ento lembrou-se de como aquilo acabara da ltima vez. Conteve-se.  Desculpe-me.
Na verdade, Sam no lamentava nada. Imaginava o motivo do rompimento do noivado. De qualquer forma, o futuro pastor Kurt Masters nunca merecera uma mulher to gentil, generosa, voluntariosa e... bolas, adorvel quanto Josie. Obviamente, ela no queria ouvir nada daquilo naquele momento.
 No  por causa de Kurt  garantiu Josie, serena.
Sam nem ia argumentar.
 Fico feliz em saber. Nesse caso, por que est recusando?
  Eu j lhe disse.
  Porque quer se casar por amor.  Ele despejou a palavra como se no fosse nada.  E quanto ao beb? Voc no quer que ele seja amado?
Ela respirou fundo.
  Claro que quero! Do que est falando?
 Voc est negando-lhe o amor paterno.
 Voc no o ama  concluiu Josie, dura.
 Como pode saber?
 Voc no pode am-lo. 
Sam exasperava-se:
 Por que no?
 Porque nestes dez anos em que o conheo nunca ouvi comentrio seu sobre ter filhos ou algo assim.
 Talvez eu tenha mudado de idia. 
Josie revirou os olhos.
 No d para acreditar.
 Pode me dar um crdito? Afinal, voc teve tempo para se acostumar  idia. Eu ca de pra-quedas...
 No havia nada impedindo-o de voltar nestes sete meses  observou Josie, rude.
 Eu achei que estava beneficiando aos dois ficando longe.
 E estava.
Ele respirou fundo.
 Agora, estou sendo responsvel. Estou preparado para fazer o que  certo...
 E como tem certeza de qual seja a atitude correta? 
Ele abriu a boca e hesitou.
Aquilo foi o suficiente para Josie cruzar os braos.
  Voc no quer se casar comigo, Sam. Voc no quer um filho. Voc quer vender a pousada, dar o fora daqui e nunca mais voltar. No  isso? No foi por isso que voltou?
 Voltei porque tia Hattie me deixou este abacaxi!
 Exatamente. E eu lhe digo, voc no precisa descascar este abacaxi. Hattie o queria aqui. Eu no. Foi tudo um equvoco, como voc j disse antes.  Ela olhou para a escada e voltou a encar-lo.  Foi "efeito do usque", no  mesmo?
 Eu no quis dizer...
 Sim, voc quis. Voc foi honesto. E agora tem sorte, pois no vou responsabiliz-lo pelo que fez sob efeito da bebida.
 E se eu quiser me responsabilizar? 
Seguiu-se um duelo de olhares.
 No me amole, Sam  disparou ela e foi para a escada. Ele a seguiu.
 No me deixe falando sozinho! 
Josie voltou-se, o rosto afogueado.
 No grite comigo!  avisou ela, a voz mais baixa, mas firme.  No se quiser manter a reputao deste estabelecimento.
 s favas com a pousada! 
Josie encolheu os ombros.
 Bem, como quiser.  a sua casa.  o seu negcio.
 Eu ofereci parceria.
 E eu disse no. Obrigada  acrescentou. A educao excessiva de Josie era to irritante quanto a recusa.  No bata a porta quando sair.  Subindo a escada, deixou-o ali parado.
Sam ficou olhando para as costas dela at que sumisse de vista. Ento, subiu  cozinha e saiu ao saguo de entrada. Conseguiu no franzir o cenho aos hspedes que estavam na sala, mas aquilo era o mximo que podia fazer.
No havia como discutir de forma satisfatria quando no se podia nem bater a porta!


O embate fora to desastroso quanto Josie temera.
Pior.
Sam a pedira em casamento, pois era um cavalheiro, um homem responsvel. Um homem gentil.
Tudo o que ela queria num marido, mas que no teria, porque ele no a amava.
E ele fora honesto o suficiente para no mentir e dizer que a amava. Aquilo tornara tudo pior.
Josie estava parada junto  cortina e olhava para a alia. L fora, Sam contemplava a cidade de ombros curvados, as mos nos bolsos. O vento agitava seus cabelos curtos. Parecia miservel.
Ele devia estar contente.
Ela dissera no, no dissera?
Talvez ele no houvesse compreendido bem ainda. Quando isso acontecesse, ficaria feliz.
Mesmo assim, continuaria se sentindo responsvel. Queria fazer tudo certo. Sam era assim, sempre fora. Pois no fora consol-la no dia em que Kurt a fizera esperar em vo?
Dissipou esses pensamentos. No fizera nada alm de pensar nisso nos ltimos sete meses. Tivera esperana... sonhara... desejara... fora a idiota que prometera que jamais seria. No conseguira eliminar a esperana de que um dia Sam viesse a se apaixonar por ela.
Ele no se apaixonara. E tudo estava acabado.
Amanh seria outro dia para ambos. Ele ainda tentaria fazer a coisa certa, claro, mas desta vez apresentaria uma proposta mais razovel. Ofereceria ajuda  criana, prontificando-se a dar-lhe seu nome, talvez providenciasse um fundo. Seu filho no enfrentaria problemas financeiros, pensou, e sorriu triste.
Tratando-se de Sam, ela permitiria que ele ficasse com o filho durante duas semanas no vero.
Sim, aquilo era o certo. Educada, ela se mostraria agradecida. Sam experimentaria grande alvio por no ter que levar adiante o casamento, mas no o demonstraria, polido como era. Seria tudo muito civilizado.
E ela ficaria ligada a Sam Fletcher para o resto da vida.
Seria difcil, mas suportaria, por causa da criana.
 E no por si mesma?  questionou, inclinando-se para ver melhor o nico homem que j amara.
Para ser franca, tinha que admitir que no a desagradava a idia de ter Sam em sua vida.
No era como se fosse se casar com ele. No seria responsvel por envolv-lo num relacionamento de convenincia, em vez de baseado no amor.
Mas saber como ele era, onde estava, o que fazia...
S ficar sabendo...


Ela dissera no?
No?
Sam ainda no acreditava.
Ou talvez acreditasse. As mulheres pareciam no querer se casar com ele. Primeiro Izzy, agora Josie. Por qu?
Andava to tenso que comeou a sentir dor de cabea. Forou-se a respirar fundo, mas no conseguiu relaxar. Ficou andando junto  encosta, olhando para a cidade sem ver nada. S vislumbrava o desastre que acontecera  tarde. No, o desastre que acontecera em sua vida.
No se achava uma pessoa difcil. Com certeza, podia sustentar uma esposa num padro muito acima do normal. E no era um homem feio.
Ou era?
No, raios, no era.
Ento, qual era o problema?
  Quando me casar, vai ser por amor  resmungou, imitando a voz de Josie, ao mesmo tempo que chutava uma pedra com fora.  Bem, querida, eu tambm.
Deviam pensar na criana agora. Seu filho. O filho dela.
O filho deles.
Aquela criana devia a prpria existncia a circunstncias deturpadas pela bebida, mas o ato de amor no fora inconsequente, sem sentimento. Podia no se lembrar de todos os acontecimentos daquela noite, mas seu corpo reagira movido a emoes.
Estava apostando que Josie ainda sentia-se atrada por ele!
Olhou por sobre o ombro na direo da casa. No andar de cima, viu uma cortina se movimentar. Remexeu o maxilar e estreitou o olhar.
 Acha que a resposta final  no, Josie Nolan?  sussurrou  mulher que sabia estar por trs das cortinas.
Bem, Sam Fletcher nunca recuava diante de um desafio.


CAPTULO TRS


Era o destino, concluiu Josie. De que outra forma explicar que, numa pousada com vinte cmodos, Sam fosse se acomodar justamente no quarto ao lado do dela! Alis, o quarto que fora de Hattie at sua morte...
E pensar que cogitara no hosped-lo. A pousada estava lotada, at o terceiro andar, onde ficava o antigo aposento de Josie. Havia apenas trs dias, ela, Benjamim e Cletus o prepararam para receber hspedes.
 Voc devia ficar satisfeito  comentara ela com Sam, quando ele observou que no havia vagas.  Outro quarto alugado significa mais lucro para voc.
 s favas com os rendimentos. Onde eu vou dormir? 
Ele batera  sua porta por volta das dez horas e ela atendera cautelosa, mas ele no mencionara mais nada sobre casamento. Educado, perguntara onde poderia se instalar, mas irritou-se ao saber que no havia vaga.
 Vou ver se encontro um lugar para voc na pousada Taylor  prontificara-se Josie.
Tratava-se de outra hospedaria instalada em outra velha construo vitoriana, no to bonita quanto a pousada de Hattie, mas bastante confortvel.
 Vou dormir na saleta  declarou Sam, olhando por sobre o ombro dela para o sof que ficava em seus aposentos.
Josie sabia que Hattie s vezes alojava Sam ali, quando no havia vaga.
Mas ela no era Hattie.
 Receio que no seja possvel  declarou. 
Ele ergueu uma sobrancelha.
 Por que no? Alugou esse espao tambm? 
Josie prendeu a respirao.
  Estou fazendo o melhor possvel para administrar o seu negcio de maneira profissional e isso significa basicamente alugar quartos.  isso o que tenho feito. Isso no significa que deva renunciar a mim mesma.
 Voc dorme na saleta?
 A saleta faz parte de meus aposentos.
Quase um apartamento, o amplo cmodo contava com dois ambientes, um quarto e uma saleta, alm de um banheiro. Josie no dormia na saleta, mas no queria que Sam dormisse ali, tampouco. Seria ntimo demais, prximo demais.
 Voc no demorou para se mudar para c, no ?  observou ele, acusador.  Tia Hattie est na cova h quanto tempo? Duas semanas?
Josie empalideceu, como se houvesse levado um tapa. Ele passou a mo na nuca e resmungou:
 Desculpe-me, no quis dizer isso. Geralmente, no sou to rude.
 Pois sim  ironizou ela. 
Sam observou-a.
 Tambm, no  todo dia que um homem descobre que vai ser pai.
Josie contraiu os lbios e abraou a si mesma, protegendo-se, mas no ia pedir desculpas.
 Vou ligar para a outra pousada.
 No se incomode. Vou dormir na copa.
 Josie arregalou os olhos.
 Na copa?!
 Qual o problema? Alugou o local tambm?
 Ora, Sam, s tem uma namoradeira ali!
 Para mim, serve. 
Josie olhou para o teto.
 No seja ridculo.
   isso, ou voc me deixa ficar na saleta... 
Josie cerrou os dentes.
 Na saleta, no.
Sam ergueu o sobrolho, malicioso.
 No  como se nunca tivssemos estado to perto... 
Ela sentiu o rosto queimar.
 Eu disse no!
Sam recuou um passo e ergueu as mos, defensivo.
 Tudo bem. Vou ficar na copa, ento. 
Vendo-o seguir para a escadaria, Josie insistiu:
 Vou ligar para a outra pousada!
 Faa o que quiser. Eu no vou embora.  
Josie olhou-o frustrada e irritada.
  V em frente! Durma na namoradeira! Arranje um torcicolo. Vai ser bem feito por sua teimosia.
E bateu a porta, determinada a ignor-lo. Dali a um pouco, chegaria um casal de hspedes e, normalmente, aguardaria na copa, lendo ou vendo televiso.
No tinha mais aquela opo.
Assim, permaneceu no quarto, ora lendo, ora dando voltas pelo aposento. No horrio previsto para a chegada do casal, o telefone tocou. Era a esposa, cancelando a reserva.
 Desculpe-me por ligar to tarde  pediu ela.  Foi uma emergncia de famlia.
 Sem problemas  assegurou Josie. Ento, desligou e fechou os olhos.  Oh, raios.
No precisava avisar Sam. Estava decidida a no avis-lo.
Mas em sua vida j passara noites dormindo em locais desconfortveis o bastante para se compadecer, at mesmo por Sam. Relutante, desceu at a copa.
Estava escuro, mas o luar entrava pela janela alta e estreita, Sam estava deitado na namoradeira, todo desajeitado.
 Veio ver se estou confortvel?  disparou ele.
  Vim avisar que voc pode ocupar o quarto que chamamos de Coleman  respondeu Josie, com os dentes cerrados.  Os hspedes acabaram de cancelar a reserva.
Ao luar, ela discerniu o sorriso sarcstico que ele deu antes de se levantar. Trajava apenas um short masculino.
E Josie retornara febril ao quarto, a imagem de Sam seminu grudada em sua mente.
Agora, constatava que t-lo no aposento ao lado, com apenas uma parede a separ-los, era pior do que imaginara.
Subiu na cama e puxou o lenol at o queixo. Determinada, deu as costas  parede. A lembrana. A Sam.
No adiantou. Sabia que ele estava ali.
Assim como estivera da ltima vez...
Era o dia de seu aniversrio. Nove de setembro. E estava convencida de que aquele seria o aniversrio mais especial de todos os tempos.
Durante anos, fingira indiferena em relao ao prprio aniversrio, por ser filha adotiva. Evitavam-se decepes quando no se esperava muito de ningum. Mesmo quando morava com os prprios pais, tudo era to imprevisvel que aprendera a no esperar nada.
S ao ir morar na pousada com Hattie e Walter, passou a comemorar o aniversrio, pois eles faziam questo. Fora o mais prximo de uma famlia de verdade, e aniversrios de verdade, que j tivera.
Quando completara quinze anos, Sam estivera presente a comemorao e at lhe dera um presente.
Naturalmente, sabia que ele no havia escolhido nada especial para ela. De volta ao pas aps sua primeira viagem ao Oriente, passara em Dubuque para visitar Hattie e Walter.
Era a primeira vez que o via, e suas fantasias tomaram uma nova dimenso. Comparado aos rapazes do colgio, Sam era como um deus. Elegante, de corpo bem feito,e rosto bonito, ele fazia disparar seu corao adolescente. No se sentia atrada somente pela bela aparncia dele, mas lambem pelo entusiasmo com que se dispunha a ajudar Walter. Longe de considerar as tarefas braais indignas de sua pessoa, ele despira a camisa e pusera mos  obra, rindo e conversando o tempo todo.
Sam e Walter lembravam marinheiros com suas histrias de viagens. Josie no se interessava muito pelas do pai adotivo, mas ouvia fascinada as que o rapaz contava. Mergulhando nos detalhes, era como se o acompanhasse em cada uma daquelas aventuras por pases longnquos e exticos.
Sam devia ter notado e apreciado tanta ateno, tanto que lhe oferecera o presente no dia de seu aniversrio.
   s uma lembrana que comprei nesta viagem  comentara, quase pedindo desculpas, enquanto ela abria o embrulho.  Nada de mais...
Para Josie, porm, foi como ganhar o mundo. A miniatura de cavalo esculpido em jade era de uma beleza indescritvel. Acariciando o objeto, sorriu e manteve-o na palma da mo.
  Obrigada  murmurara ela, a emoo nos olhos.  Ser meu tesouro.
Ele pareceu desconcertado.
 No  grande coisa. 
Para Josie, era tudo.
Ainda tinha a miniatura sobre o criado-mudo. Ainda se lembrava daquele aniversrio como o melhor que j tivera. Meses depois, ainda sonhava comemorar todos os aniversrios de sua vida com Sam.
Por fim, tornou-se adulta e deu-se conta de que contos de Cinderela no aconteciam na vida real.
E ficou satisfeita quando Kurt comeou a cortej-la. Ele no era formidvel, como Sam, mas era tranquilo, compenetrado. No era to viajado quanto Sam, mas com certeza fora muito alm do que ela mesma. Estava sempre ocupado e quase nunca lhe dava ateno. Mas ele precisava dela, enquanto Sam, no. J era um comeo.
Conhecera Kurt quando fora preparar biscoitos para uma quermesse na igreja. Ele devorara toda uma fornada, elogiando e comentando o quanto estavam maravilhosos. A partir de ento, ela participara da organizao de vrios eventos na igreja e at datilografara os trabalhos que Kurt precisava apresentar para obter o grau de pastor, enquanto ele "cuidava do rebanho".
Josie orgulhava-se por merecer a companhia de um futuro pastor, to inteligente, nos poucos momentos livres de que ele dispunha. No havia mesmo muitos outros homens concorrendo a esse privilgio...
Se bem que o nico homem que ela j desejara era Sam Fletcher.
Ento, soube que ele estava noivo.
Espantou-se com o desespero que sentiu na tarde em que Hattie deu-lhe a notcia. Afinal, nunca acreditara que um homem sofisticado como ele poderia se interessar por ela, correto?
Bem, no, mas...
At aquele momento, contrariando toda a razo, ousara ter esperana.
De repente, seus sonhos viravam p ante o compromisso firmado entre Sam e Isobel Rule. No havia mais esperanas. Concentrara-se em Kurt.
No obstante, ficara surpresa quando ele a pedira em casamento, em maio.
 Voc quer se casar? Est falando de ns?  questionou ela, sem saber se ouvira direito.
Kurt sorriu, assentiu e inclinou-se para beijar-lhe os lbios.
  Claro que estou falando de ns  confirmou.  Por que no? Ns formamos uma bela dupla.
Por que no?, considerara ela. De fato, eles formavam uma boa dupla. Kurt tomava conta do mundo e Josie tomava conta dele.
 Voc me ama?  indagara ela.
  Claro que eu a amo.
Ela sabia o que aquilo significava: Kurt amava todo mundo. Mais tarde, sozinha, repetira seus nomes:
 Kurt e Josie. Josie e Kurt.  Gostava do som. Fazia com que se sentisse parte de alguma coisa.
No tinha o mesmo apelo de "Sam e Josie", mas... que remdio?
Alm disso, amava Kurt, da mesma forma que ele a amava. Considerando tudo isso, disse sim. Planejaram casar-se no ano seguinte, depois que Kurt obtivesse seu grau e conseguisse uma parquia na qual pregar. Parecia muito tempo, mas ela no se importava em esperar. Formariam um casal.
Para o aniversrio de Kurt, em julho, Josie fizera reservas num restaurante romntico junto ao rio. Dedicara um bom tempo escolhendo o presente, at optar por uma coleo de trabalhos de teologia que ele admirava e um CD de um conjunto a cujo show ele assistira em Chicago. Tambm tricotara um suter em tons azulados que realavam a cor dos olhos dele e preparara mais uma fornada dos biscoitos que ele tanto adorava.
Kurt ficara maravilhado. Beijara-a e dissera que aquilo tudo significava muito para ele, que ela significava muito para ele. Em seguida, desculpara-se, pois no poderiam jantar juntos devido a uma reunio na igreja.
Josie compreendera. Sem graa, cancelara as reservas. Haveria outras oportunidades, assegurara ao noivo e a si mesma.
 Claro que haver  prometera ele.  Iremos no seu aniversrio..
Ela se agarrara a essa idia e, em setembro, fizera novas reservas.
Talvez devesse ter deixado a iniciativa para Kurt. Assim, talvez ele houvesse se lembrado...
Na noite anterior, quando ele passara na pousada para jantar e pegar os trabalhos datilografados, ela lembrara:
 No se esquea do jantar amanh. s seis e meia.
 Claro  repetira Kurt, distrado, e a beijara na testa. Ela o observou descer a rua, a cabea baixa, j revisando o trabalho acadmico.
  O que voc vai preparar para ele amanh?
Josie levara um susto ao ouvir a voz de Sam s costas. Acreditara j ter-se habituado  presena dele na pousada, naquelas duas semanas que ele passara l, calado e amuado, atirando-se ao trabalho ao menor pedido da tia.
At esperara que ele desabafasse, mas ele s pensava em serrar, martelar e parafusar.
A explicao viera de Hattie:
 Ele desmanchou o noivado.
Josie tentara ignorar a onda de alegria que assolou seu corao. Na verdade, tentara desesperadamente ignorar Sam. No queria mais am-lo, considerando que ele nem notava sua existncia. Alm disso, tinha Kurt.
 Ele vai me levar para jantar fora  esclarecera, em resposta  pergunta de Sam.
  E ele sabe disso? Voc escolheu o restaurante e fez as reservas.
 Porque eu quero ir l  justificara Josie, cerrando os dentes. Eu fiz as reservas porque Kurt  muito ocupado.
  Ocupado com todo mundo, menos com voc.
  Ele tem tempo para mim  teimara ela.  Ele vai me dar toda a ateno amanh  noite.
Sam desdenhou.
  Se ele se lembrar...
Josie sabia que Sam testemunhara a distrao de Kurt mais de uma vez naquelas duas semanas, chegando a comentar a respeito.
Josie sabia que o noivo no era perfeito, mas Sam no escolhera bem seu par, tampouco. Isobel Rule o dispensara.
 No se preocupe comigo  finalizara Josie, chateada.
 No vou me preocupar.
"Kurt no vai se esquecer", acreditara ela. Claro que no. Ele sabia o quanto aquela comemorao significava para ela.
Na noite do aniversrio, Josie preparara o jantar para Hattie e Sam, mas no fizera a refeio, evidentemente. Em vez disso, subiu para se aprontar. Depois, sentou-se na recepo e aguardou, sorrindo contente enquanto conversava com os hspedes. Deu seis e meia. Sete horas. Inquieta, ela deixou de prestar ateno aos comentrios dos hspedes.
Sam aparecera vindo da adega com uma garrafa de usque, brindando a sua presena ainda na pousada. Ela desviara o olhar.
s sete e quarenta e cinco, ela pediu licena e foi at a varanda, ainda sorrindo, mas um pouco preocupada. O carro de Kurt no era dos mais novos e no estava em boas condies. Teria apresentado problemas?
Ela olhou para o fim da rua. Foi at a encosta e estreitou o olhar para tentar localizar o carro. Ficou esperando do lado de fora at as oito e meia. Sozinha.
Finalmente, s nove, desistiu. Foi para a recepo, de cabea baixa, grata por Sam no estar ali para tripudiar.
Hattie estava descascando mas. Ao v-la, franziu o cenho.
 J de volta?
Josie esboou um sorriso.
  Nem sa. Kurt deve ter tido alguma emergncia.  Desejou que a voz no houvesse sado trmula.
 Nesse caso, teria telefonado  observou Hattie.
  Talvez no tenha encontrado um telefone.  Josie pegou a faca de legumes da mo de Hattie.  Pode deixar que eu fao isso...
Precisava se ocupar. Precisava no pensar em nada. Precisava no se magoar.
Aps cumprir aquela tarefa, comeou a arrumar a cozinha. Dobrou os guardanapos em forma de cisne, desdobrou-os e dobrou-os novamente em forma de gaivota. Poliu a cafeteira, a chaleira, a bandeja, o porta-creme e o aucareiro. Durante todo o tempo, manteve-se atenta ao som de passos e reprimiu a vontade de verter lgrimas.
Venha, Kurt, desejou, silenciosamente. Por favor, venha.
Ele no veio.
Convenceu-se de que ele tivera um bom motivo. Estava sendo tola em dar tanta importncia ao fato. Era ridculo ficar to magoada.
Mas estava. A dor residia ali dentro, real. Reais tambm eram as lgrimas, que deixou extravasar, sozinha no quarto, depois das onze horas.
Josie no chorava  toa. Era um moa do tipo durona, que nunca se deixava abater.
Mas naquela noite ela chorou.
Despiu o vestido rosado de organdi que comprara especialmente para aquela ocasio. Passou a lngua pelos lbios

enquanto guardava a pea no guarda-roupa. Foi ao banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes. Desfez o coque elaborado que fizera no cabelo  tarde. Durante todo o tempo, soluou, piscando forte, tentando controlar as lgrimas.
Ao apagar a luz e ajeitar-se sob as cobertas, porm, elas rolaram.
Devagar, foram brotando entre plpebras. Tentou aplac-las. Engoliu em seco, sentindo dor. Mentalizou que devia desistir. Mas daquela vez no houve argumento.
Chorou.
Chorou pelo jantar perdido, pelo aniversrio solitrio, pela tola esperanosa que fora, pela idiota que era. Chorou pela menininha que sempre ficava do lado de fora, observando. Chorou pela moa a quem ningum parecia dar importncia.
No sabia por quanto tempo chorara. Por fim, percebeu uma batida  porta.
Engoliu em seco, nervosa, tentando aplacar os soluos, tentando se recompor. A ltima coisa que desejava era um dos hspedes reclamando de seus soluos! No estava fazendo tanto barulho, estava?
No, claro que no. O quarto a seu lado estava ocupado por Sam, mas ele no devia estar l em pleno sbado  noite. Deviam ser os hspedes da sute, precisando de travesseiros, de caf ou do telefone sem fio. Quando eles se registraram, informara-os de que, se precisassem de qualquer coisa, poderiam cham-la a qualquer hora.
Josie enxugou as lgrimas no lenol. Vestiu o robe e carimbou o sorriso de gerente de pousada no rosto ao abrir a porta.
Era Sam.
 Voc est bem?  indagou ele.
A voz dele saiu to suave quanto a batida na porta, e ele j no exibia a expresso irnica. Parecia meio desolado, com os cabelos meio desgrenhados, como se ele os houvesse penteado com a mo, e a camisa desabotoada, para fora da cala jeans.
Josie suprimiu um soluo e assentiu, piscando para limpar os olhos.

 Claro, estou tima.
 Eu ouvi voc chorando.
Ela quis negar. No queria que Sam Fletcher conhecesse suas fraquezas. O problema era que ele j conhecia. Encolheu os ombros, desajeitada.
 No  nada grave.
 Ele deu o bolo?  No havia censura na declarao, nem mesmo o tantinho que Hattie sempre usava. Ele parecia triste.
Josie encolheu os ombros novamente.
 Tenho certeza de que ele teve um bom motivo. Sam no parecia to crente.
 Espero que sim.
Josie tentou captar o sarcasmo que sempre permeava qualquer comentrio de Sam com relao a Kurt, mas no notou nada.
 Precisa de alguma coisa?  perguntou, finalmente. Ele ergueu a mo e ela notou a garrafa que ele trazia.
Usque irlands.
  Dizem que a misria adora companhia  comentou ele.  Venha tomar uma bebida comigo.
Josie franziu o cenho.
 Uma bebida?
  seu aniversrio, no ? Vamos comemorar.
A voz dele estava meio arrastada e Josie olhou-o desconfiada.
 Voc est bbado, Sam?
 Ainda no.  Ele ergueu a garrafa mais uma vez.  Mas estou me esforando.
  Por qu?
 Vamos, Josie. Vai ficar a sentada sentindo pena de si mesma a noite toda?  s o seu aniversrio, no a noite de seu casamento. Voc no  a primeira nem vai ser a ltima a levar o cano, sabe.
Ento, ela entendeu.
Perdida em sua prpria misria, esquecera-se completamente de que naquele sbado Isobel casava-se com outro homem. De repente, brotou em seu peito um sentimento de pro

teo por aquele homem parado em sua frente. Bonito, forte, inteligente, justo, Sam era perfeito. Sam, o homem a quem amava platonicamente desde os quinze anos. Como Isobel pudera preferir outro?
 Oh, Sam...
Ele franziu o cenho, interpretando as palavras como uma recusa.
 No  bom beber sozinho. No quer que eu faa isso, quer?  Ergueu o canto do lbio de forma triste.  E o melhor usque de Walter  anunciou, erguendo a garrafa.  Peguei de uma reserva que o meu estimado tatarav deu a eles em seu casamento. S restam cinco garrafas.
Josie arregalou os olhos. Aquelas garrafas eram praticamente sagradas.
 E voc pegou uma?
 Hattie no se importa. E pareceu apropriado.  Ele ergueu a garrafa mais uma vez.  Eu tinha que brindar  felicidade da noiva, no tinha?
 Oh, Sam ' repetiu Josie.
O tom triste na voz de Sam combinado ao amor reprimido de Josie levou por gua abaixo os ltimos vestgios de bom senso de ambos.
Josie saiu ao corredor, fechou a porta do quarto e acompanhou Sam.
Ele abriu a porta do aposento dele, que deixara apenas encostada, e ficou de lado para que ela entrasse primeiro.
Josie ainda hesitou por um segundo. Mas foi s um segundo.
No queria ficar s naquela noite. No mais do que Sam.
Ambos tinham sido passados para trs. Poderiam consolar um ao outro. Sorrir um para o outro. Beber um pouco do usque maravilhoso de Walter.
Que mal faria?
Sam entrou depois dela e fechou a porta.
Aquele aposento era um dos menores. Mas parecia menor do que nunca com o fogo crepitando na lareira e a cama

de lato parecendo maior do que quando ela a arrumara naquela manh.
Sam preparou duas doses de usque. A garrafa j estava quase vazia. timo, pensou. Assim, no perderia a cabea.
 Sente-se  convidou ele.
Josie olhou ao redor. A cadeira de balano estava cheia de livros, papis e convites para congressos. No havia lugar, exceto... na cama.
Passou a lngua pelos lbios, olhou para a cadeira mais uma vez, esperanosa, desejando que houvesse ficado vaga. Iluso.
Sam observava-a, aguardando que se decidisse. Se ela tentasse remover os objetos da cadeira, ele a acharia ridcula. Era evidente que no a relacionava a assuntos de alcova!
Ela respirou fundo e sentou-se na cama, constrangida. O colcho cedeu um pouco e sentiu-se idiota por estar to na beirada. Apoiou-se contra os travesseiros e aceitou o copo com usque.
Seus dedos se tocaram apenas por um instante, mas estabeleceu-se uma corrente, semelhante  da eletricidade.
Oh, Josie, sua idiota. Sua sonhadora.
Sam pousou a garrafa sobre o criado-mudo, ergueu o copo para brindar e esboou um sorriso triste,
 A eles  saudou.
Josie sabia o que ele queria dizer. No seu caso, Kurt. No caso dele, Isobel.
Ela encostou o copo nos lbios. O lquido frio atingiu-lhe a lngua, ardendo e anestesiando ao mesmo tempo. Mantinha os olhos midos fixos em Sam. Engoliu a bebida.
Sam passou a lngua pelos lbios sem deixar de encar-la.
 A ns. Ns?
Josie observou-o. Engoliu em seco. Estremeceu. Mas Sam j estava tomando outro gole. Ento, tambm tomou. A ns. Ainda sentia os efeitos do primeiro gole, um calor que j chegava  ponta dos ps. O segundo gole pareceu suavizar, anestesiar. Segurou o copo com mais firmeza. Sam estava de p junto  cama, olhando-a de cima.
48

 Tome tudo  sugeriu.
Josie hesitou por um instante, ento, aceitou a sugesto. Ele se sentou na cama e recostou-se  cabeceira ao lado dela. O calor de seu corpo atravessava o tecido fino de seu robe, mais ardente que o efeito do lcool. Tentou se afastar. Sam segurou-a pelo joelho.
 No  pediu ele, rouco.  Fique.
Josie fitou-o no rosto. Os olhos castanhos dele estavam a poucos centmetros dos seus. A boca estava quase no mesmo nvel da sua. Sob a luz difusa da lareira, via nitidamente sua barba por fazer, o dente da frente levemente lascado, que ele dissera ser lembrana da infncia, e a marca quase imperceptvel de catapora que transformara-se em covinha. Desejou poder toc-la.
Era perigoso demais.
Josie tomou mais um gole do usque. O perigo diminuiu.
Era s Sam. Nada podia acontecer entre ela e Sam. Em dez anos, nada acontecera.
Ento, ele a beijou.
Josie pensou que fosse a bebida, provocando-lhe alucinaes. O toque dos lbios dele era suave e clido. Mais gentil que o usque. Mais caloroso. Mais suave. Mais reconfortante. No feria. Mas a ardncia estava l. Lenta e possessiva. Como uma chama, tremeluzente, crescente e muito consistente em seu calor e luz.
Sam estava beijando-a!
Era loucura, convenceu-se. Era tolice. Era errado.
Aquele era Sam.
Ela fechou os olhos e entreabriu os lbios. Experimentou o gosto da lngua dele. Apresentou alguma resistncia, mas no por muito tempo. Logo, mordiscou os lbios. S um pouquinho. S para ver. Para tocar. Para sentir o gosto.
O gosto dele era bom. Mais do que bom. Maravilhoso. E, quando ele abandonou os lbios para trilhar seu queixo e rosto com beijos, reclamou, querendo-o de volta. Mas o estmulo da pele spera dele contra seu rosto era quase to bom quanto o beijo na boca. Sem perceber, gemeu de prazer.
49

O desejo que Josie acumulara dentro de si desde que conhecera Sam comeou a aflorar, a se mostrar, a responder ao toque.
Aquele era Sam!, afirmou a si mesma. Sam!
A razo ainda tentou adverti-la. Mas o corpo s respondia: Sim. Sim, . E o corao parecia s dizer: Finalmente.
Um fio de juzo tentava se impor, protestando: No devemos... Josie empurrou Sam de leve no peito, na tentativa de afast-lo.
O que deveria dizer, ou fazer, se ele concordava? Se ele dizia: "Eu sei. Eu sei", mas no parava? Se ele continuava distribuindo aqueles beijos suaves e gentis, um melhor do que o outro?
Parecia certo estar nos braos dele.
Quando, imaginou, estivera em seus braos? No importava. Estava l. Acolhida. Sentindo-se segura. Sentindo-se a salvo.
No, um copo de usque no podia deix-la to confusa.
  Sam, no podemos...
 Shhh  sussurrou ele contra seus lbios.  Ns no vamos.
Ento, ele se levantou da cama e foi encher seus copos novamente. De volta, aninhou-a junto ao brao e descansou o queixo sobre sua cabea.  No vamos  repetiu ele, a voz suave e arrastada. Tomou mais um gole.
Josie imitou-o.
  Ele  um idiota  comentou Sam, finalmente. Tomando-lhe a mo, entrelaou seus dedos.
 E ela tambm  sussurrou Josie, acariciando-lhe os dedos. Sentiu que ele sorria.
  Ela no pensa assim.
Josie queria que ele olhasse para ela. Ergueu a mo e tocou-lhe o rosto, passando o dedo ao longo do maxilar. Estavam to prximos que quase podia acarici-lo com os clios. Como no podia enxergar nada, simplesmente o beijou.
Josie achou engraado o fato de ter considerado o beijo que partilharam havia poucos minutos uma aberrao, uma oportunidade nica na vida, e, pouco depois, acreditar que Sam era tudo o que sempre esperara na vida.
 Lamento  sussurrou ela, junto  boca dele.  Lamento muito.  Pela dor dele, quis dizer. Pela dor que Isobel lhe infringira.
No por aquilo.
Mas deveria lamentar o beijo. Era uma idiota por no lamentar. No devia se sentir compadecida com a dor dele, mas com a sua prpria.
Talvez estivesse.
Talvez sentisse pena dos dois e, por isso, o beijou. Por isso, deixou-o beij-la. Novamente.
E novamente.
Aquela era uma das fantasias que imaginara durante os anos: a de que Sam finalmente a notaria como mulher e passaria a desej-la.
Os beijos mudaram. No tinham nada a ver com compaixo. Josie ficou imaginando quando Sam parou de murmurar a respeito de Kurt, declarando: Eu quero voc.
No sabia dizer, s sabia que havia fome de amor nos lbios dele quando se beijaram. Havia urgncia e persuaso no toque. Ele procurava, experimentava, provocava, exigia.
Josie entendia a necessidade. Tambm a sentia. No saberia dizer quando a imagem de Kurt se dissipou de sua mente. No saberia dizer quando se esqueceu do prprio aniversrio, da solido e dos sonhos. Tudo pareceu desaparecer diante da realidade daquele momento.
Da realidade de ter Sam.
Entregou-se  sensao quando ele comeou a tatear seu corpo, alisando, acariciando, aprendendo a topografia curvilnea. Ela permitiu que ele continuasse, pois queria .ser tocada. Por ele.
Jamais fantasiou que era Kurt no lugar de Sam. A bebida podia ter diminudo sua resistncia, mas no a deixara confusa. Sabia de quem era a mo que a tateava atravs da camisola. Sabia de quem era o corpo que reagia ao prazer, de quem era o hlito que lhe aquecia a pele do rosto. Sabia.
E sabia que no se importava.
Ou talvez se importasse demais, com o homem errado. Com Sam.
No sabia o que Sam imaginava. Ou o quanto se importava.
Naquele momento, apenas t-lo em seus braos bastava. Deleitou-se com a sensao despertada pela pele spera dos dedos dele ao longo de seu brao. Estremeceu ao perceber que chegara a vez dos seios. Ele afastou seu robe, expondo-a.
De repente, s aquilo j no bastava. Josie precisava toc-lo tambm.
Deitando-se de lado, experimentou passar a mo sobre o brao dele. Adorou o toque sedoso dos plos queimados de sol. Avanou para a parte coberta pela camisa, invadindo a rea musculosa do trax.
Nunca tocara o peito de Sam antes. Desejara, sonhara, mas nunca, at aquele momento, tivera a oportunidade.
O trax musculoso era quente e firme. Tambm apresentava plos e era to rijo quanto o brao. Sam como um tpico homem de negcios que passava a maior parte do tempo no escritrio ao telefone, mas com corpo de quem necessitava dos msculos para viver. O que ele fazia quando no estava assinando documentos e viajando pelo mundo?
No sabia. Mas queria saber.
Queria saber tudo sobre ele. O que ele achava de tudo, os sonhos que tinha, a resposta do corpo dele s suas carcias.
Ele inclinou o rosto sobre seus seios, estimulando-a com beijos midos atravs do tecido do robe. Ela estremeceu de prazer, de desejo. Agarrou-lhe os cabelos e arqueou o corpo, oferecendo-se mais completamente.
Ele tateou sua camisola e levantou-a at a altura dos quadris. Ela sabia que, se no quisesse seguir adiante, aquele era o momento de parar. Mas no o deteve. Agora, ele no poderia mais se conter.
Nem ela.
Talvez houvesse se iludido ao acreditar que poderia se casar com Kurt. Amava-o, claro que sim. Mas como a um irmo, jamais daquele jeito!
Os sentimentos que Sam despertava nela eram o resultado de anos de cultivo. E eram to fortes que pareciam inevitveis.
Ele se ergueu um pouco para desabotoar a cala, mas suas tnos estavam trmulas. Ele resmungou qualquer coisa.
Josie sorriu.
 Deixe que eu fao isso.
Ele ficou quieto, ofegante, enquanto ela lhe desabotoava a cala e baixava o zper. Pressionou a palma da mo contra d rgo dentro da cueca e ouviu-o prender a respirao.
Num instante, ele se livrou da cala e da cueca.
Foi a vez de Josie ficar ofegante. J vira Sam na piscina. J imaginara a masculinidade dele, mas a realidade de t-lo ali completamente nu ultrapassava suas fantasias mais delirantes.
Infelizmente, no havia tempo. No quando Sam Fletcher, inteiramente nu, erguia-se sobre ela e alojava-se entre suas coxas. No quando ela lanava os braos e pernas ao redor dele, adorando, e amando, cada centmetro daquele corpo.
Nunca fizera aquilo com Kurt, nem com homem nenhum. Devia estar assustada, preocupada. Devia sentir-se desajeitada, cometendo erros, em pnico. Mas no sentia nada daquilo.
No importava o quanto viesse a considerar errado no  aturo, naquele momento, parecia certo. Porque era Sam. Mesmo que a razo afirmasse que cometiam um erro, o corao argumentava que o amor justificava tudo.
Sentiu uma dor, rpida e aguda. De repente, a calmaria, enquanto Sam se posicionava sobre ela expressando choque e compreenso.
O tempo parou.
Sam parou. Um leve tremor de desespero tomou-lhe o corpo. Ele estremecia devido ao esforo de permanecer parado. Ela o viu engolir em seco e morder o lbio inferior, controlando-se.
Josie movimentou um dedo para acariciar-lhe a nuca.
Ele estremeceu e arqueou as costas, os olhos fechados e o semblante transtornado. Ela afrouxou o toque e acariciou-lhe o rosto.
 Sam  sussurrou, e passou o dedo sobre seus lbios.  Meu Sam.
Ele perdeu o controle.
  Ah, Josie  murmurou, e enterrou o rosto em seu ombro, tomando-a completamente. Josie sentiu a dor crescer e, ento, sem pensar, arqueou o corpo para que seus corpos se ajustassem melhor.
Sentiu que ele estremecia em seus braos e pressionou-se contra ele, mantendo-o bem seguro. Foi como se uma sequncia de ondas suaves invadisse seu corpo pelas coxas. No havia fogos de artifcio. No havia nenhum cataclisma.
Mas, por tudo o que era sagrado, havia amor.
E, sendo ela uma idiota, ainda havia amor.
S porque Sam estava a poucos centmetros de distncia, ainda que do outro lado da parede, flagrava-se revivendo aquele momento de amor.
Um momento que no tivera a menor importncia para ele.
De repente, finalmente, compreendia isso.
Oh, pelo resto daquela noite, fora capaz de se enganar acreditando que ele a amava de verdade. Permanecera em seu quarto, em sua cama, abraando-o enquanto ele dormia. Ficou ali, convencendo-se de que tudo daria certo entre eles.
Pela manh, comunicaria a Kurt que o noivado fora uni equvoco, que ela no era a mulher certa para ele. E era a mais pura verdade. Conformara-se com aquela unio ao saber que Sam ia se casar com Isobel.
Chegara a convencer-se de que o que sentia por Kurt era amor. Podia at ser. Mas no era o tipo de amor que sentia por Sam.
No pudera impor-se a ele naquela noite. Quando ele se insinuou, no conseguira dizer no.
Agora, estava pagando o preo.
Casar-se com Sam?
Em certo momento, pensara que aquilo era a nica coisa que a faria realmente feliz. Mas agora sabia que casar-se com ele quando ele amava outra mulher era o caminho mais rpido para a desiluso.
No.
E repetia em voz alta:
 No.  O som saiu fraco e sem emoo na tranquilidade da noite. Tentou se agarrar  idia.
Sam no a amava. Aquela noite acontecera por efeito do usque, somado  necessidade dele de espantar a misria o a solido.
 No  repetiu mais uma vez, mais convicta. Devia ter dito isso sete meses antes, sabia muito bem. E sabia to bem tambm que estava contente por no ler dito. Passou a mo pela barriga, onde o filho de Sam aninhava-se.
S por seu filho ousaria dizer sim.


CAPTULO QUATRO


Josie preparava o caf da manh com atraso quando tropeou em Humphrey Bogart e deixou cair as torradas no cho.
 Ah, no!
Era a gota d'gua.
Passara quase a noite toda rolando e se revirando na cama. Estivera recordando, revivendo e ouvindo Sam rolando e se mexendo na cama dele tambm, pois, alm de a parede ser contgua, as camas ficavam prximas uma da outra. Ou talvez ela simplesmente estivesse muito sintonizada, a ponto de ouvir cada rudo.
Em que Sam estaria pensando?
Nem queria saber. J tinha problemas com seus prprios pensamentos. E o beb parecia ter percebido sua perturbao, pois tambm ficara agitado. Tinha a impresso de que acabara de adormecer quando o despertador tocou, s seis e meia.
Levantou-se rpido e vestiu-se, tomando o cuidado de no se olhar no espelho enquanto penteava os cabelos e escovava os dentes. Desceu e comeou a preparar o caf de manh.
Quatro hspedes pretendiam passear de bicicleta pele trilha que ligava Dubuque a Dyersville e haviam pedido que o caf fosse servido bem cedo, de modo que pudessem partir s oito horas.
Josie no costumava ter dificuldade em atender pedidos assim, mas, naquela manh, no estava em sua melhor forma.
Logo de incio, ferira o dedo polegar ao preparar o suco de frutas e precisou jogar fora as bananas com manchas de sangue. A seguir, deixou queimar a linguia na frigideira. Se continuasse assim relapsa, Sam acabaria demitindo-a, e ela teria que ir embora.
Dera comida errada a Errol Flynn por engano e s uma hora depois, ao ver o gato adoentado, percebeu o equvoco. Para completar, esquecera-se de que um dos hspedes era vegetariano e teve que tirar o prato de linguia da frente dele, desculpando-se, garantindo que raramente cometia enganos assim. Suas colises tornavam-se cada vez mais frequentes, considerando o aumento dirio no volume da barriga, e aps cada uma o beb protestava com chutes.
Mais cinco hspedes apareceram para tomar caf antes que ela estivesse preparada para servir. Mal os atendera, quatro hspedes desceram pedindo para ser servidos logo.
Felizmente, os trs hspedes que faltavam se atrasaram e Josie at conseguiu preparar o desjejum deles a contento, at que Humphrey Bogart se ps em seu caminho; tropeando nele, ela caiu. Em desalento, permaneceu alguns segundos sentada no cho, em meio s torradas e linguias esparramadas.
 Ai, que sujeira!
Antes que pudesse reagir, Josie foi erguida por braos fortes. Era Sam. Ele no a liberou logo. Era a primeira vez que a tocava desde a noite em que haviam feito amor e, embora ela tentasse se convencer de que no o queria, um toque e uma noite mal dormida tinham sido suficientes para mandar sua determinao ralo abaixo.
 Voc est bem?  indagou ele.
Trmula, devido  queda, mas tambm  proximidade de Sam, Josie recuou um passo.
 Estou tima! S tropecei no cachorro.  Tentou se desvencilhar, mas ele a segurava firme.
 Tem certeza?
 Sim, claro...
No fora bem um tombo, pois ela no cara sobre a barriga. Colidira antes com o balco, o que amortecera a queda, mas com certeza ganharia uma mancha roxa. De qualquer forma. sentia-se muito mais incomodada com a presena de Sam.
  Por favor, solte-me  pediu.  Tenho que servir o caf.  Preciso sair de perto de voc.
 Voc precisa se sentar  aconselhou Sam.
 No, eu...
Mas Sam j a conduzia pelos ombros, no para uma das cadeiras da cozinha, mas pela porta que levava  copa.
 Descanse um pouco  sugeriu, indicando a namoradeira.
 No posso!  protestou Josie.  Tenho que...
 Voc tem que fazer o que eu mando. Ela o olhou espantada.
 Por qu?
Sam deu-lhe um sorriso traquinas.
 Porque seno eu vou demiti-la. Ela franziu o cenho.
 Voc no se atreveria.
  Quer apostar?  desafiou ele.  Se voc se sente melhor relutando, por favor, v em frente.  Insistiu, e ela se sentou na namoradeira.  Mas fique relutante sentada.
Ela ia reagir, mas as almofadas da namoradeira eram confortveis e o peso do beb mantinha-a no lugar
 Preciso servir o caf da manh aos hspedes!
 Os hspedes sero servidos, assim que eu tiver certeza de que voc vai ficar aqui quieta.
Ele comeou a bater um p para mostrar-lhe o quanto estava impaciente para comear a servir. Sim, isso mesmo!
Josie estreitou o olhar e adotou a expresso mais reprovadora possvel. Sam no se intimidou, apenas devolveu o olhar. Ela sentiu que ele ficaria ali o dia inteiro se ela continuasse discutindo.
 Algum precisa fazer a limpeza  rebateu.
 Algum, no voc.
Ela abriu a boca para argumentar, mas desistiu ao v-lo bravo.
 Basta, Josie. Desanimada, ela desistiu:
 timo. Faa voc ento. V servir. V limpar.  Ela cruzou os braos.  Pode pr a mo na massa e assobiar, pois no vou me importar.
Ele sorriu.
Sam Fletcher tinha um sorriso arrasador. Ela virou o rosto e pegou uma revista, demonstrando indiferena. Sam assentiu, satisfeito.
 Assim  melhor.
Ento, foi para a cozinha, assobiando.
Sentada na namoradeira, Josie ouvia Sam conversar com os hspedes, mas no conseguia distinguir as palavras. Quis se levantar para ir at a porta e ouvir melhor, mas sentiu as pernas bambas. Teria a queda sido mais grave do que imaginara? O beb se mexeu em sua barriga, espreguiou-se e ento comeou a chutar.
Voc est bem, no est?  perguntou Josie, preocupada.
Imvel, analisou todas as sensaes, tentando detectar alguma ligada a contraes, que s conhecia por descrio.
Ultimamente, vinha sentindo uma dor diferente, uma espcie de clica intestinal. Na ltima consulta, comentara a respeito com o obstetra.
 So contraes  explicara ele.  Umas poucas contraes, irregulares, no significam nada. No espere con-Iraes fortes. No ainda.  muito cedo para isso.
  Ainda  muito cedo  sussurrou Josie ao filho na barriga.  Ainda  cedo demais.
Faltavam dois meses. Josie mantinha a mo sobre a barriga, como se assim pudesse amenizar a inquietao. Sentiu o beb se mexer novamente e, ento, ele se aquietou. Respirou fundo, aliviada.
Algum colocou pratos na pia. Josie ouviu as peas de prata serem dispostas em seguida. O caf da manh estava encerrado. A porta da cozinha foi aberta. O gato rosnou e soltou um miado indignado. Sam praguejou.
A porta da copa se abriu. Sam entrou trazendo Errol Flynn, colocando-o nos braos de Josie.
  Fique com ele. Vou voltar com os outros dois. E o cachorro. No sei como no acabou se matando l dentro. Esses animais ficam no p da gente o tempo todo.
Josie abraou Errol Flynn, ainda irritado, de forma protetora.
 Estou acostumada com eles.
 Bem, eu, no.  Sam j voltava para a cozinha, mas se deteve.  Como est se sentindo?
A gentileza repentina na voz dele deixou-a emocionada. Ela tentou disfarar.
 Otima. Como lhe disse.
 Vou lhe trazer uma xcara de ch.
 No precisa...
Aparentemente, Sam no se importava com a sua vontade. Foi para a cozinha e voltou pouco depois, com Wallace Beery, Clarke Gable e Humphrey Bogart.
 Eles no vo ficar aqui  avisou Josie.
 Vo, sim.
Sam saiu e voltou com uma comidinha para o cachorro e um pires de leite para os gatos.
 Eles no devem tomar leite  protestou Josie.
 Eles no podem  ficar no p das pessoas tampouco. Josie franziu o cenho. Os gatos pareciam satisfeitos. Errol ficou irrequieto em seus braos at que ela o liberou para juntar-se a Wallace e Clark em torno do pires. Todos ronronavam. Humphrey olhou para Sam e agitou a cauda, obviamente querendo mais biscoito. Sam atendeu-o.
 Isso  suborno  denunciou Josie.
Sam lhe lanou aquele sorriso devastador novamente.
 s vezes,  preciso.
Ento, deu uma piscadela, que ela fingiu no notar, fechou a porta e deixou-a sozinha com a bicharada.
 s vezes,  preciso  imitou ela, irnica.
A porta se abriu novamente. Ele estava de volta.
 Com leite e sem acar. Certo?
Josie confirmou com um movimento de cabea e Sam desapareceu mais uma vez.
Relaxando na namoradeira, ela rogou bem baixinho:
 V embora. Por favor, por favor. Apenas v. 
Achava que ele tinha se esquecido. J fazia dez minutos.
Ficou contente. Aliviada. Foi ento que a porta se abriu novamente e ele reapareceu, trazendo a xcara de ch.
 Obrigada  murmurou, cautelosa.
Ela estava mesmo cautelosa. Mas tambm estava com sede. Sorveu um gole. Sentiu uma onda involuntria de prazer.
 Voc est bem?
Josie apenas assentiu, pois no confiava na prpria voz. Sam deu um sorriso satisfeito. Ento, voltou para a cozinha.
Josie observou-o sair da copa e sentiu lgrimas brotando nos olhos. O n na garganta pareceu ficar maior.
 Voc est bem?  perguntou a si mesma, do mesmo jeito que Sam fizera.
No, no estava bem. Nada estava bem.


  Toda jovem devia ter um marido como o seu  comentou a sra. Jensen ao passar o carto de crdito a Josie na manh seguinte.
Josie quase prensou o dedo junto com o carto.
 O qu?
  Um rapaz to atencioso. Ele nos contou que estava servindo o caf para que voc pudesse descansar.
Josie disfarou o constrangimento.
  Sim, bem, ele... insistiu.
 Aproveite, querida  aconselhou a sra. Jensen.  A maioria dos homens no age assim.
Josie teve de reconhecer que a hspede estava certa. Aps atrapalhar-se mais um pouco com o carto de crdito, finalmente o devolveu.
A sra. Jensen deu-lhe um tapinha na mo esquerda.
 Ele foi to atencioso, mandando alargar a sua aliana... 
Josie sobressaltu-se.
 A minha aliana?!
  Oh, querida, talvez eu no devesse ter comentado! Voc acha que ele queria fazer uma surpresa?
Josie balanou a cabea, sem se trair na expresso do rosto. Alianas? Que alianas?
  Eu notei que voc no estava usando a aliana de casamento  confidenciou a sra. Jensen.  Por isso, perguntei a ele se voc estava tendo o mesmo problema que eu tive na gravidez. Minhas mos ficaram to inchadas que mais pareciam salsichas! Achei que o mesmo podia estar acontecendo com voc...
Josie sentiu que enrubescia. Tentou libertar a mo, mas sra. Jensen a mantinha firme.
  E Sam... esse  o nome dele, no ? Sam disse que voc tinha ficado s um pouco cheinha e que ele tinha mandado alargar a aliana.
  Che... cheinha?  repetiu Josie, indignada. 
A sra. Jensen confortou:
 Foi mais gentil que o Tom aqui...  Lanou um olhar carinhoso ao marido por sobre o ombro.  Ele dizia para todo mundo que eu tinha ficado uma bola.
O sr. Jensen ouviu e protestou:
  Ora, eu nunca...
Mas a sra. Jensen interrompeu-o, rindo.
 No se preocupe, querido.  Voltou-se novamente para Josie.  Eu emagreci depois que o beb nasceu. Tenho certesa de que voc tambm vai voltar ao normal.  Deu uma ltima batidinha na mo de Josie e olhou para a barriga redonda  Espero ver o beb quando voltarmos aqui em julho.
  Ah, claro!
Josie estava area e sabia disso. Geralmente lembrava  dos planos dos hspedes, mas no momento lembrava-se apenas vagamente que o casal j reservara um cmodo para a temporada de vero.
 Nossa reunio de famlia!  comentou a sra. Jensen, alegre.  Nossas trs filhas e suas famlias. Lizzie teve beb no Natal. Ashley, a minha netinha, s vai ser uns poucos meses mais velha do que o seu beb. Podero comparar observaes. Sam tambm poder trocar idias com Mark, meu genro. Quando Ashley nasceu, Mark desmaiou. Aposto que o Sam vai aguentar firme.
Josie nem se arriscava a comentar.
Apenas deu seu melhor sorriso de gerente de pousada e rezou para que os Jensen fossem logo embora enquanto ela conseguia manter a sanidade.


  Por que disse a eles que era meu marido?
Sam, que estava parado na varanda acenando para o terceiro grupo de hspedes que partia convencido de que eles eram casados, recuou ultrajado.
  Eu no disse.
  No? Voc no disse nada sobre mandar alargar a minha aliana?
 Bem, uma senhora comentou algo sobre voc no estar usando aliana e ela no me pareceu ser uma pessoa que aprovasse um relacionamento moderno, do tipo em que as pessoas moram juntas simplesmente.
  Ns no moramos juntos!
  Moramos agora. 
Josie cerrou os dentes.
  Sabe o que eu quis dizer. E apreciaria se parasse de levar os hspedes a concluses equivocadas. Especialmente aqueles que podem voltar em trs meses, esperando nos ver juntos como se fssemos uma grande famlia feliz. 
Sam encolheu os ombros.
 Mas eu espero que sejamos uma grande famlia feliz. 
 O qu?
  Voc me ouviu.
Josie estremeceu involuntariamente.
  Eu j lhe disse que no!
  Isso foi ontem.
  Nada mudou. 
 Ainda.
Raios. Por que ele tinha que ficar ali presunoso? Confiante. Forte. Atraente.
 No vou mudar de idia. 
Ele sorriu.
 Ento, terei que convenc-la. 
Ela balanou a cabea.
 No pode. Voc vai estar em Nova York.
 Engana-se. 
Josie estava confusa.
 Como assim?
 Vou ficar aqui.
 No pode! Voc tem seu trabalho!  o presidente-executivo da Fletcher's, ora! O negcio depende de voc.
  S quero que uma pessoa dependa de mim.  Ele olhou para a barriga dela.  Uma por enquanto...
 No seja ridculo!
 No estou sendo.
 No pode ficar aqui!
 Eu vou ficar aqui, Josie  comunicou ele.  V se acostumando.


Ele no estava falando srio, claro.
No poderia estar. Como ia dirigir uma empresa de milhes de dlares sediada em Nova York de Dubuque, Iowa?
Impossvel, concluiu Josie. E respirou mais tranquila, at que o funcionrio da companhia telefnica apresentou-se para instalar um nmero de fax e mais linhas telefnicas.
 Onde vo ficar os aparelhos, senhorita?  perguntou o tcnico, trazendo com dificuldade uma caixa enorme.
Atnita, Josie no conseguiu responder, mas Sam j se aproximava por trs dela.
 Traga para c  instruiu ao tcnico.  Vou instalar tudo no meu quarto.
 No pode!  protestou Josie.  J est reservado
 Que pena. Vai ter que transferir a reserva para outro quarto.
 No vou passar a reserva para outro quarto! 
Ele encolheu os ombros, indiferente.
 Pode fazer a reserva para a namoradeira.
 Vou transferir a reserva para o quarto do ltimo andar  decidiu ela, cerrando os dentes.
  tima idia. L  maior. E melhor.  Sam indicou a escada para o tcnico. Ento, voltou-se para Josie, que o observava raivosa.  No fique nervosa  aconselhou.  No faz bem para voc, nem para o beb.
Josie conteve o mpeto de agredi-lo. Ento, ergueu o olhar para o cu, apesar da vontade de invocar o inferno.
  Como pde, Hattie?  indagou ela  querida finada protetora.  No sabe o que fez comigo.
No era fcil ignorar Sam. Ajudaria se ele permanecesse no quarto, mas ele no fazia isso.
Aparecia na cozinha, fazia perguntas, rabiscava anotaes, pedia-lhe que o lembrasse de reunies com empresrios tailandeses e relojoeiros alemes, ou que ligasse para Elinor e pedisse que ela cuidasse de um carregamento de guarda-chuvas japoneses.
Guarda-chuvas, ora!
Josie queria mand-lo pular no lago, mas no dava mostras de estar irritada.
Ajudaria tambm se ele desistisse do papel de gerente. Duas vezes, hspedes haviam tocado a campainha e, quando ela fora atender, j encontrara Sam fazendo as honras da pousada, mostrando o estabelecimento com uma simpatia que com certeza estava relacionada a seu sucesso nos negcios.
Josie convenceu-se de que ele tinha esse direito. Era o patro. Apenas gostaria que ele se apresentasse como tal, a ela como gerente. Mas ele s dizia: "Esta  Josie".
Notando o olhar possessivo dele e a barriga dela, as mulheres logo deduziam o bvio e perguntavam para quando seria o beb, comentando como era bom ter o marido por perto todo o tempo.
Josie queria estrangul-lo. Queria usar uma camiseta com os dizeres: "Ele no  meu marido!" Mas no ousava.
No somos casados!, queria gritar para todos. Mas no fazia isso, pois gerentes de pousadas no gritavam com os hospedes.
Poderia, entretanto, gritar com o patro assim que tivesse uma oportunidade. Na maioria das vezes, sorria educada retirava-se assim que podia. Se ele queria recepcionar os hspedes, estava timo para ela, pensou, ranzinza. Poupava-lhe ter que sorrir todo o tempo.
 Parece que ela andou chupando limo, no parece, Ben? 
Josie parou de confeccionar a grinalda e viu Cletus e Benjamim entrando pela porta dos fundos. Conseguiu esboar um sorriso para os dois velhinhos e passou a mo pelo cabelo.
O clima esquentara e, desde que ficara grvida, sentia mais calor do que o normal, o que a deixava aborrecida. Era bom mesmo que Sam se ocupasse dos hspedes. Mostrava-se muito mais simptico do que ela naquele momento.
Paciente, ouviu os comentrios de Cletus e Benjamim. Sabia o quanto eles se preocupavam com ela desde a morte de Hattie e deviam ter transmitido suas preocupaes a Sam.
Talvez, se tentasse, conseguisse que eles tranquilizassem Sam. 
Juntou vrios galhos de eucalipto e amarrou-os com arame. Olhou de novo para os velhinhos e esforou-se para alargar o sorriso.
  No chupei limo, no  declarou.  S est quente aqui.
 Quer que ligue o ar-condicionado?  ofereceu-se Cletus.
 No, eu estou bem.
 Estou contente em saber  disse Benjamim.  Voc no parece cem por cento.
Josie encolheu os ombros.
 Estou me sentindo um pouco... desocupada. S isso.
  Sam no est cuidando do casamento?
 Josie ergueu a cabea.
 Que casamento?
  O seu.
 No vai haver casamento nenhum  afirmou Josie.
 O que quer dizer com "no vai haver casamento"?  Benjamim cerrou as sobrancelhas brancas.  Claro que vai. Foi por isso que ele voltou.
 Pode ser o motivo da vinda dele, mas isso no significa que eu v me casar com ele.
Cletus parecia revoltado.
 Por que no?
 Porque eu no quero  afirmou Josie.
 Por que no?  exigiu Benjamim.
Josie suspirou. Onde, imaginou, estava escrito que tinha t|iie explicar cada deciso sua a dois velhinhos abelhudos?
 As pessoas no se casam s porque vo ter um filho.
 Parece um bom motivo para mim  disparou Cletus.
 Excelente motivo  reforou Benjamin. 
Josie balanou a cabea.
 No na minha opinio.
 Tem um motivo melhor?
 Por amor.
 Voc o ama.  Ambos olharam para ela, desafiando-a a negar.
Josie desviou o olhar. Mordeu o lbio e pegou mais galhos de eucalipto, amarrando-os tambm.
 No ama?  insistiu Benjamim.
 No passado, tive um fraco por ele  concedeu Josie, bastante irritada.  H muito tempo.
Ambos ergueram as sobrancelhas. Josie supunha que devia ficar agradecida por eles no observarem que ela no dormira com Sam naquela poca.
 J acabou  insistiu ela. 
Cletus inclinou a cabea.
 Voc no tem mais aquele sentimento?
 No, no tenho mais aquele sentimento.  Era verdade. Superara aquele "sentimento" havia muito, tanto que agora conclua que fora uma "doena". Olhou-os severa.  Poderiam ficar fora disso?
 A gente s queria ajudar  justificou Cletus. 
Josie reuniu mais pacincia.
 Eu sei. Mas no esto ajudando. Esto tornando tudo mais difcil.
 Eu me caso com voc  ofereceu-se Benjamim.
 Cletus e ela olharam para o outro velhinho, boquiabertos.
  Isso mesmo  repetiu Benjamim, ruborizado at a raiz dos cabelos.  Se est procurando algum que a ame...
Josie sentiu o corao derreter. Largou os galhos de eucalipto e foi abraar Benjamim. Foi um abrao desajeitado, principalmente por causa da barriga, mas nem por isso menos emotivo.
 Oh, Ben...  Josie beijou a face enrugada avermelhada.  Voc  to bom para mim.
 Estou falando srio  declarou ele, passando o peso de uma perna para outra.  Eu me caso.
 Aprecio a oferta. Sabe que aprecio. E eu o amo tambm. Aos dois.  O sorriso dela inclua Cletus.  Mas no do jeito que, imagino, ser com o meu marido. E no do jeito que gostaria de me sentir comigo mesma.
 Voc no acha que Sam sente o mesmo? perguntou Cletus, aps um segundo.
Josie balanou a cabea.
 No. Foi um... equvoco. Ns cometemos um erro. Casar-me com ele seria cometer outro.  Ela olhou para os amigos e buscou a aceitao deles.
Os velhinhos se entreolharam e assentiram.
Ela no sabia o que queria. Que um deles a convencesse do contrrio, talvez? Que um deles dissesse que a noite de amor no tinha sido um engano? Que dissessem que Sam a amava tanto quanto ela o amava?
Mesmo que eles fizessem isso, no adiantaria nada. Ela teria que ouvir de Sam para acreditar.
E Sam nunca diria as palavras que ela queria ouvir. Ele s agia por dever e responsabilidade.
Josie no queria ser mais uma responsabilidade na vida de Sam.
Queria que ele fosse embora.
E, se ele no fosse por vontade prpria... bem, ela teria que convenc-lo!


CAPTULO CINCO


No deveria ser to difcil. Sam estava acostumado a negociar por telefone, fax e computador. Se o empresrio tailands relutava em ir a Dubuque, pacincia. Continuaria sem ele.
Mas nada estava indo bem. Nada mesmo.
Mensagens eletrnicas perdiam-se ou extraviavam-se. Algum limpava a escrivaninha e esvaziava o cesto de lixo assim que ele se levantava para ir ao banheiro. Projetos em que vinha trabalhando havia meses simplesmente desapareciam no ar.
A nova linha telefnica apresentava problemas, mas o tcnico afirmava que estava tudo em ordem. Josie afirmava que as demais linhas da pousada funcionavam perfeitamente bem.
Quase no tinham oportunidade de conversar. Ela parecia evit-lo durante parte do tempo, enquanto na outra parte fazia questo de estar onde ele estava, passando o aspirador de p, dando marteladas ou mostrando as dependncias da pousada aos hspedes.
Sempre tivera a vaga fantasia romntica de que mulheres grvidas eram calmas, dceis e... bem, lerdas. Josie no era nem calma, nem dcil. E no se atreveria a duvidar de sua agilidade, pelo menos no perto dela.
De qualquer forma, aps trs dias, ela ameaava deix-lo maluco. No lhe bastava estar grvida e administrar uma hospedaria, como uma pessoa normal. No Josie!
Ela tinha que estar grvida, administrar a pousada e executar ao mesmo tempo seis projetos de decorao.
Certa tarde, ele a surpreendera colocando nas paredes paisagens que adquirira em um leilo recentemente. Carregava cada quadro pesado, erguia e fixava. Ento, afastava-se e avaliava o efeito. Insatisfeita, retirava a tela, levava-a para outro quarto e repetia o processo. Fazia questo de invadir os cmodos em que ele se refugiara tentando trabalhar.
 Voc j esteve aqui  observava ele, quando ela entrou na biblioteca, no andar trreo, com um quadro enorme retratando prdios antigos de Dubuque.
 Eu sei. Achei que poderia encontrar um lugar melhor para este aqui.  Josie encolheu os ombros.  No consegui.  J tinha o rosto afogueado, mas comeou a erguer a tela pesada mais uma vez.
 No, d-me isso aqui.  Sam arrebatou o quadro.  Onde quer colocar?
 Ali.  Ela apontou para a rea na parede acima de um aparador de madeira.  Ou melhor, ali!  Apontou para a banheira de dois lugares no fundo do cmodo, re-cm-instalada, a fim de alojarem casais em lua-de-mel.  De frente para a banheira. Os casais vo relaxar apreciando o quadro durante o banho...
Sam apoiou o quadro na borda da banheira e entrou nela.
 Eu no ficaria olhando para isso se estivesse dividindo a banheira com algum  comentou, maldoso.
Josie ruborizou mais intensamente.
 Apenas pendure, sim?  retrucou, sucinta. 
Sam obedeceu.
 Est torto  informou ela. Ele ajustou um pouco.  Passou.  Ele voltou um pouco.  Mais...  Ele mexeu mais um pouco na moldura.  A! Perfeito.  Fez uma pausa e avaliou o efeito.  Talvez fique melhor sobre o aparador mesmo.
Sam saiu da banheira.
 Desculpe, querida, mas vai ficar a mesmo onde est.
 Mas...
Ele se voltou para ela.
 Leia os meus lbios. Est timo!
 Ento, eu mudo.  Josie avanou para a tela.
Sam colocou-se entre ela e a tela. O telefone tocou.
Era sua secretria, Elinor, ainda tentando desembaraar um carregamento de tecido indiano na alfndega. Precisava de que Sam assinasse uns documentos que ela enviara via fax.
 Vou subir para receber o documento.
No estava mais l. A escrivaninha tinha sido arrumada novamente e o cesto de lixo, esvaziado. Nem sinal do documento enviado por Elinor.
Podia ouvir Josie passando o aspirador no corredor.


Ela estava tentando se livrar dele.
No era preciso ser gnio para perceber isso. At um homem conseguia chegar quela concluso.
Mas Sam mantinha-se calmo.
At ver Josie empoleirada no alto de uma escada, na manh seguinte.
 O que pensa que est fazendo?  ralhou, quase amassando a comprida mensagem de fax referente a um carregamento de jade extraviado.
 Trocando o papel de parede, ora. 
Sam esforou-se para no explodir.
 Na minha opinio, est tentando se matar. Desa. 
Josie continuava arrancando o papel da parede.
 No. 
No?
Sam sentiu-se sufocado pela gravata. Ao tentar afroux-la, percebeu que estava de camiseta. Largou o fax no cho, esticou-se e agarrou Josie pelos quadris, tirando-a da escada.
  Como se atreve?!  protestou ela. Uma vez com os ps no cho, encarou-o cuspindo fogo.
 Como posso no me atrever quando voc resolve fazer algo to estpido?
  Esse  o meu trabalho. "Ao gerente cabe zelar pela habitabilidade do local." Leia a descrio do meu cargo.
 Farei mais que isso. Vou mudar a maldita descrio do seu cargo. Agora, fique longe da escada!
  Mas preciso continuar com a tarefa. Est na minha lista. Hattie e eu preparamos a lista no inverno: onde deveramos trocar o papel de parede e onde deveramos pintar. Os solventes das tintas no fazem bem ao beb, mas papel de parede no tem problema. J troquei papis antes. Quem voc acha que colou o papel que est a?
Ela tentava se desvencilhar enquanto tagarelava. Mas Sam no a soltava. Apenas transferiu as mos dos quadris dela, pois o contato no lhe permitia raciocinar bem, para os punhos, menos tentadores.
 Trocou, mas no estava grvida na ocasio, estava? 
Finalmente, Josie conseguiu se libertar.                            I
 Voc sabe muito bem que n!
  Bem, agora est. De um filho meu. Ento voc bem que podia ficar longe dessa escada!
Ela desviou o olhar. Impasse.
 O papel de parede precisa ser trocado  insistiu Josie.
  Ento vamos contratar algum que faa.
 O dinheiro resolve tudo? E assim, Sam?
Ele remexeu o maxilar. Sabia que ela estava tentando irrit-lo. Ela sabia muito bem que ele no se importava com dinheiro, mas queria provoc-lo.
A gravidez sempre vinha acompanhada por teimosia irracional? Achava que no era prudente perguntar.
  Dinheiro vai resolver esse problema  concluiu, da forma mais calma possvel.  Contrate um homem para fazer o servio.
 Por que um homem?  observou Josie, desdenhosa.  Por que essa atitude machista? 
Sam cerrou os dentes.
 Est bem. Contrate uma moa. Contrate trigmeos, idnticos ou no! Eu no me importo! Apenas fique longe da escada!
Josie encarou-o. Ele devolveu o olhar.
O telefone comeou a tocar. Ele cerrou os dentes, mas no foi atender de imediato.
 Vou atender esse telefonema na biblioteca  avisou, e ergueu a mo para impedi-la de protestar.  No quero saber se foi reservada. Os hspedes podem ficar noutro quarto ou ir para outro lugar. Tenho trabalho a fazer e farei. E voc no vai me impedir. Mas vai parar de subir em escadas!
O telefone continuava tocando.
 Algum pode atender o telefone?  berrou Cletus. Sam apertou o boto do aparelho e berrou:
  Fletcher falando! Um momento.  Ele pressionou o boto de espera e encarou Josie novamente.  Entendeu?
Por bons trinta segundos, ningum se manifestou. Ento, Josie cedeu:
 Vou chamar algum que precise do trabalho. 
Ergueu o queixo, passou por ele e desceu para a sala de estar.
Vista de trs, no havia indcio de gravidez. Ela parecia exatamente como sempre, uma mulher sensual com as pernas mais longas e bonitas que ele j vira. Somente os movimentos ligeiramente cuidadosos denunciavam seu estado. Mas ela ainda tinha o rebolado mais sedutor que j vira.
Grunhiu.
No aparelho de telefone, a luz indicadora de espera continuava piscando. O nmero conectado ao fax comeou a tocar tambm.
 No tem ningum para atender o telefone a em cima?  reclamou Cletus. Sam ignorou o fax e apertou o boto para recuperar a ligao.
 O qu?
  Sobre o tempo que vai levar  repetiu Elinor.  O sr. Rajchakit quer falar com voc. Ele est esperando na linha. Vai ser uma reunio por telefone.
 Ah...  Sam saudou em tailands.  Sa-waht! Dee Krahp, sr. Rajchakit.
No era hora de ficar pensando nas pernas de Josie.


No fora a semana mais produtiva da vida de Sam, com certeza.
Conseguira localizar o carregamento de jade s custas de milhares de dlares em telefonemas, algo que poderia ter feito pessoalmente se estivesse em Nova York. Conseguira reagendar uma reunio com empresrios de Hong Kong para o ms seguinte. Conseguira at acalmar o sr. Rajchakit comprometendo-se a encontr-lo em Nova York em duas semanas, embora no tivesse certeza de poder comparecer quela reunio, tampouco.
Tudo dependeria do comportamento de Josie. Ou do sucesso da tentativa dela de enxot-lo dali.
No queria admitir, mas ela estava fazendo um excelente trabalho.
Era claro como gua que ela no o queria por ali e empenhava-se ao mximo para que ele fosse embora. Havia barulho constante e movimentao onde quer que ele estivesse trabalhando. No obstante, a pousada continuava a parecer acolhedora aos hspedes.
Ele vivia atolado em papel de parede, p e tinta fresca, mas todos os demais pareciam viver prximos ao paraso. No entendia como Josie era capaz de proporcionar paz e tranquilidade a todos e, ao mesmo tempo, provocar um furaco onde quer que ele se encontrasse.
Sam levou cinco dias para obter seu primeiro momento de paz, num quartinho escondido.
Sabia que aquele quarto seria ocupado  noite, mas o casal em lua-de-mel s chegaria bem tarde da noite.
Assim, entrincheirara-se l sem que Josie soubesse.
Passou trs horas sozinho e avaliou todos os faxes que Elinor enviara-lhe. Conseguira at dar vrios telefonemas seguidos. Ningum lhe atirou restos de papel de parede, nem respingou tinta em seus cabelos, nem entregou-lhe um gato do qual tomar conta.
As seis horas, sentia-se como se tivesse conquistado o Everest. Arrumou a ltima folha de papel, levantou-se e espreguiou-se.
Sentiu dor nas costas por ter ficado debruado sobre a escrivaninha tanto tempo.
 Fora de forma, hein?  repreendeu-se.
Recolheu os documentos, deu uma olhada no quarto para ter certeza de que estava tudo em ordem e, ento, saiu ao corredor.
A pousada estava em silncio. Ouviu vozes na sute de luxo; provavelmente os hspedes j haviam chegado. Um casal estava na sala de estar, tomando xerez e lendo o jornal.
Sam esperava que Josie estivesse por ali, comentando sobre as atraes locais, mas no. Errol Flynn dormitava num canto. Pela janela que dava para a varanda, viu o outro gato de p, atento. Foi at l.
  Onde est Josie?  indagou ao bicho. 
Wallace bocejou.
A campainha soou. Sam no foi atender.
J fora advertido de que no era sua tarefa. Acariciou o gato entre as orelhas e ganhou um ronrom de prazer.
A campainha soou mais uma vez.
Sam aguardou, esperando ouvir os passos de Josie, vindos da cozinha. O casal na sala de estar olhou-o, apreensivo.
Estranhando a demora, ele foi at a copa.
 Josie?
Foi adiante, at a cozinha. Ningum estava l. Viu Cletus no jardim, regando as plantas. Josie no estava com ele..
Iniciou o caminho de volta para abrir a porta, mas o velho Benjamim j estava l, recepcionando duas moas.
 Sejam bem-vindas. Desculpem a demora em atender, no sou mais to ligeiro quanto antes. Vou levar as suas malas... Ah, este aqui  o Sam  apresentou, ao v-lo.  E o gato  Wallace Beery.
Sam sorriu. Wallace ronronou. Benjamim indicou a escadaria s hspedes.
Era um avano, pensou Sam. Benjamim apresentara primeiro a ele e depois o gato.
 Onde est Josie?  indagou Sam ao ancio.
  Ela me pediu para cuidar da pousada um pouco  comunicou Benjamim, olhando-o por sobre o ombro.  Por aqui, senhoritas.
O resto da tarde se escoou e Josie no apareceu, nem para o jantar.
Sam estava intrigado com aquela ausncia demorada. Nunca a vira tirar um dia de folga desde que comeara a trabalhar ali. Era bvio que tinha esse direito, mas podia t-lo avisado, pensou, irritado.
Preparou um lanche para si mesmo e para Benjamin. O bom velhinho aproveitou para contar histrias da poca em que ele e o finado Walter conduziam o rebocador pelo rio Mississipi. Sua descrio chegava a ser idlica, lembrando muito as aventuras de Tom Sawyer e Huck Finn. Uma vida maravilhosa.
Sam lembrou-se da poca em que Walter ainda era vivo. Certo dia, tinham pego o barco e visitado uma das ilhotas no meio do rio. Haviam preparado o jantar numa fogueira e contemplado as estrelas at bem tarde da noite, conversando.
Josie estivera l tambm naquela noite, os olhos brilhando, o rosto alegre, ansiosa por ouvir a prxima histria extraordinria. Lembrava-se de olhar para ela, de divertir-se com a expresso esperta e entusiasmada. Decidida a se aventurar como Tom Sawyer, no dia seguinte ela comeara a construir uma jangada.
Trabalhando com afinco, levara trs dias s para cortar e juntar as toras. Lembrou-se do dia do lanamento da jangada. Josie esfuziava de satisfao. Estava toda suja, mordida por insetos e queimada de sol, mas nunca vira ningum com um sorriso mais largo do que o dela.
Pensou ter revisto aquele sorriso rapidamente, na noite em que fizeram amor.
Benjamin foi embora para a cabana dele e Sam ficou na sala de estar, apreciando a cidade e o rio pela janela. Ficou pensando nos velhos tempos e em Josie.
Poucas vezes pensara nela aps aquela noite.
Parecera sbio no se aprofundar naquele conflito de emoes. De que adiantava? Ela era de Kurt, no dele. Mas e agora?
Ela no estava mais com Kurt.
No estava com ele, tampouco.
Mesmo assim, aquela mulher que mal conhecia, exceto pela teimosia, pela gentileza com estranhos e pelo sorriso, era a me de seu filho.
E no fazia idia de onde ela estava! Ou com quem estava. Passou a mo pelos cabelos e comeou a andar pela sala. Raios!
Nove horas. Dez horas. Onze. E nada de Josie.
Estava praticamente fazendo um buraco no tapete de tanto andar no mesmo lugar. Teria sado com amigos? Com Kurt?
A idia era perturbadora demais. Parou junto ao telefone e ficou olhando para o aparelho. Pegou o caderno de telefones o procurou o nmero de Kurt. Discou, imaginando o que diria caso ela atendesse. Ningum respondeu, somente a secretria eletrnica:
 Aqui  Kurt Masters. Sa para jantar. Por favor, deixe recado ao sinal.
Sam bateu o fone no gancho.
Saiu para jantar? Com Josie?
Queria saber!
A campainha soou.
Ele abriu a porta para os hspedes retardatrios. Era o casal em lua-de-mel que ficaria no quarto onde ele estivera trabalhando naquele dia.
 Espero que no tenha ficado acordado por nossa causa  comentou a moa, sorrindo.
Sam balanou a cabea.
 No, claro que no.
Apesar da preocupao, sorriu diante dos recm-casados. A moa ainda trajava o vestido de noiva e tinha um pratinho de bolo na mo. O rapaz estava vestido a carter e segurava uma caixa de pizza.
 No comemos quase nada na festa  explicou a noiva.
 Espero que no se importe.
Divertido, Sam os conduziu at a biblioteca, desejou felicidades e, antes de se retirar, notou que a tradicional garrafa de champanhe que Josie sempre deixava gelando no balde no estava l.
Franziu o cenho. No era normal Josie esquecer-se de um detalhe como esse. Imaginara que ela houvesse encarregado algum de levar a garrafa em balde de gelo pouco antes do horrio previsto para a chegada dos hspedes.
 Volto j!  prontificou-se.  Recm-casados ganham uma garrafa de champanhe!
A noiva sentou-se na cama e pegou uma fatia da pizza.
O noivo indagou:
  Se tiver duas latas de cerveja...
  Claro  entendeu Sam.  Combina melhor com a pizza! 
Tirou da geladeira um pacote com seis latas de cerveja e correu para a biblioteca.
 Pronto!  exclamou, entregando a encomenda.  Se precisarem de mais alguma coisa,  s pedir!
 No vamos precisar de mais nada  assegurou a noiva. 
Ela sorriu para o noivo.
Ele devolveu o sorriso.
Ento, ambos olharam para a banheira e depois para a cama.
 Certo  concluiu Sam, e saiu fechando a porta.
Onde Josie se metera?
Subiu a escadaria e bateu na porta do quarto dela. No houve resposta. Mas viu uma luz pela fresta da porta. Ela estivera ali todo o tempo?
 Josie? 
Nada.
 Josie?
Finalmente, ouviu som de passos. A chave girou na fechadura e a porta se abriu. Sam olhou bem para Josie.
 O que h com voc?
 Nada.
Evidentemente, era mentira. Nunca vira Josie to transtornada. Ela estava plida, com os lbios arroxeados e olheiras escuras.
Sam forou a entrada na saleta. Josie usava a mesma camisola e o mesmo robe da noite em que ele a convidara para ir a seu quarto, mas agora mal cobriam sua barriga.
Ela cruzou os braos e encolheu os ombros, desajeitada.
  So apenas... contraes.
  Contraes?! Agora? Est tendo o beb agora?
  No. Claro que no.  Ela encolheu os ombros.  Pelo menos... espero que no.  A ltima frase saiu bem baixinha.
Ela comeou a tremer. Sam praguejou e envolveu-a com um brao, conduzindo-a para a cama.
 Voc precisa se deitar.
 Eu estava deitada.
 Desculpe-me. Por que no me contou?
Ela no respondeu. Tentou se desvencilhar dele, mas ele no permitiu. Afastando a coberta, ajudou-a a se acomodar na cama e cobriu-a.
 Chamou o mdico?
 Desta vez, no.
 O que quer dizer com "desta vez?" Com que frequncia isso ocorre?
 No grite  avisou ela.  O beb pode ouvi-lo.
 Bebs reagem  entonao e no ao volume.  Sam no sabia se era verdade, mas parecia razovel.  Chame o mdico.
 No h necessidade. Ele s vai dizer para eu me deitar.  Ela estava to plida quanto o lenol.
 Quando comeou?
 Na hora do almoo.
 Na hora do almoo!
 No  regular  apressou-se Josie em dizer.  Bem no muito regular.  Relaxou o pescoo e agarrou a coberta   S preciso descansar...  A voz saiu fina, incerta.
 Vou chamar o mdico. 
Ela tentou se erguer.
 No precisa...
 Precisa, sim! Qual o nome dele?
Por um instante, Sam achou que ela no iria fornecer a informao.
 Dr. Bastrop  disse ela, relutante.  Mas no devi aborrec-lo. Verdade,  sbado  noite.
 Todos os bebes nascem de segunda a sexta, das nove s cinco?  Sam encontrou o nmero no caderninho de telefones e digitou.
 Ele no vai fazer nada! S vai dizer para eu ficar na cama e descansar.
Veremos  declarou Sam. Al? Aqui  Sam Fletchei Quero falar com o dr. Bastrop. Imediatamente.
Cinco minutos depois, decidia-se por levarem Josie ao hospital.
Josie entendia por que Sam era um executivo de sucesso. Sem erguer a voz, ele pusera toda a equipe mdica a seu servio.
Se ela houvesse dado o telefonema, teriam lhe dito para aguardar um retorno da ligao. Ento, seria consolada, seus temores seriam minimizados e a preocupao seria abrandada. Fim de drama.
Sam conseguia o.
 Muito bem.  Sam desligou o telefone e tirou a coberta de cima dela.  Vamos para o hospital.
Josie no se mexeu. Aninhou-se na cama, abraando-se, sentindo uma contrao.
 No.
 No seja ridcula. O mdico est a caminho. Ele vai nos encontrar l.
Mesmo assim, Josie no se mexia. Respirava de leve e tentava espantar a dor. De algum modo, enviou uma mensagem a Sam, pois de repente ele praguejou e ajoelhou-se a seu lado.
 Est doendo muito?
Ela fez que no e suprimiu um soluo.
  Acho que no. No est doendo. E s que... que...  Tentou aparentar calma. No conseguiu. No final, gritou.  Eu no sei! E se estiver nascendo? E cedo demais!
  por isso que precisamos ir para o hospital.  Sam estava to prximo que ela sentia a respirao junto a seu brao.  Est melhor agora? Pode se sentar?
Ela assentiu, trmula.
 Vamos, ento.  Sam colocou um brao forte sob as pernas dela e ergueu-as.  Eu vou carregar voc.
Josie ficou tensa.
 No precisa me carregar!  Ajeitou o robe.  Saia daqui!
 Voc precisa ir para o hospital, Josie.
 Ento, eu irei. Mas andando. E vou me vestir primeiro, portanto, saia para que eu possa me aprontar!
Ele hesitou. Ela achou que ele ia fazer algum comentrio sobre j ter visto tudo o que ela podia mostrar. Mas ele conformou-se:
 Estou bem junto  porta.
Josie levantou-se, trmula, e comeou a se vestir. Sentiu outra contrao enquanto vestia o suter. Muito mais forte do que as anteriores, fez com que se inclinasse para a frente.
Seus problemas estariam resolvidos se perdesse o beb, mas no queria perd-lo! Era sua nica certeza desde que se descobrira grvida. Permaneceu imvel at a dor passar.
 Josie?  chamou Sam, alm da porta.
  Espere.  Ela acabou de vestir o suter. 
Impaciente, Sam entrou no quarto enquanto ela calava a sandlia.
  Deixe que eu afivelo.  Antes que ela pudesse protestar, ajoelhou-se  frente dela e tomou-lhe um dos ps.
Josie sentia os cabelos dele, queimados de sol, roando em seu joelho, bem como suas mos grandes e fortes em torno de seu p, tentando alojar o calado.
   um luxo ter algum para me ajudar a calar a sandlia...
Ele ergueu o olhar por sobre a barriga enorme. Seus olhares se encontraram. Ela arriscou um sorriso tmido. Ele retribuiu o sorriso.
Era a primeira vez que trocavam sorrisos, pensou Josie, desde que ele ressurgira em cena, havia uma semana. Era tolo sorrir naquele momento. Na verdade, tinha vontade de chorar. Zangada, tentou reprimir as lgrimas.
 Muito bem.  Sam levantou-se e ajudou-a a ficar de p.  Vamos.
 Preciso chamar Benjamim. Algum precisa cuidar da pousada e atender ao telefone.
 Eu j o chamei.
Quando estavam na porta, encontraram-se com o velhinho. Sonolento, ele nem penteara os cabelos e tinha a camisa para fora da cala.
  Voc est bem?  perguntou a Josie. Sem esperar pela resposta, olhou fixo para Sam.  No deixe que nada de mal acontea a ela, ouviu?
Sam assentiu.
 Alto e claro.
O mdico chegara antes e j os aguardava na sala de emergncia do hospital. Era um homem forte, de cabelos grisalhos e bigodo. Com seu jeito tranquilo e brincalho, transmitia conforto s clientes.
 Voc tinha que animar o meu sbado, no ?  foi seu primeiro comentrio.
 Desculpe-me  balbuciou Josie.  Tenho certeza de que no  nada.  s que ele... ele  Encarou Sam, que teimava em segurar-lhe o cotovelo.  Ele queria ter certeza. 
O dr. Bastrop encarou Sam. Sabia que Josie no quisera envolver o pai da criana na gravidez. No estava de acordo, mas no dissera nada. Agora, podendo avali-lo, pareceu aprovar.
  Bem, vamos examinar, certo?
Sam comeou a segui-los at a sala de exames, mas o dr. Bastrop olhou-o por sobre o ombro.
  Voc no pode ajudar agora. Fique a no corredor. Falo com voc quando tivermos um quadro preciso.
Por um segundo, Josie achou que Sam ia discutir. Mas ele assentiu e enfiou as mos nos bolsos.
  Eu espero aqui.
No era confortvel, mas pouca coisa era em se tratando de uma gravidez, pensou Josie.
Os exames foram feitos e Josie pde se vestir novamente. Sentada na mesa, ficou esperando pelo mdico.
 Qual era o intervalo das contraes mesmo?  indagou o dr. Bastrop.
Ela passou a lngua pelos lbios.
  As vezes um minuto. s vezes, cinco.
 A tarde inteira?
  .  Aflita, Josie indagou:  Est nascendo?
  Espero que no. Chame o pai da criana  pediu o mdico  enfermeira.
Um segundo depois, Sam aparecia na porta.
  Est tudo bem?
  Ela est bem.
  E o beb? Est nascendo?
 No sei ainda. 
  No sabe?  questionou Sam, inquieto.
  Pode at ser.         
 Mas...
  Teremos que esperar.  O mdico deu um sorriso encorajador a Josie.  Talvez, se repousar, as contraes cessem. Contraes falsas so comuns em mulheres que j tiveram filhos. No ficaria preocupado se esse fosse seu terceiro, quarto ou mesmo segundo filho. Mas como  sua primeira gravidez, no sei. Mesmo que desse  luz agora, o beb teria muita chance de sobreviver. Muitos bebs nascem de sete meses, alguns at com menos. Mas a natureza determinou nove meses. D menos problemas. Seria bom reter o beb o mximo de tempo possvel...
 Est bem, vou diminuir o ritmo  declarou Josie.
 Diminuir o ritmo no vai adiantar  ponderou o dr. Bastrop.  Vai ter que parar com tudo.
  Parar com tudo?!
 Isso mesmo  confirmou o mdico.  No sei se voc andou se excedendo ultimamente, mas algo est provocando a placenta.
Josie sentiu o olhar de Sam sobre ela  meno da palavra "excedendo" e ruborizou com mais intensidade.
 Eu precisava trabalhar! No quis...  Desviou o olhar, lutando contra as lgrimas.
  No importa o que andou fazendo, Josie. No pode continuar. Precisa de repouso  declarou o mdico.  E isso significa nada de correria, nada de peso, nada de escada.
 Meu quarto fica no segundo andar!
  Ns a mudaremos para baixo  decidiu Sam, com um olhar que desencorajava qualquer protesto.  E ela vai parar. Vai ficar na cama durante o resto da gravidez, se o senhor disser que  preciso.
Josie buscou apoio no mdico, mas este parecia aliado a Sam ao concluir:
  Otimo. J era hora de algum comear a cuidar de voc!
 Eu posso cuidar de mim mesma!  protestou ela, e ento franziu o cenho ao sentir mais uma contrao forte.
O dr. Bastrop pousou a mo na barriga dela e a manteve ali.at que a dor passasse.
 Eu sei que pode cuidar de si mesma, Josie  apaziguou.  Durante todo o tempo, fez o que era melhor para o beb. Tenho certeza de que continuar sendo assim. Fique contente por seu marido poder ajudar.
"Ele no  meu marido!", Josie quis gritar. "Ele nunca foi meu marido. Ele  apenas o pai do meu filho!" Levou a mo  testa, perturbada.
 Leve-a para casa e coloque-a na cama  instruiu o dr. Bastrop a Sam.  Um pouco de paparico no far mal.  Aps uma pausa, sugeriu:  E cruzem os dedos.


CAPTULO SEIS


 Voc no pode simplesmente expuls-los!  protestou Josie, quando Sam decidiu desocupar a biblioteca para ela passar a noite l. 
 Eles so nossos hspedes!
  Eles vo entender  garantiu ele, obrigando-a a se sentar  mesa da cozinha.  Ouviu o mdico: no subir escadas. Fique a. Nem pense em se mexer at eu voltar. Seu novo quarto estar pronto em poucos minutos.  Olhou para o velho Benjamim.  Tome conta dela.
Sam no comentara nada sobre aquela deciso durante o trajeto entre o hospital e a pousada, mas Josie adivinhara que ele tomaria alguma atitude radical. S no cogitara que ele desalojaria um casal em plena lua-de-mel!
Fechou os olhos e gemeu.
Benjamim inclinou-se para ela.
  Est sentindo dor? Como eles a liberaram se ainda est com dor?
Josie esboou um sorriso fraco.
 No tenho dor. S estou preocupada.
  Com o beb?
 Com o que Sam est fazendo.
  Ele est fazendo o que tem que fazer  filosofou o velhinho.  Est cuidando de tudo. De voc.
Seria algum tipo de conspirao masculina?, imaginou ela. Ser que todos os homens num raio de cento e cinquenta quilmetros achavam que mulheres grvidas precisavam de que algum cuidasse delas?
A porta abriu-se.
 Eles saram  anunciou Sam.  Vou trocar os lenis. 
Josie estava horrorizada.
 Voc os acordou?
 Duvido de que estivessem dormindo  replicou Sam, maldoso, e deu um sorriso torto.  De qualquer forma, entenderam. Prometi um final de semana grtis e os transferi para outro quarto.
 Ns no temos outro quarto vago.
  Instalei-os no seu, ora.
 No meu?!  Ela olhou-o atnita. Seu quarto era simples e sem requintes, quase austero, sem nenhum atrativo.
 No poderia instal-los no meu, com o papel de parede pela metade.  Sam arqueou uma sobrancelha.  Como se diz por a, "seu tiro saiu pela culatra".
Josie sentiu vontade de mostrar-lhe a lngua. Em vez disso, respirou fundo para aliviar a irritao e virou o rosto para no ver o sorriso de superioridade dele.
Ele no perdeu muito tempo tripudiando.
 Venho pegar voc em poucos minutos.
 No precisa vir me buscar  disparou ela.  Eu sei onde fica a biblioteca.  Josie pressionou a mo contra a barriga ao sentir outra contrao.
Sam percebeu, franziu o cenho e avisou:
 Vou me apressar.


A lgica dizia a Sam que a possibilidade de ela perder o beb no era to m. Isso cortaria a ligao entre eles, resolveria seus problemas, simplificaria suas vidas.
Mas sentia um arrepio ante a simples idia.
No pensara em nada alm do momento presente desde que soubera que ia ser pai. No ficara acordado  noite planejando o futuro. No formara um conceito sobre a criana que gerara.
E, mesmo assim, quando achou que o beb poderia no sobreviver, entendeu que moveria cus e terra para garantir o bem-estar daquela criana.
Expulsar hspedes era a ltima de suas preocupaes. Mandaria todo o mundo para a rua se isso garantisse a gravidez de Josie.
No garantia. Na verdade, isso a deixaria ainda mais preocupada. Ela adorava a pousada, adorava administrar o negcio. Aquela propriedade devia ter ficado para ela.
Pois providenciaria a transferncia. Mas, naquele momento, sua primeira tarefa era garantir que ela permanecesse em repouso e calma.
No quarto de Josie, recolheu os poucos objetos. pessoais dela, deixando-o apresentvel para o casal que expulsara da biblioteca. Ento, pegou sua camisola e robe, alm de outras peas de que ela precisaria na manh seguinte, sentindo-se incomodado, como se fosse um voyeur.
Assim que instalou os recm-casados no quarto de Josie, foi trocar os lenis da cama da biblioteca. Nunca fizera uma cama to rpido na vida. No estava uma maravilha. Os cantos no estavam dobrados com preciso militar. No afofara o acolchoado de penas, mas no se importava com a nota baixa que Josie lhe daria, desde que ela permanecesse ali descansando.
Voltou  cozinha e at suspirou de alvio ao v-la exata-mente no local onde a deixara.
  A biblioteca est pronta  avisou.  Como est se sentindo?
  Eu estou bem.
Sam achou-a plida. Quando ela fez meno de se levantar da cadeira, apressou-se em ajud-la. Ficou contente por ela no repudi-lo.
 Ainda est sentindo contraes?  indagou, enquanto seguiam para a biblioteca.
Ela fez que sim, mas no falou. Esforava-se para manter o passo normal, mas a certa altura teve uma hesitao momentnea. Quando chegaram  biblioteca, parou e voltou-se para ele. 
  Obrigada.
Era uma dispensa e ele sabia.
  No h de qu.
Em vez de ir embora, Sam a fez recuar para dentro da biblioteca e entrou tambm, fechando a porta.
  O que est fazendo?  questionou Josie.
 Vou ficar.  Ignorando o olhar ameaador dela, passou-lhe as peas de roupa e objetos que recolhera.  Trouxe sua camisola e outras coisas...
Ela pegou a sacola e tomou a direo do banheiro. Ao perceber que ele a seguia, voltou-se.
  No venha atrs de mim  avisou.  No.
Havia um tom de pnico na voz dela, por isso ele atendeu. Queria dizer-lhe para parar de agir como uma idiota, pois ele j a vira nua e, com certeza, no ia pular em cirna dela! Mas aquilo era ser racional e Josie estava alm da racionalidade.
Ela entrou no banheiro. Quando ela fechou a porta, postou-se do lado de fora. Podia ouvir os sons abafados da movimentao dela. De repente, silncio. Voc est bem?, quis perguntar. Mas conteve-se. Cinco minutos depois, que mais lhe pareceram cinco anos, ela abriu a porta.
Sem dizer nada, Sam a segurou pelo brao, e ela ficou tensa. Ele a conduziu para a cama e afastou a coberta para que ela se acomodasse.
 Pronto  concluiu ela, cruzando as mos sobre a dobra do lenol.  Satisfeito? Estou bem empacotada. Agora, boa noite.
Ele apagou o abajur. O quarto ficou escuro, a nica iluminao vinha do luar atravs das cortinas.
  Boa noite, Josie  retribuiu Sam, tranquilo. 
Ento, em vez de sair, cruzou o quarto e sentou-se n cadeira de balano.
Ela se sentou na cama.
  Sam!
Ele virou a cabea.
  O qu?
 O que pensa que est fazendo?
Ele experimentou balanar-se na cadeira, que rangeu.
 O que lhe parece?
 Voc no vai ficar!
 Tente me expulsar  desafiou ele.
 Voc sabe que eu no posso.  Josie golpeou o acolchoado de plumas.  Que maada, Sam Fletcher. Por que est fazendo isso?  Estava a ponto de chorar.
Ele se levantou.
 Oh, Josie, no chore...
Quase morrera ao ouvi-la chorar da ltima vez. E fora por causa de Kurt.
 Eu no estou chorando  declarou Josie.
Mas sua voz falhou e, por cima da coberta, ela pressionou a barriga.
Sam aproximou-se de novo da cama, sentou-se na beirada e tomou-lhe a mo. Ela tentou se desvencilhar, mas ele a manteve.
 No, Josie. Por favor...
A mo dela estava fria. To fria. Ele massageou-lhe os dedos. Ela parou de tentar se desvencilhar.
 No vou conseguir dormir se for embora  explicou Sam.  Vou ficar preocupado com voc.
 Eu ficarei bem.
 Eu espero que sim. Mas preciso ficar. Para ter certeza. 
Ela no respondeu, apenas emitiu um som de desnimo.
Ento, lembrou:
  E amanh? Tenho que preparar o caf da manh s seis.
 Eu cuido disso.
 Voc no pode preparar caf da manh para dezoito pessoas.
 Posso  afirmou Sam.  E sero dezenove. Vou trazer o seu caf na cama.  Sorriu-lhe na penumbra.
 No seja ridculo.
Ele continuava massageando as mos dela com o polegar.
 No se preocupe com nada, Josie. Vai dar tudo certo. Ns cuidaremos de tudo.
Josie desabafou:
 Eu no posso cuidar de nada! O mdico disse!
 Voc pode me dizer o que fazer  sugeriu Sam. Ento, sorriu.  Voc vai gostar.
Josie olhou-o por um instante, ento, suspirou e recostou-se nos travesseiros novamente.
Sob a palma da mo, Sam sentiu um leve tremor na barriga dela. Toda tensa, ela respirou fundo para suportar a dor.
  Isso foi uma contrao?  Nunca sentira uma, s tinha informaes acadmicas sobre o fato.
Acostumado a ter controle total sobre o corpo, no conseguia imaginar como era ficar sujeito a foras internas dessa natureza. Ficou imaginando se Josie se ressentia com esse fato. Ficou imaginando se ela estava ressentida com ele.
Como poderia no se ressentir?
Em uma noite, ele mudara sua vida, arruinara seu noivado, destrura sua liberdade. Ele a desejara, precisara de seu conforto, de seu toque, de seu amor. E, ao tomar tudo isso, sentenciara-a a uma existncia de lamentao.
Estava sentado, observando-a sob o luar, segurando-lhe a mo, sentindo a firmeza da barriga, e comeou a imaginar o que poderia fazer para acertar aquela situao, como poderia devolver a ela pelo menos parte da vida que perdera.


Josie no se lembrava de ter adormecido. Quando acordou, no estava em sua cama e levou algum tempo para reconhecer o ambiente e recordar por que estava ali.
Sentiu pnico ao ver que j era dia e que devia estar de p, preparando o caf. A esse pnico seguiu-se outro maior, ao lembrar-se de que deveria ficar deitada ou perderia o beb.
Lembrava-se de ter relaxado no meio da cama de casal, abraando um travesseiro. Era uma prtica que desenvolvera para dar apoio  barriga. Pelo menos, assegurava-se, essa era a teoria.
s vezes, sonhava que o travesseiro era Sam.
Introduziu a mo entre o travesseiro e o abdome e comeou a acariciar a barriga ampla. O beb se mexeu ao contato, mas nenhum msculo se contraiu.
Acariciou mais um pouco e aguardou, respirando bem de leve. Um minuto. Dois. Adormecera contando nmeros, lembrava-se disso agora. Ficara contando.
E segurando a mo de Sam.
Aps cinco minutos sem contraes, respirou mais fundo, sentiu a preocupao diminuir e ficou de lado. Avistou San cochilando na cadeira de balano.
Ele estava largado ali, a cala jeans amarrotada, a camisa por fora, a barba por fazer. Sobre a mesa prxima  cama havia uma bandeja com suco de laranja, panquecas, bacon e frutas.
  Oh, Sam.
No achava que tinha falado to alto, apenas balbuciado. Entretanto, Sam despertou, piscou os olhos e focalizou-a. Aprumou-se rpido.
  Como est se sentindo?
O tom preocupado e gentil deixou-a sem graa. Ela limpou a garganta, tentando parecer estar acordada e observando-o havia horas.
  Estou tima.
Ela recostou-se na cabeceira, puxando as cobertas. Precisava sair da cama e ir ao banheiro, mas no enquanto ele estivesse ali. Ele j vira o bastante quando ela desfilara de camisola.
Sam aproximou-se da cama apreensivo.
  No sentiu mais contraes?
Ela pressionou os lbios e balanou levemente a cabea.
  No.  Esboou um sorriso.  A crise passou.  Queria dizer que no precisava mais da ajuda dele e que ele poderia ir embora. 
Ele no se intimidou.
 Trouxe seu caf da manh antes. Achei que j estaria acordada quando eu voltasse da preparao do desjejum do pessoal. Acho que voc estava exausta.
 Acho que sim  admitiu Josie, baixinho. Estava to surpresa quanto ele por ter dormido tanto. Passava das dez horas. Endireitou-se.  Quem est na recepo? Os hspedes vo comear a sair.
  Benjamin est tomando conta. Ele chegou cedo e me ajudou com o caf tambm. Cletus vai chegar em uma hora. No se preocupe. Estamos tomando conta de tudo. Essas panquecas j esfriaram e o bacon j esteve melhor. Vou preparar outra bandeja.
Ela hesitou, pois no queria que ele a ajudasse mais.
 Posso me levantar agora  informou.  Se voc sair  acrescentou, oportunamente.
  Vou sair  declarou ele.  Mas volto logo.
  No precisa se apressar.
Ele no respondeu, apenas olhou para ela. Ela ergueu o queixo, tentando parecer auto-suficiente e poderosa. Mas era difcil, uma vez que estava de camisola, com os cabelos desgrenhados.
  Volto em cinco minutos  avisou Sam, e saiu. Josie foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e penteou os cabelos.
Fiel  palavra, Sam voltou trazendo ovos mexidos, torradas, frutas e suco, pousando a bandeja na mesma mesa prxima  cama.
  Obrigada  disse Josie. Esperou que ele sasse, mas ele no se manifestou.  Voc no precisa esperar.
  Precisamos conversar.
Ela pegou uma torrada e mordiscou-a.
  Sobre o qu?
  Sobre a noite passada.
  A noite passada j foi. Eu estou tima. Apenas me excedi um pouco ontem. No farei mais isso  prometeu Josie.
Recostado na estante, Sam parecia mais srio do que o normal, preocupado mesmo. Agitado, caminhou um pouco pela biblioteca, mos nos bolsos, cabea baixa. Ao chegar  lareira, lanou-lhe um olhar.
 Voc me disse outro dia que queria esse beb.
No era exatamente uma pergunta. Mais parecia umj desafio.
Josie ergueu o queixo.
 Isso mesmo.
 Ento, o que andou fazendo nos ltimos dias no foi muito inteligente, certo?
Ela sentiu o calor nas faces.
  Eu no sabia que estava me excedendo. Nunca fiz nada para prejudicar deliberadamente o meu filho.
 Nosso filho.
Josie remexeu o maxilar e desviou o olhar. No queria enfrentar Sam. No queria que ele percebesse que ela aindai nutria algum sentimento por ele. O que faria se o beb tivesse o mesmo olhar do pai?
 Nunca faria nada para machucar o beb  afirmou.  Deveria saber disso.
 Ento por que no faz o que  melhor para ele? 
Ela estreitou o olhar.
 O que isso significa? Ele se voltou e encarou-a.
 Case-se comigo.
 J conversamos sobre isso, Sam.
  E eu no aceitei a sua resposta ainda. Voc diz que quer esse filho, mas no est cuidando dele. Voc...
  Um momento!  Ela parou de saborear o desjejum com um barulho de pratos e talheres.  Como sabe o que eu fao ou deixo de fazer? Voc est aqui h quanto tempo? Uma semana?
 E j vi que voc trabalha sem folga.
 Eu precisava...
 Voc no precisa! Voc quer! Voc quer ser independente. Voc quer se livrar de mim. Voc quer tudo a seu modo. E ainda diz que est cuidando do beb? Que o ama? No me faa rir.
Josie nunca vira Sam zangado antes. Ela elevou os joelhos diante da barriga, como se eles pudessem oferecer uma proteo extra.
 Voc no sabe do que est falando.
  No? Acho que sei. Acho que voc precisa parar de agir como uma colegial tola e passar a se comportar como adulta.
Atnita, Josie olhou para ele fixamente.
 Colegial tola?  Como ele se atrevia?
 Pare de pensar s em si mesma e pense nos outros, para variar  disparou Sam.  No estamos mais falando sobre o que voc quer, mas sobre o que eu quero! Estamos falando sobre o que  melhor para o beb. Para o nosso filho! Seu e meu. O beb no pode tomar decises. Ns temos que fazer isso por ele. Ns dois. No s voc.
 Voc est tentando... mandar em mim, me intimidar... 
Sob o olhar raivoso de Sam, Josie abraou as prprias pernas, intimidada. No era justo, pensou. Nada daquilo era justo.
Ele foi sentar-se na cadeira a poucos passos da cama.
 Voc quer que o beb viva?  perguntou.
 Claro que sim.
 Ento, voc deve a ele uma chance. E tem que ir com calma para que isso acontea. O mdico disse isso. Ele disse que voc precisa descansar, precisa ficar calma. Comer bem. Dormir bastante. E no pode fazer isso bancando a gerente da pousada.
 No estou bancando a gerente da pousada!
 No vai dar uma chance justa ao beb se no diminuir o ritmo.
 Eu vou diminuir. Vou levar tudo com mais tranquilidade. Isso no significa que tenha que me casar com voc  defendeu-se Josie.
  Significa, se quiser manter o seu emprego. 
Ela o encarou.
 Vai me despedir?
 Sim! No!  Ele passou a mo pelos cabelos.  Raios! No sei! No, no vou despedi-la. Mas quero que tenha bom senso. Quero... quero que a criana tenha o meu nome.
Eles se olharam. Ento, ela disse baixinho:
  Por qu?
 Porque  meu filho! Quero que o meu filho leve o meu nome. No quero que lhe seja negado um direito de nascimento. Ele  um Fletcher, bolas!
Josie ficou olhando para ele, atnita com a veemncia, com a insistncia dele em querer um filho que no planejara.
  Ou ela  observou Josie, aps um momento.
  Ou ela  aceitou Sam.  O que for. Eu no me importo. No quero ficar de fora, s olhando...
  Como se soubesse muito sobre isso.
 No sei muito, tem razo  admitiu ele.  Pois, por um tempo, nem de fora fiquei. Mas voc acompanhou todo o desenvolvimento. Gostou de cuidar de tudo sozinha?
  Claro que no.
 Ento, por que acha que eu gosto dessa situao? E por que acha que o beb vai gostar?
 Nosso filho no vai gostar! Nosso filho no vai precisar passar pelo que eu passei! Esse beb vai ter uma me que o ama e que vai cuidar dele por todos os dias de sua vida!
Sam assentiu devagar.
 Otimo. Quero que essa criana conhea o amor do pai tambm.  Aps uma pausa, Sam declarou:  Se voc no quiser continuar casada, acabaremos com a farsa e pronto. Se voc se sentir muito incomodada com essa situao, poderemos nos divorciar depois que o beb nascer.
 Para que tudo isso?  exclamou Josie, o corao se despedaando. Casar-se com ele para se divorciar em seguida?
 Para dar a ele, ou ela, legitimidade. Vai provar a ele, ou ela, que me importo o bastante para garantir-lhe esse direito. E vai me dar o direito de ajudar na educao dele, ou dela.
 Eu no ia negar esse direito a voc.
 Ento no me negue a chance de ser marido e pai em nvel legal. Por favor.
Sam estava to prximo que Josie via o msculo de seu maxilar se contrair. Podia se lembrar de como era ter aquela barba por fazer roando em sua pele.
 Eu posso recompensar o seu transtorno  acrescentou ele, quando ela no se manifestou.
 Meu transtorno?
  Hattie devia ter deixado a pousada para voc, no para mim. Ela teria feito isso, se no quisesse que eu soubesse sobre o beb. Case-se comigo e providenciarei para que a pousada fique em seu nome.
Josie olhou para ele fixamente.
  como me casar por dinheiro. No vou me casar por dinheiro  afirmou.  Nunca me casarei por dinheiro!
Sam emitiu um som desesperado.
 Ento, case-se comigo por ser a atitude correta. Case-se comigo por amar o nosso filho.


Certa poca, Josie sonhara casar-se com Sam.
Quando era jovem, tola e inocente, quando ainda acreditava que tudo era possvel, nutrira aquele sonho. Acordada a noite, imaginava Sam Fletcher pedindo-a em casamento..
Vislumbrara-o sorrindo, acariciando-a, aguardando esperanoso sua resposta. E, quando ela dizia sim, imaginava os lbios dele cobrindo os seus.
Que imaginao frtil! A realidade no era assim.
 Pense nisso  aconselhara Sam, antes de sair do quarto. Josie pensou. Ele no lhe apresentara uma proposta de casamento, mas um contrato administrativo. Tratava-se da atitude sensata, lgica e apropriada a se tomar. Era o melhor para o filho de ambos.
De fato, no podia argumentar.
Queria. Tentava. Ficou na biblioteca debatendo consigo mesma. Pensou em cada hiptese, cada possibilidade de demonstrar que ele estava errado.
Mas ele no estava.
Finalmente, precisou admitir que casar-se com Sam, por causa do beb, era a atitude certa a tomar.


CAPTULO SETE


Cinco, dez ou quinze anos depois, quando a criana  perguntasse   sobre  o  casamento, Sam gostaria de poder contar a ele, ou ela, acrescentou, observando a preocupao de Josie, que tinham feito a coisa certa.
Claro, haviam discutido ao planejar o casamento:
  A sua me?!  exclamou Josie, ao ouvir os planos dele.  Quer que a sua me venha?  Ficou enrubescida e, depois, plida.
 Minha me espera estar presente em meu casamento  declarou Sam.  Bem como minha tia Caroline, minha tia Grace e meu tio Lloyd. Tem os meus primos tambm  acrescentou,  Darcy, Catherine e Alexis.
 Por que no convidamos a cidade toda, j que estamos nisso para valer?  questionou ela, bufando.
 Ora, voc pode convidar quem quiser  afirmou Sam, ignorando o sarcasmo.  Benjamim vai vir, claro. E Cletus, nem  preciso mencionar. Quem mais quer convidar?
Josie remexeu o maxilar e voltou o rosto para a janela.
 Ningum! No quero ningum! Por que est fazendo tanto estardalhao?
 Porque vamos nos casar.
Parecia-lhe certo. Apropriado. Importante. Como se fossem lamentar, caso no fizessem tudo aquilo.
 Grande casamento  desdenhou ela. Ele encolheu os ombros.
  o nico que temos.
Josie no parecia convencida, mas no discutiu mais. Apenas deu-lhe as costas e continuou montando arranjos de flores para os quartos. Essa atividade ela podia realizar, sentada junto ao balco, por isso Sam no a impedia. J estava bastante irritada por ele insistir para que ela ficasse na parte trrea da casa e no se esforasse o dia inteiro.
Sam sabia que ela s estava se casando porque seu bom senso dizia que devia agir assim. Sabia que ela no o amava. Raios, depois do que ele fizera, provavelmente ela jamais gostaria dele.
Ela apenas faria o melhor, assim como ele mesmo.
Sam fez com que Josie contratasse um bufe, uma florista, um msico, uma confeitaria. Queria uma festa. Flores. Msica. E queria um bolo de casamento!
Josie achou que ele estava maluco. No podia estar mesmo com a pretenso de fazer daquele casamento um grande acontecimento, podia?
Aparentemente, podia. E estava fazendo.
Poucas horas aps ela aceitar a proposta, j haviam iniciado todos os preparativos para o evento. Ao anoitecer, ela estava ainda mais impressionada com a capacidade de Sam de fazer o mundo se curvar a seus desejos. No sabia o que ele dissera  me, s tias e ao tio sobre a deciso repentina de se casar. S sabia que sua futura sogra chegaria na quarta-feira.
 Os demais chegaro na sexta-feira. E ns nos casamos no domingo  noite. Assim est bem?  indagou ele, como se a opinio de Josie importasse.
No!, quis gritar ela. No, no est nada bem.
Mas tomara a deciso de se casar com ele. Concordara com tudo aquilo. Ento, apenas assentiu.
Sentia-se desajeitada e idiota ao mesmo tempo. Tinha a impresso de que a gerente do bufe deduzira a verdadeira histria, aps tantas explicaes desencontradas. Parecia-lhe que, durante todo o tempo em que discutiram sobre cravos e margaridas, a florista balanara a cabea em reprovao. Mas respirou fundo e continuou cumprindo as tarefas que Sam delegara a ela.
Josie sabia que, embora se sentisse embaraada, Sam estava dando-lhe lembranas de vida.
Um dia, s teria as lembranas.
Tentou no pensar no assunto. Recuperou o equilbrio emocional e concordou em ocupar a biblioteca at o final da gravidez. Limitava-se a conversar com os hspedes agora, e no ficava mais correndo para cima e para baixo para atend-los.
 Est vendo?  provocou Sam, certa tarde, logo aps ela ter instrudo um grupo sobre as atraes locais.  At voc pode ser uma dondoca.
Josie contraiu os lbios.
Estava preocupada com o momento, cada vez mais prximo, em que conheceria a me de Sam.
Como poderia ficar frente a frente com a futura sogra e fingir que aquele casamento era igual aos outros?
 No  apenas mais um casamento  definira Sam, quando ela indagara sobre a questo.   o nosso casamento. Ela no vai esperar que voc tenha uma atitude de distanciamento.
  Ela vai me odiar  concluiu Josie.  Ela vai achar que eu preparei uma armadilha!
 Ela ficou um pouco surpresa  admitiu Sam.  Mas sabe tudo sobre paixo. Era apaixonada por meu pai.
 No  a mesma coisa!
 Mas ela no sabe disso.
A segurana dele pouco contribuiu para a diminuio dos temores de Josie, pois ela estava mesmo apaixonada por Sam. Ele apenas no sabia disso. E com certeza, ele no estava apaixonado por ela.
Ento, ela aguardou, apreensiva, que Sam trouxesse a me do aeroporto na quarta-feira. Imaginou se no seria melhor ir ao aeroporto tambm, para desfazer qualquer m impresso. No fim, preferiu ficar, pois alguns hspedes estavam chegando.
Iriam receber trs casais naquela tarde. Sam quis que ela lhes telefonasse ou providenciasse uma alternativa para eles, disposto a fechar a pousada naquela semana.
Mas Josie se recusara.
 Isto  um negcio  argumentou.  No pode fechar s porque vamos nos casar.
Ele protestou mais um pouco, mas acabou concordando.
 Est bem, faa como quiser. Vai ser sua pousada logo, logo.
No fora por isso que ela insistira, mas no esclareceu.
 Vou esperar pelos hspedes. 
Sam fora buscar a me sozinho.
Josie no sabia o que ele lhe contara. No a verdade, com certeza.
Se Sam houvesse contado a verdade, com certeza ela no chegaria com aquele sorriso largo e no teria sido to calorosa na apresentao. Josie tentou retribuir, mas sentia-se enorme, desajeitada e, o que era pior, falsa. A me de Sam devia estar sendo apresentada a uma mulher que amava seu filho. No a algum a quem Sam acabara ligado por acaso e por falta de sorte.
 Esta  Josie  anunciou Sam, e sorriu-lhe encorajador.  Esta  minha me, Amlia.
Josie nunca tivera problemas em conhecer novas pessoas. Era um de seus dons: fazer as pessoas se sentirem em casa. Mas, naquele momento, sentia-se sem palavras e inepta.
  Estou contente em conhecer voc, Josie  declarou Amlia, beijando-a no rosto. Ento, ainda segurando a mo da futura nora, voltou-se para Sam e sorriu.  Agora eu sei o que  uma Josephine Nolan e entendo por que Hattie a deixou para voc.
  Minha me soube do testamento antes de mim  explicou Sam.  E ficou curiosa.
"Aposto que sim", pensou Josie, querendo cada vez maiis desaparecer sob o assoalho. Pelo menos, ao dizer aquilo, Amlia manteve o olhar fixo no rosto dela, sem desvi-lo para a barriga. Sam comentara que a me era muito sutil. Josie acreditava nele.
 V ligar para a sua secretria ou aborrecer o funcionrio da alfndega  disparou Amlia.  Deixe-nos a ss para nos conhecermos melhor.  Ao v-lo hesitante, agitou a mo de maneira caracterstica.  V, v. Eu no vou mord-la. Prometo.
Josie esboou seu sorriso mais confiante.
 Ns ficaremos bem  assegurou-lhe, e rezou para que fosse verdade.
A verdade era que Amlia movia-se pelo mesmo dnamo que Sam. Ela parecia entender que Josie no possua formao para conversarem no mesmo nvel, mas no parecia se sentir desconfortvel com isso.
Reparou nas melhorias que Josie fizera na pousada, elogiando sua competncia. Ao v-la mais relaxada, abordou o tema dos preparativos do casamento.
Uma vez que contratara todos os servios pessoalmente, Josie pde descrever exatamente o que seria servido, como seria a decorao, que peas musicais seriam executadas e como seria o bolo. Achou que se sara muito bem.
Foi quando Amlia indagou:
 Posso ver o vestido?
 Ves... vestido?  gaguejou Josie, muito plida. 
Amlia pareceu ficar to desolada quanto Josie por um segundo. Mas logo sorriu, animada.
 Oh, voc se esqueceu do vestido...  Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo!
O quanto aquilo tudo era freudiano?, indagou Josie a si mesma.
Onde, na Terra, encontraria um vestido de noiva do tamanho de um elefante? A resposta era: no encontraria. Subconscientemente, devia ter j chegado a essa concluso, por isso nem sequer pensara no assunto.
  No preciso de nada especial  apressou-se em explicar.  Nada est entrando em mim. No sou uma noiva tpica.  Baixou o olhar para a barriga e sorriu triste para a me de Sam.
 Todas as noivas so especiais  sentenciou Amlia.  E todas merecem um vestido para essa ocasio.


Era o vestido mais lindo que Josie j vira.
E era seu.
Feito pela incrivelmente talentosa Amlia Fletcher, apesar dos poucos dias que tivera de prazo. Josie mal podia acreditar. Tinha que se beliscar toda a vez que olhava para a pea pendurada no guarda-roupa da biblioteca. Tinha que piscar sempre que se via nele refletida no espelho.
 Pronto  avisou Amlia, segurando alfinetes com os dentes, ajoelhada no cho.
Josie parecia espantada com a viso de si mesma numa criao to suntuosa.
 Acho que ficou maravilhoso  murmurou, maravilhada. Imaginara ganhar um vestido tipo saco de batata, ou camisola de hospital, mas Amlia tinha outras idias.
 Josie e eu fomos a uma loja de tecidos  informara Amlia ao filho.
Ele franziu o cenho.
 Josie precisa ficar em repouso.
 Ela vai ficar  assegurou a me.  Eu que farei todo o servio pesado.
Josie nem acreditara na ocasio. Acompanhara Amlia, divertida, enquanto ela especulava sobre metragens e preos.
 Usaremos um corte estilo imprio, acho  dizia Amlia.  Juntando o volume logo abaixo dos seios. Poderemos dar mais pano se for preciso. E gola alta. Mangas longas ou curtas? O que voc prefere?
 Hum...  hesitou Josie, que no pensara no assunto.
  Longas  decidiu Amlia.  A menos que no tenhamos tempo. Da, faremos sem mangas.
Na verdade, Josie s a acompanhara pelo passeio.
  Marfim ou branco?  indagara Amlia, segurando amostras junto ao rosto rosado de Josie.
  Marfim?  arriscou Josie. No se sentia virginal o suficiente para vestir branco.
 Marfim  concordou Amlia, rpido.  Voc sabe o que lhe cai bem.
E Amlia tambm. Sem falar em sua determinao, que transpunha qualquer dificuldade.
  Consegue mesmo fazer um vestido de noiva em trs dias?  perguntara Josie, quando chegaram  pousada com tecidos, rendas, zperes e botes.
 Bem, no vai ser um vestido de grife  avisou Amlia.  Mas vai servir, acho.
Estavam agora na manh de domingo e Josie olhava-se no espelho em seu vestido marfim, com corpete de cetim e mangas longas de renda.
 Est bem para voc?  perguntou Amlia. Josie s conseguiu sorrir e dizer:
 Oh, est lindo!


Sam no sabia por que estava to nervoso. Era apenas um casamento, afinal de contas. Josie e ele apenas faziam o que era preciso pelo filho que iam ter. Era importante, sim, mas no aterrador.
Ento, por que estava assim? Nervoso, trmulo?
Abriu as mos e verificou o tremor. Erguendo-as, mexeu no colarinho a fim de afroux-lo um pouco e respirar com mais facilidade. Usava gravata quase todo dia e nunca se sentira estrangulado.
Mas aquela gravata em particular... Aquela parecia estar apertando.
O violoncelista executava uma pea conhecida, mas cujo nome Sam no recordava. No era a msica com a qual Josie entraria, aquela ele conhecia bem. Mas no deixou de erguer o olhar para ver se ela j estava na escada.
Esperava que ela conseguisse descer sem dificuldade. Pesnoalmente, no sabia por que ela simplesmente no optara por sair da cozinha, juntando-se a ele na sala de estar, em frente  lareira, onde o pastor tambm j se encontrava.
 Ela precisa fazer uma entrada  insistira a me.  Vai descer a escada.
 O problema  que ela no deveria subir a escada  observara Sam.
 Ento, voc pode carreg-la at l.
Mulheres! Sam viu o brilho no olhar de Josie e acabou concordando. Pouco antes, carregara-a l para cima a fim de se vestir de noiva.
  Eu levo o vestido  prontificara-se Amlia.  Sam no deve v-la vestida de noiva at a hora do casamento.
Como se aquele fosse um casamento tradicional, pensou Sam, e limpou o suor das mos na lateral da cala preta.
Ento, o violoncelista parou de tocar. Benjamim apareceu no patamar, olhou para as pessoas presentes, parentes de Sam, amigos de Josie, os pais adotivos com quem ela morara at se mudar para a pousada, e depois para Sam. As conversas pararam e o ambiente caiu em silncio.
Benjamim fez um sinal de cabea para o msico.
O violoncelista virou a pgina para comear uma msica nova.
Parado junto  lareira, Sam observou Josie descendo a escada devagar, de brao dado com Benjamin, fazendo a entrada que Amlia vislumbrara.
Parecia um anjo descendo das alturas, comparou Sam.
Sentiu um n na garganta ao v-la. Era como um anjo e uma deusa terrena ao mesmo tempo, com sua forma de maternidade, coberta por um tecido marfim, os braos protegidos por uma fina renda, os seios disfarados pelo modelo. Tinha os cabelos negros presos e enfeitados com flores de laranjeira. O rubor em seu rosto destacava seus olhos escuros e brilhantes. Ela parecia radiante. Do jeito que uma noiva devia parecer.
Se ela sorrisse.
Queria que ela sorrisse.
Sam avanou antes que ela atingisse o nvel da sala e ofereceu-lhe o brao antes mesmo que ela largasse o de Benjamim. Ouviram-se comentrios divertidos, risadinhas.
Mas nem notou. No se importava. S tinha olhos para ela.
Lembrava-se da noite em que fora at o quarto dela. Lembrava-se de seu rosto coberto de lgrimas. Depois disso, tinha apenas vagas lembranas. Carcias. Mamilos. Mais carcias gentis e uma necessidade crescente. Mas aquilo bastava.
Lembrava-se dos beijos. Lembrava-se do sorriso. Sorria, implorou ele, em silncio. Sorria para mim.
 Caros irmos...  comeou o pastor.
Com o rabo do olho, Sam viu Josie empalidecer. Sentia seus dedos sobre a l fina do terno. Acariciou-lhe a mo com o polegar. Sentiu-a trmula e apertou-lhe a mo com firmeza.
 Voc, Samuel, aceita Josephine...
As palavras se sucediam, amor, alegria, honra, sustento. Riqueza. Pobreza. Sade. Doena. At que a morte os separe. Ento, o pastor olhou para ele e aguardou.
Sam respondeu:
 Aceito.
 Voc, Josephine, aceita Samuel...
Sam olhou para suas mos entrelaadas. Olhou para a barriga dela, que era o motivo de estarem ali. Ficou imaginando como ela interpretava as palavras do pastor.
 Aceito.
 As alianas  pediu o pastor.
Sam sobressaltou-se. Josie tambm. Olharam um para o outro. No havia dvida quanto ao motivo de sua agitao. O mesmo que o dele: Minha nossa, esqueci as alianas!
Lembrou-se de ter comentado com os hspedes sobre mandar alargar a aliana de Josie. Depois disso, no pensara mais no assunto.
Cletus cutucou-o com o cotovelo. Uma vez. Depois, de novo. Sam voltou-se para ver o que acontecia. O ancio passou-lhe uma aliana.
Sam ficou olhando para o objeto. Cletus arqueou as sobrancelhas de forma expressiva e pisou no p de Sam, para garantir que entendesse.
 Com esta aliana, eu tomo voc  entoou o pastor, e olhou para Sam.
Com mos trmulas, Sam conseguiu coloc-la no dedo de Josie.
Josie ergueu o olhar.
 E a aliana de Hattie. 
Ento, sorriu-lhe.


Era bom terem Benjamin, Cletus e Amlia, pensou Josie. Se ela e Sam fossem deixados  prpria sorte em relao ao casamento, no era preciso dizer o fiasco que teria sido.
Mas, com uma ajuda dos amigos, e dos parentes de Sam, o casamento foi perfeito. At uma aliana aparecera na hora "H".
Amlia pressionara uma aliana na mo de Josie pouco antes de o pastor olhar apreensivo para ela. Mais tarde, ficou sabendo que era a que Amlia dera ao pai de Sam, quando se casaram.
  Espero que no ache que eu esteja interferindo  comentou Amlia, durante a recepo.
Acabavam de saborear a refeio que o bufe preparara, frango Kiev tenro com aspargos e batatas assadas, e agora ouviam o brinde entusiasmado que o tio de Sam estava fazendo.
  Claro que no  afirmou Josie, sorrindo para a mulher que seria, pelo menos por algum tempo, sua sogra. Gostava muito de Amlia e desejava no perd-la quando perdesse Sam.
 Sam teria providenciado as alianas, de qualquer forma  assegurou Amlia.  Mas foi emocionante a maneira como surgiram durante a cerimnia. A menos que voc queira dar uma especial para ele?
  Na... no.  Josie balanou a cabea.  Essa est tima.
Seria uma coisa a menos para ele devolver quando a deixasse.
Ela mexeu no anel com diamante solitrio. Teria que devolver o anel de Hattie tambm.
Sentiu um n na garganta por j pensar no fim do casamento, quando tinham acabado de se casar. Piscou e desviou o olhar de Amlia, precisando de algum tempo para recompor o sorriso que devia manter no rosto durante a recepo. Foi quando sentiu uma contrao.
A pontada fez com que sorrisse menos.
Tivera poucas contraes desde a noite em que Sam a levara ao hospital. Aquela dor provavelmente no era mais significativa do que as outras. Mesmo assim, pousou discretamente a mo sobre o ventre.
 Voc est bem?  A voz de Sam veio por trs dela. Ela baixou a mo rpido e voltou-se para encar-lo com um sorriso brilhante.
 Estou.
Ele a encarou por algum tempo. Ento, olhou para a barriga, onde o filho deles crescia.
 Voc me diria, no , se no estivesse se sentindo bem?
 Claro.
  ...desejo a vocs muitos anos de casamento feliz  concluiu o tio de Sam, erguendo a taa de champanhe.
Sam, Amlia e os demais convidados saborearam a bebida. Josie tomou seu suco de uva e desejou que os votos do tio de Sam se concretizassem. Sentia-se como uma impostora, enganando a todos.
  Venham, queridos  anunciou Amlia.  Hora de cortar o bolo.
Josie sentiu outra contrao enquanto estavam cortando o bolo. Achava que no estava chamando a ateno com aquele problema. Sorriu para o amigo de Cletus, Ambrose, que tirava fotos do evento, fazendo pose com um pratinho de bolo. Estremeceu ao sentir os lbios de Sam em seus dedos. Sabia que ele no fizera de propsito. Era s que...
De novo. Dessa vez, a contrao atingiu-lhe as costas, intensa. Prendeu a respirao e deixou cair a garfada de bolo que oferecia a Sam.
 Vamos tentar mais uma vez  anunciou Ambrose, e acenou para que eles repetissem o gesto.
Sam balanou a cabea.
 Uma vez chega.  Pegou Josie pela mo.  Continuem com a festa  declarou aos convidados.  Vou levar noiva para a cama.
Josie ficou vermelha quando todos os convidados riram e fizeram brincadeiras.
 No podemos sair agora  sussurrou, baixinho.
  cama agora ou hospital mais tarde.  Ele a encarou  Faa a sua escolha.
Josie suspirou e tomou o rumo da biblioteca.
 A no.
Antes que Josie pudesse questionar, Sam a tomou nos braos e, abrindo caminho entre os convidados, tomou a direo da escada.
 Aonde vamos?  questionou ela.  O que voc est fazendo?
 Levando-a para a nossa lua-de-mel  informou Sam.
 Lua-de-mel?  espantou-se ela.
 A sute principal.  Sem esmorecer, ele subiu rapidamente at o segundo andar do casaro e s ento acrescentou:  Pareceu apropriado.
A sute principal era onde eles haviam feito amor. Onde o filho deles fora concebido.
Era o lugar perfeito para passarem a noite de npcias, se o casamento fosse por amor, se o casamento fosse verdadeiro!
Josie sentiu vontade de chorar. Uma vez diante da sute, tentou se desvencilhar dele.
 J chegamos. Pode me pr no cho. 
Ele hesitou e fitou-a detidamente.
Josie esperou que ele no lesse em seu rosto a dor que ela sentia no corao.
Tentou devolver o olhar dele, como se estivesse se sentindo calma e consciente da situao. Pareceu convencer, pois ele assentiu e colocou-a de p.
Josie entrou na sute com os olhos baixos, evitando olhar para a cama enorme. Sentou-se na cadeira de balano.
 Obrigada. Estou bem agora. Pode voltar l para baixo. 
Sam nem se mexeu.
  De jeito nenhum. Vou ficar aqui. Eu estava falando srio.
Josie ergueu o olhar, engoliu em seco e arregalou os olhos.
  Sobre o qu?
 Sobre lev-la para a cama.


CAPTULO OITO


No fora uma das idias mais brilhantes de Sam. Levar Josie para a sute principal e propor-lhe que passassem a noite juntos.
Na verdade, era uma idia bem estpida.
Talvez pudesse atribu-la  champanhe que seu tio Lloyd andara distribuindo como se fosse gua. Ou aos risinhos e rubores das tias solteiras. Ou s piscadelas e sinais de "positivo" de Benjamim e Cletus. Ou s lgrimas que sua me vertera ao felicit-los.
Ou talvez tivesse sido a prpria viso de Josie, sorrindo corajosa e permanecendo firme, mesmo quando ele via que ela estava a ponto de cair, enfraquecida.
Sentiu uma necessidade desesperada de tom-la nos braos e proteg-la, de peg-la e carreg-la consigo.
Ento, fez isso mesmo.
E assim que se viu no quarto com ela, assim que fechou a porta deixando para trs o barulho e a alegria, assim que viu as pernas longas de Josie sob o vestido de cetim marfim, suas faces ruborizadas e seu olhar misterioso, no quis mais deix-la.
Recostou-se contra a porta e rezou para que ela no o enxotasse dali.
Josie olhou para ele, ansiosa.
Viu-a engolir em seco.
 Vai me levar para a cama?  perguntou ela, cautelosa, aps alguns instantes.
  Por que no? Estamos casados  lembrou Sam.  No posso ir embora, posso? O que as pessoas iam pensar? O noivo no pode deixar a noiva dormindo sozinha na noite de npcias.
 No?  Josie pareceu avaliar a situao. Ento, encolheu os ombros e ergueu o olhar. Um leve sorriso adornava seus lbios.  , acho que no.
Sam respirou fundo.
Mas ento Josie se movimentou, levantando a saia mais um pouco, e ele voltou a ficar sem flego. Deu um passo na direo dela.
 Ento... uma vez que devo ficar, deixe-me ajud-la... a tirar o vestido.
Josie olhou para ele, piscou, e avaliou o vestido. Ficou rubra at o pescoo.
Sam comeou a se justificar:
 No  como se eu... nunca tivesse visto voc antes... sem...
 ... acho que no.
Josie estendeu os braos para ele.
Ele passou a lngua nos lbios secos, tomou-lhe as mos e ajudou-a a ficar de joelhos sobre a cama. A suas costas, desenganchou o fecho do vestido junto  nuca. Ao roar-lhe a pele delicada, sentiu o arrepio que tomava conta dela. Ele tambm se arrepiou. De desejo. De necessidade. Mas tinha que suprimi-lo.
Abriu o zper todo, expondo as costas de Josie. Ento, foi puxando o vestido por sobre seus ombros, expondo os braos. Estava to prximo dela que sentia seu perfume. Respirou e lembrou-se de como era mergulhar naquela massa de cabelos negros e sentir o aroma invadir os pulmes. Inclinou-se para absorver melhor.
Josie estremeceu e deu uma risadinha.
 Isso... faz ccegas.
  O qu?
 Voc... respirando perto de mim.
Ela se voltou e fitou-o. Sorria levemente, como se ela temesse sorrir de verdade, como se no soubesse se devia ousar.
Sam conseguira arrancar-lhe um sorriso ao colocar-lhe no dedo a aliana que fora da tia Hattie. Queria v-la sorrindo de novo. Inclinou a cabea e mordiscou-lhe a orelha.
  Sam!  Ela encolheu o pescoo e tentou se soltar.
Ele a pegou pela cintura e continuou provocando gentilmente. Ela se desvencilhou, riu e tombou na cama. Ele a acompanhou, trazendo-a mais para perto. Respirou fundo junto a seu pescoo e passou a beij-la.
Ela emitia sons que lhe ativavam os hormnios masculinos, por isso pressionou o corpo contra o dela. Ao segur-la pela cintura, sentiu um movimento. Uma contrao.
Josie ficou quieta. Ele tambm, mantendo a mo na regio onde acabara de sentir algo estranho. Finalmente, comearam a relaxar. Ela se soergueu e virou-se um pouco para ele, mas no se afastou completamente.
 Uma contrao  disse Sam. 
Josie assentiu.
Logo em seguida, Sam sentiu algo diferente sob a mo e franziu o cenho.
  O que foi isso?
 O beb.  Havia um toque de alegria na voz dela.
Sam engoliu em seco. O beb? O beb deles? O beb estava chutando? No sabia por que estava to atnito. Claro que sabia que os bebs se mexiam. Chutavam. Mas... chutavam o pai?
 Veja s  murmurou. 
Josie olhou-o sorridente.
  Surpreso? Ele assentiu.
 Eu nunca... no achava...  Sentia-se um idiota.  Nunca tinha pensado nisso antes. O beb... chuta com frequncia?
 Tem dia que ele fica chutando o tempo todo.  Ela encolheu os ombros de leve.  s vezes, s  noite.
 Como consegue dormir?  Ele pressionou a palma da mo contra a barriga e sentiu as batidas leves.
 As vezes, no consigo.
Ela contou como se fosse um fato. No uma lamentao. Nunca ouvira Josie se lamentando. Nem por ele t-la engravidado, nem por Hattie no lhe ter deixado a pousada, nem sobre nada.
Puxou-a para perto e beijou-lhe o ombro. A pele era to macia e lisa. Queria... queria... Gemeu e se afastou.
 Deixe-me ajud-la a tirar o vestido  sugeriu, mantendo o olhar distante.
No importava o que queria. No poderia ter. Desajeitada, Josie levantou-se da cama e Sam ajudou-a a despir o vestido. Tomou cuidado para que seus movimentos fossem funcionais. No tocou na pele macia nem uma vez, no passou a mo pelas costas at o bumbum. Tentou no tocar mais do que o necessrio. Tentou at parar de respirar. 
Josie com certeza fez a parte dela. Manteve-se de costas durante todo o tempo, vestiu o robe que ele oferecia e foi para o banheiro sem olhar para trs.
 Posso me arranjar sozinha agora  avisou. 
Sam tentou se convencer de que era melhor assim. Respirou fundo novamente, lembrando-se de que desejar Josie era um exerccio de frustrao. No poderia t-la. No deveria desej-la, portanto.
Improvisou uma cama no cho e deu-se por satisfeito... at Josie voltar do banheiro.
J na cama, debaixo das cobertas, ela declarou:
  Obrigada, Sam. Por tudo.
Nele, o desejo aflorou intenso mais uma vez.
 Voc no tem muito a agradecer a mim  replicou, rouco.
 Por hoje  especificou ela.
Sam fechou os olhos. Aquele dia ainda no se encerrara.


Fora, apesar de tudo, um dos momentos mais memorveis na vida de Josie. Diante do pastor, da me, de amigos e de parentes, trocara votos com ela. No dera nenhuma indicao de que a verdade era outra. Todos achavam que eles estavam na sute principal fazendo valer a noite de npcias nos braos um do outro.
Ningum sabia que o noivo estava dormindo no cho.
Josie ficou de lado para poder v-lo. Ele estava de costas, os braos sob a cabea. Sabia que ele no estava dormindo. Provavelmente, esperava que ela estivesse.
Viu-o flexionar os ombros, talvez tentando achar a posio mais confortvel.
 Sam?
  O que foi?  Ele se sentou no colchonete e olhou-a sob o luar.  As contraes pioraram?
Josie balanou a cabea.
 No. Pararam.  que... fiquei pensando se voc gostaria de dividir a cama.
 O qu?
Ela se intimidou com a aspereza na voz dele.
 Esquea.
Josie acomodou-se sob as cobertas, de costas para Sam. Ouviu-o levantar-se e achou que ele ia embora. Ento, sentiu a mo forte sobre o ombro. O toque era to leve que, por um segundo, pensou que estivesse imaginando a cena. Ento, ele pressionou mais um pouco, e ela se voltou para ele.
 Voc quer...?
Ele deixou a frase morrer. 
 Eu disse para esquecer  repetiu Josie.
E ficou de costas para ele outra vez. No instante seguinte, sentiu que ele afastava as cobertas e se alojava na cama. No ocupou s um lado, mas estendeu, o corpo junto ao seu e envolveu-a com os braos.
Como amantes.
Josie ficou contente... e triste ao mesmo tempo. Aquilo significava que o desejo dele no era algo pontual.
Mas a satisfao do desejo podia ser.
 Eu no posso...  sussurrou, angustiada. - O mdico disse...
 Eu sei.  Ele entrelaou seus dedos. A voz saiu rouca, entrecortada.  Eu sei.
 Eu posso... poderia... se voc quiser... se voc precisar...  A voz dela sumiu.
Josie sentiu calor no rosto. No sabia como dizer que faria qualquer coisa que ele quisesse.
 Est tudo bem. Durma.
Ela olhou para Sam interrogativa.
 Tem certeza?
 Tenho.


Sam tinha certeza de que ia morrer de frustrao.
Tinha certeza de que sofria de um caso terminal de excitao sexual e que a exposio a Josie Nolan, ou melhor, Josie Fletcher, s agravava o quadro.
Deveria ficar longe dela!
No podia fazer isso.
Mesmo aps os parentes terem partido e a me estar a caminho de Nova York, no poderia voltar para o prprio quarto e deix-la sozinha na biblioteca.
Tentara se convencer de que era porque ficaria longe demais, caso ela precisasse de alguma coisa durante a noite. Se ela comeasse a ter contraes de verdade, ele precisaria estar l. Convenceu-se de que era porque os hspedes poderiam achar estranho ele ocupar um quarto enquanto sua esposa permanecia na biblioteca. Recm-casados no dormiam em andares diferentes.
Convenceu-se de que seria bom passar as noites com Josie. Seria um modo de expurgar seus pecados.
Alm disso, perversamente, adoraria cada minuto do castigo.
Mantinha-se perto dela durante o dia tambm. Permanecia no escritrio apenas pelo tempo necessrio para resolver problemas que surgiam em seu escritrio em Nova York. Mas, assim que podia, levava o telefone sem fio e a papelada para o andar trreo, a fim de "ficar de olho" em Josie.
Os motivos eram os mesmos, claro. Como ela queria se livrar dele se precisava de sua ajuda?
  Compre um pager  sugerira Benjamim.
 No  respondera Sam.
E ponto final. Alm disso, ele precisava ter certeza de que Josie no faria muito esforo. Ela era bem capaz de achar que podia fazer tudo o que fazia antes de ficar grvida. Ela ainda tentava fazer toda a limpeza do andar trreo. E teria tentado fazer todo o resto, inclusive a lavanderia, se ele no houvesse insistido em contratar duas estudantes para arrumar os cmodos e lavar a roupa todos os dias.
  Como vou saber se esto trabalhando direito?  reclamou Josie, no primeiro dia.  No posso nem supervisionar o servio.
  Eu vou cuidar para que elas faam tudo direitinho.
 Como vou saber se voc sabe o que  um bom servio? 
Ele a olhou de cima.
 Posso dizer o que  um bom servio, pois sou o segundo no comando.
Josie revirou os olhos.
  Era exatamente o que eu temia.
  Conheceu a minha me. Voc acha que ela admitia algo menos do que padro hospital para os lenis?
  Bem, est certo.  Josie desistiu.  Mas precisa verificar debaixo das camas tambm. Nada de poeira por ali. E certifique-se de que as toalhas fiquem retas e que todo o quarto tenha um arranjo de flores novo todo dia. Dois sabonetes. Uma loo. Um xampu. Um lustrador de sapatos...
Sam mostrou-lhe a lista de checagem.
Ento, quando ele j ia sair da sala, ela o chamou.
 E quanto ao seu trabalho? Como arranja tempo para fazer o meu? Voc com certeza tem muita coisa para fazer.
 Estou me virando.
 Posso ajudar?
Ele hesitou. Mas ela parecia to esperanosa, to ansiosa, que ele encolheu os ombros.
 Talvez.
Logo estabeleceram um esquema de trabalho e Josie mostrou-se muito interessada e capaz. Sam desejou poder mostrar a ela as aldeias e artesos cujos trabalhos comercializava. Mas sabia que no podia, pois nunca a levaria a lugar algum.
O casamento deles duraria meses, no anos. Era um casamento de convenincia, no de amor. Ele daria um nome  criana. Daria apoio moral e financeiro a Josie.
No lhe daria o amanh.


Era s uma questo de tempo, Josie sabia. Tinha semanas com Sam. Meses, talvez. E era tudo. Sabia disso.
S gostaria que seu corao tambm entendesse.
Era fcil racionalizar, dizer a si mesma que o casamento deles no era de verdade, que acabaria em poucos meses, ou semanas. Que chegaria o dia em que Sam seria o pai do beb, mas no seu marido. Era at fcil acreditar. Mas no era fcil aceitar com o corao.
Se ele no se importava com ela, por que ficara to perturbado ao encontr-la na cozinha tomando o desjejum com Kurt naquela manh?
Ele estacara  porta, a saudao normalmente alegre entalada na garganta, ao mesmo tempo que olhava para Kurt com uma carranca.
 O que voc est fazendo aqui?  questionara, raivoso. Josie, que ainda se divertia com mais uma histria atrapalhada de um dos paroquianos de Kurt, olhara-o interrogativa.
 Ele s est de passagem  explicou.
  Vim pedir para Josie datilografar algumas pginas para mim  detalhou Kurt, sempre honesto e, ao que parecia, imune  tenso no ambiente.
  Ela no pode. 
Kurt olhara-o curioso.
 Mas... ela acabou de dizer que pode.
 Ela no pode mais.
 Mas...
Sam apontou para o manuscrito sobre a mesa  frente de Josie.
 Devolva a papelada  avisou.
 No vai me ocupar muito  protestou ela.
No estava ansiosa para datilografar, mas fazia um ms que no via o ex-noivo, desde a ltima vez que lhe datilo-grafara algo. Comeara at a pensar que passava bem sem ele, mas havia algo no tom de Sam que a deixou com vontade de desafi-lo.
Ou de entend-lo.
Ele estava com cime? Claro que no. Mas ento...
 Devolva  repetiu Sam, cerrando os dentes. 
Ela recolheu os papis e devolveu-os a Kurt.
 Desculpe-me  murmurou.  Acho que no terei tempo desta vez.
Kurt olhou para os dois, intrigado com aquela relao.
 Mas voc s est descansando  comentou, confuso.
No era a coisa certa para se dizer.
Sam j estava no meio da cozinha antes que Josie conseguisse sair da cadeira. Ela conseguiu, precariamente, ficar entre ele e o ainda atnito Kurt.
  Sam deve estar precisando de mim  comentou, esperando que o ex-noivo fosse embora.  Sabe, como eu lhe disse, ando ajudando com os telefonemas e faxes.
  Sim, mas...
  E a sua visita foi tima, mas precisamos pegar no batente.
 Mas acabei de chegar  protestou Kurt.
 S que estamos ocupados  finalizou Josie, categrica. 
Lanou-lhe um olhar suplicante.
Se valoriza sua vida, v embora j. 
Finalmente, ele pareceu entender.
  Est bem, no vou mais atrapalhar.
 No se esquea dos manuscritos  avisou Josie.
 No, no se esquea  reforou Sam.
Kurt olhou para os dois e, ento, sorriu esperanoso para Josie.
 Volto outra hora.
 Claro.  Ela abriu a porta e praticamente empurrou-o para fora.
Sam ameaou:
 Se eu fosse voc, manteria distncia.


Sam saiu nervoso e foi at a beira da encosta apreciar a cidade. No sabia o que o levara a quase agredir Kurt. Claro que entre eles no havia mais nada alm de amizade, aps o rompimento do noivado. Provavelmente, a frustrao o impelira a avanar sobre Kurt Masters.
Frustrao sexual.
Precisava de uma mulher.
E tinha uma mulher.
Alis, tinha uma esposa.
Talvez esse fosse o problema.


CAPTULO NOVE


Aquela era a ltima pessoa que Sam esperava atender ao telefone.
  Sam?  ouviu, incrdulo. Risadinhas.  E voc?
 Izzy?
Outra risadinha.
 Cest moi. Como vai? Ando ensaiando falar com voc h uma semana! A, tomei coragem e liguei para a sua me.  Pausa dramtica.  Ela me disse que voc estava em Dubuque.
Seguiu-se uma pausa. Um segundo. Dois. Trs. Sam quase podia sentir a vibrao atravs da linha, mas sabia que Izzy iria esperar para sempre antes de dizer qualquer coisa.
Superado o susto, agora estava contente com o telefonema da ex-noiva. No a vira mais aps o rompimento e temera sofrer uma recada sentimental ao primeiro contato, mas descobria, aliviado, que no estava mais ressentido. Era como nunca houvesse sido apaixonado por Izzy.
Ento, adiantou-se:
  Eu me casei.
 Foi o que ela me disse! Que maravilha! Oh, estou to feliz por voc!
Sem dvida, devia estar. Conhecendo Izzy, apostava como ela acreditava que era coisa do destino, que ele e Josie tinham se apaixonado, da mesma forma que ela e Finn.
 Finn no acreditou quando contei  continuou Izzy, alegre.  At que contei sobre o be... Oops! Quero dizer, bem...  Seguiu-se uma pausa de constrangimento.  Oh, Sam, sempre falo a coisa errada! No quis insinuar...
  Eu sei.  Sam sabia que a ex-noiva no falara por mal. De qualquer forma, no queria que as pessoas falassem por a que ele s se casara com Josie por causa do beb... ainda que fosse verdade.  E agora Finn acredita?
  Sim. Quero dizer,  verdade? Voc vai ser...
  verdade.
Houve um momento de silncio. Ento, Izzy comentou:
 Voc trabalha rpido.
 Basta uma vez  declarou Sam, e ento arrependeu-se. No interessava a ningum quantas vezes ele levara Josie para a cama!  Ento, o que h?
  Bem, quero pedir um favor.  quase nada... e voc estando em Dubuque...
Era mesmo Izzy, falando de modo que as pessoas preenchessem as lacunas.
  Quase nada?  repetiu Sam, receoso.  Que favor? E o que tem a ver com Dubuque?
 Finn est procurando uma pousada.
Sam sabia que o marido de Izzy era fotgrafo profissional. Para que estaria procurando uma pousada?
 Finn quer comprar uma pousada?
  Claro que no  replicou Izzy, condescendente.  Ele precisa fazer umas fotos para um catlogo de moda, para a prxima coleo primavera-vero, num cenrio diferente, ao ar livre, em meio  natureza... Um cenrio de interior, urbano, mas meio campestre, entende? Algo rstico, porm charmoso...
  E onde entra a minha pousada nessa histria?
  Aps muita discusso, conclumos que uma pousada de cidade pequena seria o cenrio perfeito!  explicou Izzy.   Foi quando me lembrei de que sua tia Hattie tinha uma hospedaria em Dubuque, Iowa..
 A pousada  minha agora  informou Sam.
  Certo. Lamento pela sua tia.
  Obrigado. Na verdade, a pousada  de Josie.
 De sua esposa?
Sam ainda no estava acostumado com o termo e hesitou por um segundo.
 E, ela mesma.
 Bem, voc acha que Josie pode nos hospedar por uma semana? Podemos alugar a pousada toda e citar o local nos crditos do catlogo. Seria uma boa promoo. Colocaria Dubuque no mapa.
 No sei. Voc me pegou de surpresa...  Quanto mais Sam pensava no assunto, mais gostava.  Seria bom para Josie  considerou.  Ela se distrairia um pouco. Ainda falta um ms para dar  luz...
A ex-noiva preocupou-se.
 Sam, ter a pousada cheia de hspedes no  nada fcil. Talvez seja melhor procurarmos outro estabelecimento...
 Fica mais fcil se forem as mesmas pessoas por uma semana  concluiu Sam.  E ela no vai fechar o lugar.
 Tem certeza de que ela no vai se exceder com tanta movimentao?  questionou Izzy.  Sabe como so essas sesses de fotos, com tantos tcnicos e modelos andando para l e para c...
  Eu cuidarei para que ela no se exceda  garantiu Sam.
  Se voc diz. Pea a ela que reserve dez cmodos, por favor  pediu Izzy.  Deve dar para toda a equipe.
Sam j estava adorando a idia.
 Como voc disse, vai ser bom para o negcio. Vai colocar Dubuque no mapa.
 E vai ser bom quando quiser vender a pousada.
 O qu?
 Imagino que voc e Josie vo vender a hospedaria, no? Ou pretendem ficar morando em Dubuque? 
Sam bateu a cabea de leve contra o batente.
 No. Claro que no.
Ele no ia ficar. Mas Josie, sim. Fechou os olhos. Era melhor abreviar a conversa:
 Quando planejam chegar aqui?
  No domingo. 
Sam assustou-se.
 Voc diz daqui a dois dias?
  Isso mesmo. Teramos que ir a Newport mais uma vez, se no consegussemos a pousada. Mas assim  to melhor! Muito mais divertido. Eu vou visitar voc, vou conhecer a sua esposa, e...
  Epa, espere um pouco. O que quer dizer com "eu"? Voc vai vir tambm?
  Claro! E as meninas tambm.  Ela falava das sobrinhas gmeas do marido, Pansy e Tansy.  Achamos que seria bom tirarmos umas feriazinhas. Todos juntos.
  Izzy, no sei...
  Oh, vai ser timo  garantiu ela.  Prometo. Estou to ansiosa em conhecer a sua esposa.
  Tenho certeza de que ela tambm est ansiosa para conhecer voc  retrucou ele.
 At domingo, ento, Sam.
  At domingo, Izzy.


Josie afastou as lgrimas que teimavam em brotar desde que Sam contara-lhe as novidades.
Boas novas, dissera. Boas novas?
Ela devia saber.
A ex-noiva dele, Isobel Rule, ou Izzy, pretendia passar uma curta temporada na pousada. Frias, dissera ela. E ele ainda no a esquecera.
Estava magoada. Ou melhor, devastada. Por outro lado, sentia-se tambm furiosa.
Como ele se atrevia a hospedar a mulher que amava, e perdera, debaixo do mesmo teto que ela! Esperava pular a cerca bem debaixo do nariz do marido dela e da prpria esposa?
Provavelmente. Podia imaginar o quanto Izzy pareceria tentadora, comparada  esposa grvida.
Josi limpou as lgrimas que escorriam pelo rosto. Horrvel Sam Fletcher!
Muito bem, timo. Se era assim que ele queria, ento, assim seria. Ela o deixaria livre. Nada a faria sair da biblioteca. Seria como o mdico dissera: repouso absoluto.
Uma semana! Izzy e o marido fotgrafo passariam uma semana inteira ali, realizando um trabalho de moda. Sam at ousara dizer que achara que ela ficaria contente.
Pois ela comentara friamente:
 Que bom.  E fechara a porta na cara dele, trancando-a. Quando voltou l,  noite, Sam teve que bater e no simplesmente entrar.
Josie nem queria deix-lo entrar. No queria que ele visse seus olhos avermelhados, o rosto cheio de lgrimas. Mas acabou abrindo a porta, sem acender a luz, e voltou logo para a cama.
 Se no os quer aqui, eu os dispenso  comentou Sam, vendo-a to contrariada.
E provavelmente iria com eles. No poderia permitir isso. Alm do mais, no queria que ele pensasse que ela estava com cime, no queria que ele soubesse o quanto se importava.
 Est tudo bem  declarou, na cama, fitando a parede. Sam recostou-se a seu lado e abraou-a gentilmente.
 Voc est bem?
Josie engoliu em seco e assentiu, embora no confiasse mais nele.
Assentiu embora no estivesse bem. Embora nada estivesse bem.


Josie imaginara Isobel Rule como uma moa alta e magra, com rosto de Audrey Hepburn e sorriso de Mona Lisa.
Teve dificuldade em adequar a imagem  realidade. A moa era baixa, mas tinha um rosto meigo, ainda que comum, um corpo bem feito, e era muito simptica e calorosa. J chegou lanando os braos ao redor de Sam. Em seguida, abraou-a da mesma forma calorosamente.
 Ento, voc  a sortuda  comentou, sem solt-la.  Eu sou Izzy. Estou to contente em conhec-la!
Izzy.
Perceber que Izzy no era nenhuma femme fatale no ajudou em nada, pois ela era obviamente maravilhosa, mesmo assim.
Izzy era engraada, atenciosa e gentil. Com seu charme, cativava a todos, tcnicos, cabeleireiros, estilistas e modelos. Era muito cuidadosa com as sobrinhas e estava visivelmente apaixonada pelo marido. E parecia gostar sinceramente de Sam.
Parecia at querer ficar amiga dela!
 Venha se sentar aqui  convidou Izzy, quando Josie apareceu na varanda na tarde de domingo.
 No posso  declarou Josie, e recuou.  Tenho um trabalho a fazer.
 Nada de trabalho  cortou ela, e deu palmadinhas na vaga a seu lado.  Sam me contou que o mdico lhe recomendou repouso. Ele me pediu que a distrasse do trabalho.  Indicou o ptio ao lado, onde suas sobrinhas brincavam.  E para isso que estamos aqui. Para divertir voc.
Tmida e constrangida, Josie hesitava.
 Mas  que...
  Sente-se  ordenou Izzy.  Sam mandou  acrescentou, como se ela no pudesse desobedecer a ele.
 Sam no manda na minha vida  resmungou Josie. Mas largou a porta telada e foi sentar-se.
Izzy deslocou-se um pouco para dar mais espao a Josie.
 Claro que no  apaziguou.  Ele s est preocupado com voc e com o beb.
 Errado. Ele est preocupado s com o filho dele. 
Izzy espantou-se.
 Sam? No, no  possvel.  lgico que ele se preocupa com voc tambm...
  Se assim fosse, ele no me atormentaria tanto. 
Izzy refletiu um pouco, tentando entender.
  Gostaria de conversar a respeito?
Josie olhou para o ptio, onde brincavam ruidosamente as duas gmeas ruivinhas. Finn e Sam faziam-lhes companhia.
 No consigo imaginar Sam atormentando ningum  declarou Izzy.  Ele  to doce...
Entre gritos e risos, Finn e Sam colocaram as meninas nos ombros, brincando de cavalinho. Uma segurava-se nos cabelos de Finn, enquanto a outra optara pelas orelhas de Sam.
No, Sam no parecia um tormento, pensou Josie, engolindo em seco, tentando desfazer o n entalado em sua garganta.
Ele parecia pai.


  Gosto da sua esposa  comentou Izzy com Sam,  noite, aps o jantar.
Estavam no balano da varanda,  luz fraca. Finn estava trabalhando no catlogo. As modelos tinham ido se divertir no cassino. As gmeas j estavam dormindo. Josie tambm se recolhera cedo.
Atravs da janela que dava na varanda, podia-se ver a porta da biblioteca. Fechada.
Sam olhou para as prprias mos.
  Eu tambm gosto dela.
 Claro que gosta  afirmou Izzy, risonha.  Voc se casou com ela.
Ele nem esboou um sorriso.
Izzy comeou a movimentar o balano em que estavam.
  Foi por isso que eu quis vir.
Franzindo o cenho, Sam voltou-se para encar-la.
  Por isso o qu?
A ex-noiva olhou-o carinhosa.
  Quero que saiba que me doeu muito romper nosso noivado, apesar de j estar apaixonada por Finn, ento. Sei o quanto voc sofreu e rezei muito para que encontrasse logo um novo amor. Ento, quando sua me me contou que voc havia se casado, quase morri de alegria.  Apertou-lhe a mo.  Mas eu precisava ter certeza de que voc estava feliz  observou.  Agora, vejo que est. 
Ele a encarou mais uma vez.
  Como pode saber?
  S precisei olhar para voc.
Ele parecia feliz? Sam estava espantado.
  Voc est nervoso  observou Izzy.  Isso tudo  novo para voc.  Deu-lhe um tapinha camarada no joelho.  No fim... tudo deu certo, no ? Eu me casei com Finn e voc, com Josie.
  No sei se a chamaria de "minha" Josie.
  Claro que ela ...
No parecia haver dvida para Izzy. Mas, afinal, o mundo para ela era sempre ou preto, ou branco. Nele no existiam tons de cinza.
De repente, Sam percebeu que no devia estar ali conversando com a ex-noiva. A nica pessoa com quem gostaria de estar era Josie.
  Estou muito cansado  comentou, espreguiando-se.  Acho que vou entrar. 
Izzy observou-o e sorriu.
  Faa isso.
Finn saiu  varanda. Devia ter concludo o trabalho por aquele dia.
 Daqui, a pouco, tambm vou me recolher  comentou Izzy, o olhar brilhando, pois vira o marido.


Josie imaginou se Sam preferia estar na cama com Izzy.
Ele voltara mais quieto e muito mais cedo do que ela esperara. Antes de ele chegar, deitada no escuro, reconhecera o quanto a ex-noiva de Sam era adorvel e tentara, em vo, descobrir-lhe algum defeito que justificasse uma antipatia.
Ento, Sam chegara e fora direto ao banheiro. Ouviu a gua correndo, ouviu-o escovando os dentes. Ento, ele voltou ao quarto e instalou-se na cama.
Josie no se mexeu. Ficou bem quietinha, mal respirava. Esperava que ele se virasse para o outro lado e dormisse.
Mas ele no fez isso. Ao contrrio, virou-se para ela, abraou-a e encaixou-se junto a suas costas, como nas noite anteriores.
Ele comeou a lhe acariciar a barriga, sempre ali juntinho e ela sentiu o calor do corpo dele se transferindo ao seu. Permaneceu tensa por mais algum tempo, resistiu... mas acabou desistindo.
Gostava daquela situao. Queria Sam.
Uma lgrima rolou at o travesseiro. Josie fechou os olhos  e desejou que mais nenhuma brotasse.
Acordou com uma dor fraca e contnua nas costas.
Virou-se e tocou em Sam. Ele no acordou. A dor persistia, intensificando-se a cada instante. No tero, o beb se mexeu, ou melhor, se contorceu. Mudou de posio novamente para, quem sabe, dar mais espao ao beb.
No adiantou.
Movimentou-se mais uma vez.
Sam acordou.                                                                 ;:
 O que foi?  a voz dele saiu suave, mas preocupada. Josie adorava ouvi-lo logo cedo. Adorava olhar para ele tambm. Por um instante, parecia-lhe desprevenido e vulnervel, fazendo-a desejar que fosse assim todo o tempo. Mas logo ele se lembrava de quem era, e de quem ela era, e a parede entre eles voltava a se instalar. Ela mordeu o lbio inferior.
 Acho que estou entrando em trabalho de parto.


Sam quase desmaiou.
Da ltima vez, portara-se bem. Conduzira-a ao hospital, mostrara-se um bastio de fora e confiana.
Mas ao ouvir de Josie que chegara realmente sua hora de ser pai, apavorara-se. Respirou fundo. Mais uma vez. E outra.
Josie olhava-o curiosa.
Sentindo-se idiota, Sam ergueu o tronco e se recostou sentado.
  Desculpe-me  murmurou.  E que...  que...  Olhou-a apreensivo.  Chegou a hora?
Ela engoliu em seco e assentiu.
 Parece que sim.
Para Josie, devia ser um alvio, imaginou Sam. Em breve, recuperaria seu corpinho de garota. Ele, entretanto, ia ser pai! No num futuro incerto. Mas dali a pouco. Imediatamente.
Em questo de horas!
 Certo.  Ele se levantou e vestiu a cala jeans, agitado, trpego, quase caindo sobre a roupa. As mos tremiam-lhe.  No estou preparado  resmungava.  No devamos ter feito um curso de controle de respirao, ou algo assim?
 Eu fiz  comentou Josie.  Antes de voc vir para Dubuque.
Sam fechou o zper.
 Otimo. Ento um de ns sabe o que est fazendo. Voc pode me conduzir.
Josie sorriu.
Sam ainda no percebera o quanto precisava daquele sorriso. No percebera o quanto a amava, at aquele momento.
Amava?
Sim, amava.
No era o amor arrebatador que sentira por Izzy e que esperara voltar a sentir por outra mulher algum dia. No obstante, era mais profundo e mais forte do que tudo.
Era um amor nascido no de um momento, mas de centenas, milhares, de pequenas lembranas. Lembrava-se de cada um deles: Josie adolescente, Josie j moa, dcil e solcita. Josie nadando. Josie limpando. Rindo. Tocando.
Josie amando.
Amando a ele.
Desejava lembrar-se sempre desses instantes. Queria reviver as sensaes. Vezes sem conta.
Sam dissipou as lembranas e concentrou-se em Josie, que o olhava serena e tranquila, apesar das contraes sentia. Quis contar a ela. Quis contar tudo a ela. Quis dize eu te amo.
Ficou com medo.
Tinha medo de que ela no quisesse ouvi-lo. No foi aquilo que prometera quando a pedira em casamento. Aquilo nunca fizera parte da barganha.
Ento, ele manteve a boca fechada e estendeu a m para ajud-la.
 Vamos. Vamos dar  luz essa criana.


CAPTULO DEZ


Sempre se podia contar com Sam.
Josie sabia disso. E no se decepcionou.
Todas aquelas histrias sobre homens desmaiando quando suas esposas entravam em trabalho de parto pareciam absurdas quando se tinha Sam. Ele era calmo, organizado, responsvel. Exatamente como ela imaginara que ele seria.
Aps preparar a bolsa com itens bsicos para a maternidade, ele chamou Benjamim e Cletus e encarregou-os de preparar e servir o caf da manh para a equipe de produo hospedada. A seguir, foi acordar Izzy e Finn. A ex-noiva vestiu-se rapidamente e desceu querendo ajudar.
  Tome conta de tudo  pediu Sam, e saiu com Josie. Enquanto Josie era acomodada numa cadeira de rodas e levada ao andar da obstetrcia, Sam recebia uma ficha para preencher. Ele rabiscou os dados s pressas e tomou o elevador apressado, mas foi barrado  entrada da sala de parto.
  O senhor no fez aulas de pr-natal  declarou uma enfermeira carrancuda.   um pr-requisito.
 As necessidades de minha esposa so meu pr-requisito  replicou Sam, spero, e olhou para Josie dentro da sala.  Voc quer que eu fique?
Josie sabia que ele no se referia  vida toda, mas apenas quele momento. Assentiu.
  Quero.
Foi como fazer os votos novamente.
Aps um instante de encantamento, Sam recuperou a lucidez e a iniciativa:
 Deixe-me passar  declarou  enfermeira.
Josie sabia que ele foraria a passagem, se a mulher relutasse.


Ter um filho era algo normal, natural. Sam sabia disso.
Sabia que Josie estava vivendo um momento pelo qual milhes de mulheres j tinham passado antes dela. Sabia que ela era forte e saudvel e que o suor em seu rosto e a tenso em cada msculo de seu corpo no eram motivo de preocupao.
De qualquer forma, estava preocupado. No podia evitar. E no podia deixar de imaginar que aquilo tudo era culpa sua.
Enxugou a testa de Josie com uma toalha umedecida. Massageou-lhe as costas e os ombros. Comeou a respirar fundo, devagar, compassadamente, do jeito que ela dissera ter aprendido em um curso para gestantes. Era o mnimo que podia fazer.
Queria dizer desculpe-me. Desculpe-me.
Aqueles que diziam que a mulher era o sexo fraco nunca haviam presenciado um parto. Sam estava atnito ante tanta resistncia. E fora. Cogitou se seria to tolerante quanto Josie ante os estmulos involuntrios. Claro que ela no tinha escolha.
A graa com que ela se entregava ao processo causava-lhe um respeito que s aumentava o amor que sentia.
Ela era mais forte e mais corajosa do que ele. Convenceu-se de que a pouparia, se pudesse. Ao mesmo tempo, imaginou se seria correto.
Se a poupasse daquela experincia, no estaria partilhando com ela. No estaria encantado com ela, no estaria descobrindo o quanto seu amor era profundo.
No sentiria a satisfao de receber um olhar suplicante dela quando, o mdico disse:
 Muito bem. Vamos dar  luz esse beb.
No sentiria o esforo em sua mo quando o mdico a mandou empurrar.
No a ouviria exclamar:
 Veja, Sam! Oh... ele no  lindo?  indagou, emocionada, ao ver o beb.
Sam olhou para o filho recm-nascido e para a mulher que o gerara, o rosto coberto de lgrimas e suor. Ele mesmo verteu uma lgrima ou duas e no se importou em mostr-las.
  Sim, ele  lindo  murmurou, rouco. 
No s o beb. Voc tambm.


Josie convenceu-se de que valera a pena. Era a mais pura verdade.
No teria perdido aquela experincia por nada. A criana maravilhosa iria chamar-se James Samuel Nolan Fletcher, ou Jake, para simplificar.
Sam revelou-se um pai zeloso desde o primeiro instante.
Fora um marido esplndido tambm durante todo o parto. Estivera todo o tempo ao lado de Josie.
Mas, ento, desaparecera.
Josie adormecera logo ao ser transferida para o quarto e no viu mais Sam ao acordar.
A alegria que sentira, a euforia aps o parto, tudo se evaporou. Sentia-se s, abandonada, desolada.
Sam partira. Sem dizer nada. Parecia que esse era o seu destino.
Ele vinha, ajudava e partia.
Olhou novamente ao redor pelo quarto. No havia sinal da presena de Sam. Nem uma indicao de que ele fizera parte de sua vida.
Exceto por Jake.
E era assim que seria, dali para a frente, sabia Josie. A adrenalina do parto j se dissipara e a realidade tomava conta.
E a realidade era: Sam casara-se com ela para dar seu nome ao beb. Permanecera a seu lado durante a gravidez, dando-lhe apoio moral, mostrando-se forte e responsvel. Ao lhe dar a pousada, garantiria sua segurana financeira.
Mas depois iria embora.
Sempre soubera que ele iria.
Haviam at concordado com aquilo. E, ento, seriam s ela e Jake.
"Ento, v se acostumando", aconselhou-se, e afastou as lgrimas que brotaram. "V se acostumando." Respirou fundo e enxugou o rosto com as costas da mo. "Sinta-se grata pelo que tem."
Sentia-se grata. Jurava que sim.
Mas a realidade tinha que comear to cedo?
Como pudera ser to tola, naquelas ltimas semanas, a ponto de permitir que Sam invadisse sua vida e sua cama? Seria mais difcil agora?, pensou. Sentir apenas o gosto do paraso era pior do que nunca ter experimentado?


Dois dias depois, Sam e Josie chegaram em casa com Jake. A equipe de produo estava no ptio, bem no meio de um ensaio fotogrfico, em meio a refletores, fios eltricos e cmeras. Modelos e tcnicos aprontavam-se, sob o olhar fascinado das gmeas ruivinhas.
 Vou pedir que faam as fotos noutro lugar  decidiu Sam, imaginando que o barulho fosse incomodar Josie e o beb.
 No, eles no esto atrapalhando  afirmou ela. Eram uma distrao e, alm disso, seu trabalho promoveria o nome da pousada.
Sam relutava. 
 Mas...
 Deixe-os  decidiu Josie.  No podemos impedi-los de trabalhar.  Num tom mais conciliatrio, acrescentou:  No seria bom para a pousada.
Esse era outro assunto sobre o qual vinha refletindo. Ainda que Sam garantisse seu sustento, no se sentiria satisfeita. Precisava de um trabalho ao qual se dedicar, de pr suas idias em prtica, de criar.
Precisaria de uma ocupao, mais do que nunca, quando ele partisse.
Sam mostrava-se contrariado, mas ento Izzy e as gmeas chegaram correndo para ver Jake.
Encantadas, as trs fizeram observaes sobre os dedinhos e a boquinha do beb. Depois, Sam conduziu Josie para a varanda e ela se sentou no balano com o beb.
As modelos e a maquiadora tambm foram conhecer o recm-nascido. At Finn e os outros rapazes da equipe se sentiram na obrigao de dar boas-vindas ao novo ser. Josie ficou feliz por t-los todos ali.
Sam mantinha os dentes cerrados, parecendo querer tirar todo mundo dali. Mas no levou adiante a vontade. Mesmo assim, props que ela fosse para a biblioteca descansar.
 No  respondera ela.
No queria descansar. No queria ficar sozinha.
Sabia o que aconteceria se ficasse sozinha: pensaria em seu futuro sem Sam. Haveria bastante tempo para isso. Teria anos para contemplar sua vida de tristeza.
Finn chamou-lhe a ateno e posicionou a cmera para tirar uma foto.
 Oh, no  protestou Josie, e escondeu o rosto.  De mim, no! Agora no!
 No se preocupe  avisou Finn, batendo vrias chapas seguidas.  No vou coloc-las em nenhuma revista de circulao nacional.  que estou percebendo que a maternidade deixa as mulheres bonitas.  Sem avisar, virou-se para o outro lado e tirou uma foto da esposa.
Josie levou um segundo para entender.
  Izzy, voc est grvida?
Ruborizada, Izzy confirmou, e Finn olhou-a com tanta ternura que Josie teve vontade de chorar.
Por que Sam no podia se sentir daquele jeito com relao a ela?
Ele estava parado junto ao balano, batendo o p, impaciente.
Podia sentir que ele a olhava intensamente.
No conseguiu encar-lo.


Em algum momento, ele a perdera.
Ou talvez nunca a houvesse tido, para comear, refletiu Sam, de p na beira da encosta que dava vista para a cidade.
Josie s se casara com ele porque engravidara. No porque o amava. Ela aceitara se casar porque era a atitude correta. No porque queria passar o resto da vida a seu lado.
Ela aceitara se casar porque ele exigira.
Ento, por que ficou surpreso quando ela o deixou de lado? Por que se sentia magoado quando ela se retraa e franzia o cenho?
Sentira a repulsa quase que imediatamente, quando voltara ao quarto na maternidade, aps ter-se ausentado para comprar-lhe flores.
Ela estava acordada. At sorrira-lhe, mas, ento, desviara o olhar. Mesmo ao receber o buque, mal olhara para ele.
Ela agia como se no se importasse se ele estava vivo ou morto.
A verdade era que ela no se importava. Para Josie, ele no importava. No agora.
No mais. Ele servira ao propsito. Dera apoio no final da gravidez e no parto. Continuaria a apoiar financeiramente e daria o nome  criana.
Mas ela mesma no precisava mais dele.
Talvez nunca tivesse precisado.
Talvez, ele apenas tivesse desejado...
Afastou o pensamento. Mas no deixou de fazer outra ponderao: logo teria que ir embora para deix-la livre. Sabia que no tinha escolha. Prometera-lhe isso.
E cumpriria.
Mas no imediatamente.
No podia ir embora logo. Ela ainda estava se recuperando. Ela poderia us-lo ainda por algum tempo. Uns poucos dias.
Semanas? Assim esperava.
A idia deixou-o mais relaxado.
Josie podia sentir Sam afastando-se dela. A cada minuto. Hora aps hora. Dia aps dia.
Ele no queria mais dormir com ela. Parecia claro que, agora que tinha Jake e mudara-se para seu quarto, seu interldio com Sam estava encerrado.
Na primeira noite, ele aparecera e ficara junto  porta, observando-a colocar Jake para dormir. Mas, quando ela mesma se recolheu, ele no entrou no quarto. Ao invs disso, ficou onde estava. Olhou para o beb, para o cho e, finalmente, para ela.
 Voc est bem?  perguntou.
O que ela deveria dizer? No?
Ele achava que ela imploraria que ele ficasse com ela? Dificilmente.
Ela assentiu.
  Estou tima.
  Ento, vou deix-la descansar.  E enfiou as mos nos bolso, voltou-se e foi embora.
Ela no dormiu durante a noite toda. Apenas cochilou. Ficou se revirando na cama. Ao mnimo rudo de Jake, j estava de p, com ele no colo. Porque seu beb precisava mamar, convenceu-se. Porque seu filho precisava dela.
  Oh, Jake  sussurrou.  O que vou fazer?
O beb continuou mamando. Logo, bocejou e adormeceu. Josie tambm caiu no sono, ainda na cadeira de balano, com Jake nos braos.
Acordou com uma batida na porta. Piscou e endireitou-se. J estava claro, mas ainda era bem cedo. O beb balbuciava, dormindo. .
  Quem ?  indagou Josie, no muito arfo.
A porta se abriu e Sam apareceu com cara de que no pregara o olto.
  Imaginei que voc poderia estar precisando de uma folga. Conseguiu dormir?
  Consegui  mentiu Josie.
Ela observou cautelosa quando ele aproximou-se. Desejou tomar-lhe a mo. Quis dizer-lhe "senti sua falta esta noite. Gostaria que estivesse aqui me abraando." Mas baixou o olhar e continuou embalando Jake. Sam parou junto  cadeira.
 No o ouvi chorando.
 Eu o pegava assim que ameaava.
 Ento, voc no deve ter dormido muito.
Ela ergueu o olhar e viu que ele a desafiava. Encolheu os ombros.
 Estou em harmonia com ele, acho.
  Acho que sim.  Sam hesitou.  Deixe que eu o coloco no bero para voc.
Sam tomou o beb e aninhou-o desajeitadamente contra o peito. Jake se mexeu e ameaou chorar. Josie pensou que ele o devolveria imediatamente, mas, em vez disso, ajeitou-o contra o ombro, murmurou uma palavra de conforto e esfregou-lhe as costas.
Josie lembrava-se daquela mo em suas costas... Levantou-se rpido.
 J que vai cuidar dele, vou tomar um banho.
A gua relaxante no a ajudou a aliviar as lembranas. Ao sair do banho, viu que Jake no estava no bero. Correu para fora do quarto e colidiu com Izzy.
 Opa!  exclamou a moa, sorrindo.  Onde  o fogo?
  No consigo encontrar Jake. Sam ia coloc-lo no bero e...
  Sam est com ele.
 Mas ele estava dormindo.
  Ainda est.  Ela tomou a mo de Josie.  Venha comigo.
Sam estava na sala de estar, estendido de costas, dormindo, com o filho sobre o peito, de polegar na boca e bumbum para cima.
Josie engoliu em seco. No sabia o que dizer.
  Sempre soube que Sam daria um excelente pai  comentou Izzy.  Esse era um dos motivos pelos quais quis me casar com ele.
  Por que no se casou?  Josie mal sussurrava as palavras. 
Izzy sorriu.
  Porque o que ns tnhamos no daria para acender uma vela em relao a Finn. E tambm no era nada em relao ao que Sam sente por voc.
Josie ia protestar, mas no foi capaz. Sorriu, pois Izzy parecia estar aguardando por isso. Olhou para o marido e o filho e desejou que aquilo fosse verdade.


Por quanto tempo se enganaria?, imaginou Sam. Por quanto tempo fingiria que ela precisava dele?
No por muito tempo.
Finn, Izzy e o grupo todo tinham partido no final d semana. Imediatamente, Josie retomara a administrao da pousada com unhas e dentes.
Assim que os quartos foram desocupados, comeou a reserv-los para os hspedes novamente.
Mesmo assim, Sam adiava a partida. Sabia, pela expresso de Josie, que ela no estava contente com aquela situao, mas, como ela no dizia nada, ia ficando.
Teria sido mais fcil fazer-se necessrio se Jake no fosse um beb to tranquilo. Se ele chorasse a noite toda e ficasse inquieto durante o dia, deixando a me exausta, seria fcil oferecer-se para se revezar com ela.
Mas Jake era um beb perfeito. Dormia bastante, mamava bem e, quando ameaava chorar, Josie atendia-lhe a necessidade, de alimento ou ateno, e logo podia voltar a seus afazeres.
Sam era suprfluo e sabia disso.
Torceu para que ela dissesse fique. Teria atendido de imediato.
Mas ela no pedia. Mal olhava para ele, quanto mais conversar! Era bvio que ela o queria fora de sua vida. Ento, a secretria Elinor telefonou e disse sucinta: 
 Lembra-se de mim? Lembra-se da Fletcher's? Lembra-se do sr. Raichakit? Ele quer voc na Tailndia. J.
Sam no tinha motivo para no ir.
 Vou embora  anunciou a Josie, que conversava com um grupo de professoras hospedadas na pousada.  Preciso ir para a Tailndia. Esta tarde.
 Tailndia? Esta tarde? Imaginem s  comentou uma professora.  Bem longe de Dubuque!  isso que eles querem dizer com aldeia global.
  Foi o que eu disse a meus alunos.  O marido da professora ergueu os culos e continuou:  No semestre passado...
Sam no estava ouvindo nada. Estava olhando para Josie.
E para Jake.
"Diga alguma coisa", torceu. "D-me um sinal. Uma palavra. Um olhar. Detenha-me."
Ela no se mexeu. Nem mesmo balanou. Ficou ali, sem reao, como uma pedra.


Jake comeou a ter clica.
Sam no ficou sabendo.
Errol Flynn teve filhotes. Ele tambm no tomou conhecimento.
As estudantes no trabalharam no vero e Josie precisou contratar outras ajudantes. E Sam tambm no ficou sabendo.
Ele telefonara da Tailndia. E de Nova York ao voltar. Nunca conversaram sobre eles mesmos.
  Como vai o Jake?  repetia ele, sempre a mesma pergunta.
 Bem  respondia Josie sempre, fosse ou no verdade.
 O que ele est fazendo?
 Dormindo...  dizia ela.  Mamando... 
Mas ela jamais dizia chorando.
Se dissesse, ele poderia achar que ela no estava cuidando bem do filho de ambos.
Ele parecia mesmo pensar assim.
 Posso ir, se precisar de mim  oferecera-se, a certa altura.
 No, no precisa  dispensara Josie, segura. Sentir a falta dele era terrvel, mas t-lo ali por perto, v-lo todos os dias, observ-lo com Jake e no ser capaz de toc-lo seria muito pior.
Nunca perguntavam um sobre o outro. S conversavam sobre Jake.
Porque s Jake importava.
Por mais que repetisse esse mantra, no fundo, Josie sabia que no era verdade.
Sam importava tambm.


Sam colidiu com Izzy no Central Park. Literalmente.
Ia a p do trabalho para casa, ansioso por telefonar e saber das duas nicas pessoas que davam sentido a sua vida. Faltavam trs horas!
Izzy estava patinando com as gmeas.
 Opaaaa!
  Izzy! Voc est bem?
No a vira mais depois que a equipe deixara a pousada, havia um ms. Parecia uma dcada. Uma vida inteira.
 Sam! Que bom encontr-lo aqui!  Ela se inclinou e deu-lhe um beijo no rosto.  Voc est horrvel.
 Obrigado  declarou Sam, sem se importar.  Desculpe-me por no poder dizer o mesmo.
Izzy estava maravilhosa. Havia em seu semblante aquele fulgor que acompanhava a conscincia da maternidade. Vira o mesmo brilho em Josie.
  No devia estar patinando!  alertou.  Pode se machucar.
 Estou bem protegida  respondeu Izzy.  E pararei quando o mdico disser para parar. A menos que tenha se formado em medicina desde a ltima vez em que nos vimos.
Sam franziu o cenho. As gmeas notaram que Izzy tinha ficado para trs, voltaram e ficaram patinando em crculos ao redor deles.
 Oi, Sam! Onde est o Jake? E a Josie?
 Isso mesmo  reforou Izzy, sorridente.  Onde esto Jake e Josie? Quando voc voltou?
  H duas semanas.  Sam evitou a outra pergunta.  E voc, como est?
 tima. Mas estou sentindo algo estranho  comentou Izzy.  Queria trocar idias com Josie.
Sam olhou para o cho.
 Josie ficou em Dubuque.
  Em Dubuque? Por qu? Voc ainda no vendeu a pousada?
 No vamos vender a pousada.
 Ento, Josie est treinando um novo gerente?    .
  No, Josie no est treinando ningum. Ela vai ficar l.
 O que quer dizer com "vai ficar l?"
 Exatamente isso. Ns... no vamos ficar juntos.
 Por que no?
  Izzy! Que inferno! Voc no devia fazer esse tipo de pergunta!
Ela levou as mos aos quadris.
 Gostaria de saber por que no!  uma pergunta sensata, uma vez que h um ms vocs praticamente eram inseparveis.
 Ela estava grvida! Precisava de mim naquele momento!
 E agora no precisa mais?
 No, bolas, no precisa.
  Uma mulher com um recm-nascido, trs gatos, um cachorro, uma dupla de velhinhos e uma pousada de vinte cmodos no precisa de ajuda?
 No da minha.
 Ela lhe disse isso?
 Disse.
 Eu no acredito.  Ela fez uma pausa.  Ou talvez acredite.
 O que quer dizer?
  Voc j disse alguma vez a ela que a ama? 
Ele no respondeu, mas a concluso era evidente.
 Sam...
 Ela no ia querer ouvir. Ela nem mesmo queria se casar comigo! Nos casamos por causa de Jake, bolas! Eu a forcei a se casar comigo. 
 Entendo  resmungou Izzy.  Mas voc nao a forou a fazer amor quando a engravidou, no ?
 Claro que no!
 Bem ento por que acha que ela aceitou?
 Ns tnhamos bebido  explicou Sam.  Estvamos passando por um momento ruim. Voc... Ela e Kurt... Nao foi porque ela me amava!
 Sam, como voc  idiota!  concluiu a ex-noiva, desgostosa.


CAPTULO ONZE


Sam Fletcher conduzia seus negcios como se fosse um jogo de xadrez, convicto de estar fazendo a coisa certa, de estar deslocando a pea fundamental. Profissionalmente, era ousado, arriscava o que era preciso para obter o que queria.
Ento, por que simplesmente no ia a Dubuque e se confrontava com Josie, perguntando-lhe se ela o amava e declarando que a amava?
Adiava a deciso, detinha-se, continha-se. Izzy quase o agredira no parque, de to inconformada.
 No posso acreditar  zangara-se a ex-noiva, ao enxergar o triste quadro que era a relao dele com Josie.  Voc est cego? Josie  louca por voc!
 No  negara ele. 
Seria?
Ousaria ter mais esperanas? Fizera isso antes. Observara-a a cada momento, procurando sinais, uma palavra, um gesto, um sorriso.
No identificara nada.
Era disso que tinha medo? Mas o que poderia ser pior do que o nada, que era o que ele tinha?
Temia que ela despedaasse seu corao.
Talvez, e isso no contara a Izzy, porque j fora rejeitado antes.
Acreditara-se apaixonado ao ficar noivo de Izzy, e que ela tambm estava apaixonada por ele. Mas o que tinham no sobreviveu  aproximao de Finn. Embora tivesse deixado-a partir com um sorriso e um aceno, na verdade, ficara magoado.
Sabia o quanto a rejeio doa. E a dor que conhecia no se equipararia quela que Josie provocaria se dissesse que no o amava, que nunca poderia am-lo.
Se no enfrentasse o problema, poderia fingir. Poderia se convencer de que ela se importava um pouquinho, que se importaria mais, algum dia, se ele lhe desse espao, tempo, incutindo-lhe a noo do amor aos poucos, deixando esse sentimento crescer dentro dela. Poderia levar anos.
Sam sempre considerara-se um homem paciente.
No desistia. Telefonava. Todas as noites.
 Como est Jake?  indagava, quando queria questionar: "Voc me ama?"
 Ele j consegue sorrir?  "Se eu dissesse que a amo, voc se importaria?"
E todas as noites obtinha respostas. Mas queria mesmo era as respostas s perguntas que jamais ousara verbalizar.
Todas as noites, desligava o telefone sentindo-se mais solitrio e mais desolado do que na noite anterior.
  No sei por que Josie continua em Dubuque  comentou sua me, dias antes, preocupada.  No entendo por que a deixa l.
  Josie tinha uma vida antes de se casar comigo  respondeu Sam. No era uma resposta. Mas no tinha coragem de contar a verdade  me.
At a secretria Elinor tomara a liberdade de critic-lo!
  Sabe, se eu acreditasse que a clonagem de humanos  possvel, juraria que tinham feito um clone de Sam Fletcher em Dubuque e mandado o Sam incompetente para Nova York.
Sam olhou-a distante.
 O qu?
 Vamos dizer que voc era mais eficiente quando trocava o papel de parede com uma das mos e conduzia os negcios com o telefone na outra! Volte para Dubuque, Sam. Volte para seu filho e sua esposa!
Iria, pensou Sam, deixando a correspondncia do dia no balco da cozinha ao chegar ao apartamento de cobertura na Quinta Avenida, se acreditasse por um minuto que Josie o queria tanto quanto ele a queria.
Suspirou e espalhou a correspondncia desleixadamente, levando ao lixo o que era irrelevante, como propaganda e circulares. Sobraram as contas e... um envelope endereado  mo.
Pegou-o e abriu-o. Havia uma fotografia e um bilhete. De Izzy. Havia uma nica frase escrita: "Finn acha que uma foto vale milhares de palavras".
Ele largou o bilhete sobre o balco e observou a fotografia. Devia ser uma das que Finn tirara na tarde em que ele e Josie chegaram da maternidade com Jake. Ela estava sentada na varanda segurando o beb, mas no olhava para ele. Ela olhava para o homem de cala de sarja de p a seu lado.
Reconhecia-o. Era ele mesmo.
Lembrava-se daquele momento. Olhando para o filho, desejava ter coragem para encarar a me do garoto e dizer-lhe o quanto a amava. Mas no ousou.
Agora, descobria que a me de Jake estava olhando para ele!
No se lembrava de ter visto Josie olhando para ele daquele jeito antes. Nunca captara a ternura da saudade em seu olhar, nunca ousara imaginar aquela expresso em seu rosto.
Seria verdade?
Ou Finn era um excelente fotgrafo?


Josie estava com queijo cremoso, mas, canela e uvas passas at os cotovelos. S desejava que Jake no acordasse at ter acabado de misturar o recheio das panquecas do caf da manh do dia seguinte. Ele passara o dia todo agitado.
 So os dentinhos  apostou Benjamim.
 Ele s tem seis semanas  ponderara Josie.
Mas Benjamim fora inflexvel. Ele e Cletus eram loucos pelo "neto honorrio" e, at onde entendiam, Jake estava muito  frente de qualquer outra criana de sua idade, mesmo quando se tratava de tornar a vida da me miservel com seu choro.
Jake finalmente dormira um pouco aps as nove horas. Josie ficara aliviada, pois assim Sam no o ouviria chorando quando telefonasse.
Sam ligava todas as noites, nem sempre s nove, mas dentro desse horrio. Josie mantinha o telefone celular no bolso enquanto subia para recolher um acolchoado de plumas ao qual um dos hspedes era alrgico, ento voltava para transferir as gatinhas de Errol da copa para o poro, para no serem pisoteadas no dia seguinte.
Deixou o telefone sobre o bufe enquanto arrumava as mesas para os quinze hspedes que tomariam o caf da manh no dia seguinte, mas pegou-o ao subir ao terceiro andar para entregar um buque de flores, que chegara bem tarde. Sem se desgrudar do aparelho, convocou Cletus para ir buscar um casal no cassino flutuante, pois o carro deles quebrara no estacionamento.
Quando voltou ao queijo cremoso e mas, estava preocupada, pois Jake poderia ficar agitado e comear a chorar novamente. Uma rpida olhada em Jake no carrinho, que deixara na copa, revelou-lhe que ele estava, felizmente, adormecido.
Josie voltou para a copa e mergulhou na mistura de mas, canela, passas e queijo cremoso, rezando para que Jake no acordasse e para que Sam no ligasse enquanto ela-no tivesse acabado a tarefa.
Estava com creme at quase os cotovelos quando ouviu o primeiro suspiro frgil. Depois, um soluo. A seguir, o choro desesperado de um beb prestes a morrer de fome.
 Ai, no!  Josie mexeu mais um pouco a mistura e tentou limpar o excesso das mos, mas boa parte permaneceu grudada na pele.
 J estou indo, fofinho!  cantarolou, enquanto segurava a vasilha com os antebraos e carregava-a at a pia.
Jake berrava a plenos pulmes.
 J estou indo. Aguente firme.
Ela se voltou para pousar a vasilha e colidiu com um trax masculino.
 O que h com ele?
Josie no acreditou no que seus ouvidos captaram, nem no que seus olhos viram. Sam? Ali em Dubuque?
Ele tirou a vasilha de suas mos e pousou-a no balco.
 O que h com ele?  perguntou novamente, esticando o pescoo para ver o carrinho na copa.
 E-ele est com fome  gaguejou Josie.  Preciso dar de mamar.
 Ento, lave as mos.
 Eu ia lavar! O que voc est fazendo aqui? 
Ele no respondeu. Foi  copa e pegou o beb.
 Nossa, como ele cresceu! Est com o dobro do tamanho! 
Sam estendeu a criana agitada de p a sua frente, apreciando-a.
 No exagere  retrucou Josie, esfregando furiosamente as mos.  O que est fazendo aqui?  perguntou, mais uma vez.
 Segurando meu filho.  Sam ergueu Jake nos braos e alojou-o junto ao ombro para esfregar-lhe as costas.
O beb se acalmou um pouco.
Jos apalpou o bolso para verificar se o telefone celular ainda estava l. Era como se o houvesse esquecido em algum lugar e materializado Sam, para compensar.
Embalando o filho, Sam aguardava que ela se sentasse na cadeira de balano.
Josie sentou-se, mas ele ainda no lhe entregou Jake. Continuou esperando.
Embaraada, ela abriu a blusa e estendeu as mos para pegar o beb, sem olhar para Sam.
Fez-se uma pausa. Josie ouvia a respirao suave de Sam enquanto ajeitava o beb em seus braos.
O beb comeou a mamar, satisfeito. Josie segurava-o de forma protetora, embora estivesse, na verdade, tentando se proteger.
Sam ajoelhou-se perto da cadeira de balano. Ela no o encarou. No podia. Apenas indagou:
 O que foi?
 Eu te amo.
Ela ergueu o olhar. Uma mulher podia ficar desnorteada ouvindo algo inesperado como aquilo!
Talvez no tivesse ouvido. Talvez tivesse sonhado. Franziu o cenho.
 No faa isso  admoestou Sam, alisando-lhe a pele entre as sobrancelhas.
Se ela tivesse as mos livres, teria se defendido. O que ele pretendia com aquela declarao? Esquivou-se.
 No aperte o cenho e no brigue comigo  apaziguou ele, os olhos castanhos fixos nela.  No me diga para ir embora.
Josie balanou a cabea, confusa. Desesperada. Era como se seu sonho maior se tornasse um pesadelo.
 Do que est falando?
 De ns.
 Como assim?
 Quero que nosso casamento seja verdadeiro.
 Mas voc no me ama  argumentou ela, com medo de ter esperanas.
 Amo, sim.
 No ama!
 Agora eu amo... no sei h quanto tempo.  Ele balanou a cabea.  Acho que no percebi na hora.  Deu um sorriso triste.  Sabia que voc estava me deixando louco, mas no percebi que era amor at que voc entrou em trabalho de parto.
 Quando entrei em trabalho de parto?  espantou-se Josie.  O que aconteceu para tanto?
 Eu queria que voc sorrisse.
Era to simples, e to ilgico, que Josie no tinha como duvidar. Riu, balanou a cabea e piscou para afastar as lgrimas.
  Por que voc no disse isso antes?  questionou, a voz alterada pela emoo.
Ele deu um sorriso sem jeito.
 Eu achava que voc no me amava.
 Mas...
  Com certeza, voc nunca disse que amava.
 E deveria? Quando voc estava se remoendo por outra mulher?
Sam ficou srio.
  Izzy me disse que eu era um idiota.
 Conversou com Izzy sobre esse assunto?
  Eu no queria conversar com ela  admitiu Sam, triste.  Mas ela me obrigou.
 E voc deu razo a ela?  "Tinha sido mesmo assim to simples?"
  Tentei, mas tive medo. Ento, ela me mandou uma fotografia.
Ele se levantou e tirou a carteira do bolso de trs da cala. Retirou uma fotografia e entregou-a.
Josie olhou para o instantneo eternizado em papel brilhante. Nunca imaginara que seus sentimentos por Sam fossem to aparentes. No fazia idia de que seu amor e sua ansiedade por ele estivessem ali, estampados em seu rosto, para todo mundo ver.
Baixou os olhos para os cabelos macios de Jake. Acariciou-lhe o rosto. Sam estendeu a mo e envolveu a dela.
 Voc me ama.  No era uma pergunta. As palavras tinham um tom de... esperana.
Josie conseguiu levantar o rosto e fit-lo.
 Amo, h anos  confessou, serena. Sam pareceu ficar horrorizado.
  H anos?!
  Desde a primeira vez em que o vi. Naquele vero, quando eu era a moa da limpeza. Voc era o meu ideal de homem perfeito.
Sam ficou constrangido e olhou para a parede.
  Imagine  murmurou, a voz abafada.
  Eu pensava assim  afirmou Josie.
 Voc ia se casar com Kurt.
  Voc estava noivo de Izzy  rebateu ela.  Mas o compromisso com Kurt foi um erro. Reconheo isso agora. Eu no era a pessoa certa para ele.
 Ele no era a pessoa certa para voc  corrigiu Sam.
  Os dois  concordou Josie. No ia discutir esse assunto.  Gostaria de ter percebido isso antes...  Ajeitou o canto do cobertor de Jake com os dedos.
Sam quis saber:
  Arrependeu-se de ir para a cama comigo? 
Josie olhou-o terna.
 No. Eu faria tudo outra vez.  Contemplou o filho.  Por Jake.
Passaram-se alguns segundos. Ento, Josie retificou:
  No, no apenas por Jake. Por voc tambm.
Ele se inclinou sobre ela, tomando cuidado para no fazer peso sobre o beb, e beijou-a nos lbios. Ento, afastou-se e tirou outra fotografia da carteira.
Outro instantneo de Finn, no qual Sam olhava para a esposa e o filho. A expresso dele era idntica  dela.
Josie observou a foto e ento olhou para Sam.
Ele sorriu.
  Para voc  informou.  Assim, voc nunca vai se esquecer do quanto eu a amo tambm.


  Acha que Hattie se importaria se voc vendesse a pousada?  perguntou Josie, bem mais tarde, ou melhor, quase na manh seguinte, enquanto estavam abraados na cama.
  Acho que era exatamente o que tia Hattie tinha em mente quando me deixou o negcio  declarou Sam.  Alis, tenho certeza de que ela orquestrou todos os acontecimentos.
 E o cachorro e os gatos?
 Podemos vend-los tambm.
 No!  protestou Josie.  No podemos, eles so da famlia.
  Est bem. Ns ficamos com eles  concedeu Sam. Bem amado e em paz com o mundo, tolerava quase tudo.
 E Benjamim e Cletus?
 No vamos ficar com eles!
 Mas eles vo ficar solitrios.
 Eles podero ir nos visitar.
 Vo querer ver Jake crescer.
 Ns viremos visit-los  prometeu Sam. Josie sorriu.
 timo. Quero voltar sempre. Vou sentir saudade deles. Vou sentir saudade da pousada e de Dubuque!  Fitou-o encantada.  Eu te amo, Sam.
Ele rolou com ela nos braos.
 Tambm te amo.
 Prove...
 De novo?
Ela passou o dedo na orelha dele, provocando-lhe arrepios.
 Bem, se estiver enjoado... 
Ele fingiu indignao.
 Na verdade, sra. Fletcher, no consigo pensar noutra coisa...



ANNE MCALLISTER nasceu na Califrnia. Passou vrios veres preguiosos sonhando acordada nas praias locais, observando surfistas, banhistas e jogadores de v-lei de praia no esforo para encontrar o heri perfeito. Finalmente conseguiu, no na praia, mas na biblioteca da universidade onde trabalhava. Ela, o marido e os quatro filhos se mudaram para o Meio-Oeste. Ela lecionou, fez edio de texto, embalou desodorantes e escreveu sermes ameaadores antes de se concentrar em sua primeira paixo: escrever romances de fico.
Indicada a prmios, Anne McAllister escreve com calor humano e vontade, criando heronas que voc adoraria conhecer, e heris pelos quais voc se apaixona... instantaneamente! Suas narrativas so geis, engraadas e emocionais  voc vai ficar envolvida at a ltima pgina!

